Minha casa, minha história

Abaixo excertos da crônica que publicarei no próximo domingo, no Jornal Pequeno.

“[…]Todos os anos é a mesma coisa: as pessoas humildes, sem ter onde morar,  por pura falta de vontade política, sobem os morros, constroem seus casebres, enfrentando toda sorte de dificuldade, para, depois, com as primeiras chuvas,  ver seu sonho, sua vida e sua história levados numa enxurrada.  É que, nesses casos, as enxurradas não se limitam a levar a casa, a moradia, o abrigo (fisicamente considerados). Elas  levam, também, toda uma história de vida, o resultado de muito labor, o suor derramado, as noites insones,  os calos nas mãos, os sonhos sonhados, os projetos de vida, as perspectivas e as expectativas de uma vida melhor e mais digna no porvir.

Com as águas das chuvas de verão são levadas, na mesma balada, as  fotografias  que testemunharam os raros momentos de felicidade pelos quais passaram os que hoje choram a dor da perda, a roupa branca usada no casamento, a camisa listrada, a calça jeans e o sapato  guardados  com desvelo para as ocasiões especiais, o sofá que reunia a família em torno da televisão, a carteira de trabalho com o registro  do primeiro emprego, as cartas recebidas dos parentes distantes, as lembranças dos tempos de namoro, os brinquedos adquiridos com dificuldades para os filhos, os presentes, a bandeira do time de coração, o troféu conquistado nos campos de várzea, as (poucas) economias sob o colchão da cama, a própria cama,  o próprio colchão, que tantas vezes testemunharam  momentos de entrega, os planos feitos e a frustração de não poder realizá-los[…]”.

Atenção: a redação ainda pode ser alterada.

O ser humano e suas contradições

Os larápios ( rectius: politícos)  surrupiaram da saúde (rectius: FUNASA) o equivalante à verba necessária para reparar os danos causados pela catástrofe que  se abateu sobre a Região Serrana do Rio de Janeiro.

Larápios de igual matiz estão desviando parte das  doações feitas aos desabrigados e desalojados da mesma Região.

Gatunos travestidos de comerciantes se valem da situação proporcionada pela tragédia  para quadruplicar os preços dos produtos.

Homens de bem se unem para salvar homens e animais (gatos, cachorros, etc)

Homens da melhor estirpe esquecem os seus problemas pessoais para se unirem aos voluntários que cuidam dos que ficaram sem ter onde morar e  do que se alimentar.

A maioria, a quase totalidade do povo brasileiro se solidariza com os nossos irmãos atingidos pela tragédia.

Uma minoria desqualificada age como sempre agiu: como oportunista.

É a vida. O ser humano é assim mesmo.

Uns ajudam; outros atrapalham. Uns destroem; outros constroem.

Desde que o mundo é mundo que as coisas fluem dessa forma.

E viva aos homens de bem.

O que se espera de um homem público

O homem público, sobretudo, não pode ser insensível. Se não tiver sensibilidade, não pode ser homem público.

A propósito, o então presidente do Estados Unidos, George W. Bush, por ocasião  das enchentes causadas pelo furacão Katrina, que matou 1.826 pessoas, em Nova Orleans,  limitou-se a sobrevoar a área, a bordo do Force One, deixando entrever, a primeira vista,  a sua falta de compromisso para com as vítimas.

Agora, em sua autobiografia ( Decison Points), ele  se penitencia:

“A imagem de eu pairando acima da devastação sugeria um descolamento do que as pessoas estavam sofrendo. Não era como eu me sentia. Mas, uma vez que a opinião pública estava formada, eu não poderia mudá-la”.

Compreendo que as autoridades, diante de questões que tais, têm o dever de sair do conforto do ar condicionado para ir onde o povo está. Isso mostra, no mínimo, sensibilidade e compromisso com a causa.

É inconcebível que uma autoridade, diante de uma catástrofe, não se digne a, pelo menos, mostrar a cara, para dizer ao povo que está com ele solidário.

Os exemplos de solidariedade não podem ser dados apenas pelas pessoas mais humildes, como tem sido a regra.

Se é verdade, como dizia Silvio Romero – de quem ouso discordar – , que o homem não pode ser coagido a praticar o bem e que não é dever do Estado suprir a miséria, não é menos verdadeiro que do homem público se espera que uma força interna o impulsione para fazer o bem, para minimizar os efeitos das tragédias que decorram dos fenômenos naturais, para  demonstrar solidariedade e dar um pouco de  esperança ao povo que o elegeu para dirigir os seus destinos.

O que não quero para mim não desejo para ninguém. Verdade?

Superado um desafio ou vencida uma dificuldade, costuma-se dizer:” que passei não desejo ao meu  maior inimigo”  ou ” o que não quero para mim, não desejo pra ninguém”. Verdade absoluta? Não! Claro que não! Há exemplos vários a demonstrar que, muitas vezes,  essas afirmações são  apenas força de expressão.

Mas há, sim, os que, tendo passado por uma dificuldade,  fazem de  tudo para que o semelhante não tenha que enfrentar os mesmos desafios. Eu, por exemplo, tendo  enfrentado sérias dificuldades em face da ausência do meu pai, procurei sempre me fazer presente na vida dos meus filhos. Acho que, em face do que sofri, eu até exagero. Mas, tudo bem! Os meus exageros são plenamente justificados pelo amor intenso e incondicional que lhes dedico.

Noutro giro,  não se há de negar, há pessoas que,  apesar das dificuldades passadas, são capazes de infligir aos semelhantes as mesmas  penas, os mesmos castigos, sem que se saiba ao certo a título de que preferem repetir o erro que condenaram, ao invés de seguir em outra direção.

Por volta de 1830, o escravo José Francisco dos Santos,  depois de anos de trabalho forçado, viu-se livre da escravidão. Conseguiu a sua carta de alforria, comprando-a ou ganhando de algum amigo rico.

José Francisco dos Santos, o “Ze Alfaiate”, apelido que ganhou porque cortava e costurava tecidos,  foi trazido da África para o Brasil,  amarrado, em um navio imundo, na mais tenra idade.

Depois de alcançar a sua liberdade, o que fez “Ze Alfaiate”?  Lutou contra a escravidão? Condenou os que lhes infligiram intensos castigos?  Não. José Francisco, ao invés, voltou à África e tornou-se, ele próprio,traficante de escravos.  Casou-se depois com uma das filhas de Francisco Félix de Souza, o maior vendedor de gente da África atlântica, e passou a mandar ouro, negros e azeite de dendê  para vários portos da América e da Europa.

Difícil entender?  Acho que não. Do ser humano pode-se esperar qualquer coisa. Infelizmente!

 

(Re)visitando a história

Há passagens da história que precisam ser revisitadas, sobretudo quando são exemplares.

No caso específico do Brasil, quando mais leio acerca do tratamento que D. Pedro dispensava a Dona Leopoldina, mais me convenço do quanto foi covarde, no particular.

D. Lepoldina, todas sabem, foi abandonada, vilipendiada, maltratada e submetida a situação de pobreza pelo nosso Imperador, que vivia um romance tórrido com a Marquesa de Santos.

Da última carta que D. Leopoldina enviou para sua irmã, Maria Luisa, ditada no seu leito de morte, apanho o seguinte excerto:

“Minha adorada mana. Reduzida aos mais deplorável estado de saúde e chegada ao último ponto de minha vida, no meio dos maiores sofrimento, terei também a desgraça de não poder eu mesmo explicar-vos todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não tornarei a ver! Não poderei outra vez repetir que vos amava e adorava. Pois já não posso ter esta tão inocente satisfação, igual a tantas outras que permitidas me não são, ouvi o grito da vítima que vós reclama não vingança, mas piedade e socorro de fraternal afeto para inocentes filhos que órfãos vão ficar em poder de pessoas que foram autores de minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até vós os últimos rogos da minha aflita alma.

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como vos tenho escrito, que por amor a um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado de maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro. Ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total esquecimento, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito muito tenho a dizer-vos, mas me faltam as forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será sem dúvida a causa da minha morte”

Alguns historiadores registram que o atentado a que se refere D. Leopoldina foram pontapés que recebera de D. Pedro, estando grávida. Mas não há testemunhas desse fato, razão pela qual não se pode afirmar, com certeza, que essas agressões tenham ocorrido, efetivamente.

A imperatriz morreu às dez e quinze da manhã de 11 de dezembro de 1826.

José Bonifácio, do exílio, escreveu a um amigo, a propósito da morte de D. Leopoldina:

A morte da imperatriz me tem penalizado assaz. Pobre criatura! Se escapou ao veneno, sucumbiu aos desgostos”

Sapatos furados

A minha história de vida se confunde com a história de muitos que, como eu, tiverem que superar dificuldades para vencer na vida. Lembro, por exemplo, que meus pais compravam sapatos (bem) maiores que a pontuação recomendada, ao argumento de que estávamos ( eu e meus irmãos) crescendo e que, assim, os sapatos serviriam por mais tempo. Em face do desconforto propiciado pela pontuação excessiva dos meus sapatos, eu colocava jornal nas pontas, para tentar ajustá-los aos pés. Mesmo assim, eu andava e os sapatos teimavam em sair dos pés, me compelindo a, com os dedos, tentar segurá-los, para que as pessoas não dessem conta do desconforto. Alguns colegas, os mais gozadores, davam-se conta da desproporção dos meus sapatos, e os apelidavam de sapatos de palhaço. Não preciso dizer do quanto isso me incomodava.

O mais grave, além do desconforto propiciado pelo tamanho dos sapatos, é que eles furavam antes de se ajustavam aos meus pés, fazendo cair por terra o argumento de que, por serem maiores, durariam muito mais, a justificar o desconforto a mim infligido.

Quando os sapatos furavam, não tinha alternativa: eu os forrava com papelão; papelão que não suportava a primeira chuva, sobretudo quando eu decidia voltar para casa a pé ( eu morava no Monte Castelo, em frente ao cinema) para, com o dinheiro da passagem, comprar manuê, de dona Martinha, que servia na cantina do colégio José Augusto Correa, onde fiz todo o primário, e que ficava por trás do ginásio Costa Rodrigues.

Essas lembranças me vieram a propósito das lembranças de Evaristo de Moraes, cujo excerto publico a seguir, a guisa de ilustração.

“…eu caminhava, todo dia da Hadock Lobo até o fim da Rua Primeiro de Março, onde está o Mosteiro de São Bento. Quando nas mãos me caía um níquel de duzentos réis,eu ficava sem saber se devia gastá-lo numa empada para merendar e voltar a pé para casa, ou devia voltar de bonde para casa e ficar sem merenda”.

Mais adiante:

“…quando chovia voltava com os sapatos encharcados. Minha mãe ia pô-los ao fogo para secar. Secavam aparentemente. E no dia seguinte, pela manhã, eu que só tinha aqueles, calçava-os de novo e lá vinha com a umidade dos pés por essa imensa extensão que vai da Hadock Lobo ao Mosteiro. Isso durante quatro anos seguidos, de 1883 a 87.

Não sou capaz de descrever quantas vezes coloquei para secar o meu único par de sapatos, e nem quantas vezes sequei o meu único par de meias pretas enrolando-as numa toalha de banho e torcendo até que ficassem apenas úmidas.

Cuidado com a primeira impressão

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“A verdade é que muitos só deixam patenteada a sua verdadeira personalidade – para o ou bem ou para o mal – depois de algum tempo de convivência, daí a reafirmação de que não devemos nos precipitar no primeiro julgamento”

José Luiz Oliveira de Almeida

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Não há ninguém que não tenha sido traído pela primeira impressão. É comum – mais do que comum – ouvirmos pessoas se penitenciando em face da primeira impressão, do primeiro julgamento. Eu mesmo já fui vítima da primeira impressão, do conceito precipitado. Eu mesmo já me antecipei num julgamento precipitado do meu semelhante, levado pela primeira impressão.

A verdade é que muitos só deixam patenteada a sua verdadeira personalidade – para o ou bem ou para o mal – depois de algum tempo de convivência, daí a reafirmação de que não devemos nos precipitar no primeiro julgamento.

Há incontáveis episódios enolvendo, por exemplo, casais de namorado que, a despeito dos vários anos de convivência anterior ao enlace matrimonial, só conheceram o parceiro, na sua essência, depois de conviverem sob o mesmo teto, daí, em muitos casos, a inevitabilidade da separação.

Convenhamos, se, a despeito dos vários anos de convivência ainda é possível se surpreender com a verdadeira personalidade do consorte, o que dizer, então, quando o julgamento é feito ao primeiro contato?

É de bom tom, pois, que não nos precipitemos quando do primeiro contato, para não incidirmos no erro de julgar equivocadamente o semelhante, como o fez, por exemplo, a princesa Leopoldina, que se deixou contaminar pela primeira impressão que teve de D. Pedro, que imaginou ser um princípe encantado e não o homem rude e infiel que se mostrou depois.

D. Leopoldina, a propósito, em carta datada de 08 de novembro de 1817, contou à irmã – claro que precipitadamente, que D. Pedro não era apenas lindo, mas também bom e compreensivo, para, depois, em 07 de dezembro de 1817, escrever ao pai dizendo que D. Pedro tinha o caráter bastante exaltado, lhe sendo odiosa qualquer coisa que denotasse liberdade, para, alfim, dizer que, diante dessa situação, só lhe restava “observar calada e chorar em silêncio”.

Nunca é demais, pois, ter cuidado com o primeiro julgamento, com a primeira impressão, pois você pode estar redondamente equivocado.

A falta que me faz o carinho de Luiz Augusto

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“[…]Luiz Augusto, irmão de Sofia e Carlos Augusto, são filhos de Frederico Augusto e Bela Almeida. São cinco gatos maravilhosos que criamos e que, com o seu carinho, nos renovam as energias. Pena que Luiz Augusto, ou “Gordinho”, como o chamamos carinhosamente, tenha decidido se afastar de mim. Se a única alternativa for trazer o trabalho de volta para casa, acho que não me furtarei de voltar à velha rotina, só para voltar a ser cortejado por Luiz Augusto[…]

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Quando no exercício da judicatura de 1ª instância – e nos primeiro meses, na condição de magistrado do segundo grau – eu tinha por hábito trabalhar todos os dias à noite, depois de fazer a minha habitual caminhada. Todos os dias, poucos minutos depois de abrir o processo, ele se aproximava dos meus pés e pedia carinho, às vezes inistentemente, a esgotar a minha paciência. Muitas vezes, mesmo sabendo que ele não entendia, eu clamava, já sem equilíbrio, que ele me deixasse trabalhar. Quando o processo não guardava complexidade maior, eu costumava parar para fazer-lhe carinho. Mas se era daqueles que exigia a máxima concentração, eu me recusava; e ele, sem esboçar nenhuma reação, depois de muito apelo, deixava meu gabinete e ia para o tapete da sala se deitar.

Ele era assim: diferente dos irmãos, ele era o único que pedia carinho a mim, por isso me apeguei a ele muito mais que aos irmãos, conquanto tenha o mesmo amor por todos.

Depois de atualizar o meu trabalho no Tribunal, decidi que não mais traria processo para casa, para que pudesse me dedicar mais à leitura. O trabalho sumiu e ele, Luis Augusto, também deixou de me pedir carinho. Parece até que havia uma simbiose entre o trabalho e o carinho de Luis Augusto: quanto mais eu precisava de concentração, mais Luis Augusto pedia carinho. Agora, dedicado ( à noite) apenas aos livros, ele me desprezou. Nunca mais pediu os meus carinhos. Sinto falta dele – e dos carinhos dele. Eu, muitas vezes, me aproximo dele em busca de afago, mas ele, invariavelmente, foge de mim. Luiz Augusto, irmão de Sofia e Carlos Augusto, são filhos de Frederico Augusto e Bela Almeida. São cinco gatos maravilhosos que criamos e que, com o seu carinho, nos renovam as energias. Pena que Luiz Augusto, ou “Gordinho”, como o chamamos carinhosamente, tenha decidido se afastar de mim. Se a única alternativa for trazer o trabalho de volta para casa, acho que não me furtarei de voltar à velha rotina, só para voltar a ser cortejado por Luiz Augusto.