Exercício de humildade

É de minha formação não falar de e sobre coisas que não conheço. E vou além! Me constrange ouvir alguém falar, às vezes aparentando convicção, sobre o que não conhece. Aqui e acolá, por não gostar desse tipo de comportamento, sou compelido a conviver com esse tipo de gente, que, desde a minha compreensão, quando fala do que não conhece, está, de certa forma, nos chamando a todos de otários. O pior é que, muitas vezes, por incursionar acerca do que não têm conhecimento, sofrem constrangimentos, quando são flagradas  numa lorota, todavia, ainda assim, prosseguem na sua faina, como se estivessem zombando de todos nós.

Compreendo que, quando o assunto é cultura, é preceiso ser humilde para admitir que o que sabemos é muito pouco, ou quase nada, em face do universo de informações que povoam o mundo.  Aliás, Sócrates ministrou bem essa lição. Assim é que, apontado como o mais sábio dos homens,  e não se achando digno da honraria, sentenciou, nas palavras reproduzidas  pelo seu discípulo PLATÃO: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio do que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”.

A propósito, há registros de  que Sócrates buscou, incessantemente, alguém mais sábio, supondo estar a serviço dos deuses. Consta, no entanto, que o resultado foi sempre o mesmo, isto é, todos falavam como se fossem sábios e mesmo os que conheciam alguma coisa tendiam a extrapolar seus conhecimentos, resvalando para assuntos sobre os quais não tinham nenhuma noção.

O que pretendo nessas reflexões é remarcar que, diante de determinadas questões, para as quais não temos respostas prontas numa prateleira,  é melhor indagar que responder, ouvir do que falar.

Isso se chama exercício de humildade.

Na laje sepulcral

Nós todos, todos os dias, todas as horas, fazemos história.
Todos os dias, a cada momento,  escrevemos mais um capítulo da nossa história, na condição de protagonistas ou na condição de coadjuvantes de outros personagens que, da mesma forma, vão construindo a sua própria história.
Diante dessa constatação,  olho para trás e vejo que, mesmo irrelevante, dentro de um contexto no qual  pontificam luminares,  vou construindo a minha história. Mas tenho consciência que não é muito,  que tudo que eu fiz  é quase nada e que, por isso, quase nada do que realizei será legado para a história, no sentido mais amplo do termo.
A verdade é que eu não posso, em face mesmo da minha quase irrelevância, ir além do que já construí, porque tenho a exata noção dos meus limites, da minha importância  no contexto no qual realizo a minha produção intelectual.
Em face do pouco que edifiquei, só  desejo que a história reserve para mim um lugar de destaque em face das minhas boas intenções e em face de nunca ter usado o poder para fazer o mal a ninguém.  Se algo tiver que ser escrito na minha lápide, depois que eu deixar a vida terrena, basta que fique consignado o seguinte: aqui jaz um bem-intencionado.
Conquanto constatemos, por óbvio, que cada um faz a sua história, não se há de obscurecer, com a mesma obviedade, que em torno de cada personagem da história criam-se fantasias, para o bem e para o mal, muitas deles com o claro objetivo de diminuir-lhes a importância. E o mais greve é que, algumas vezes, a fantasia, o lado negativo, enfim, acabo por preponderar no inconsciente das pessoas. O exemplos são inumeráveis.
Por mais que façamos, por mais que realizemos, por mais que nos destaquemos, haverá sempre quem trabalhe para minimizar o nosso valor, a nossa importância.  Ainda que reconheçam em nós algum valor, cuidam de  destacar um eventual defeito, pelo mórbido prazer de  minimizar o valor das nossas realizações.  Nesse sentido, todos sabem, seria até despiciendo dizer, que,  por muitos anos, fui alijado de promoções para a Corte estadual, ao argumento de que, embora fosse um magistrado correto e trabalhador, era arrogante e incendiário. À conta desse estigma fui sendo preterido.
Um dado apanhado da história ilustra bem essas reflexões. Protágoras *( O homem é a medida de todas as coisas) foi criticado duramente por Sócrates, pelo fato de cobrar pelas aulas que ministrava, e, à conta disso, ter progredido financeiramente, cumprindo consignar que as aulas que ministrava se destinavam aos jovens homens de famílias ricas ou nobres.Esse lado de Protágoras, que bem poderia ter sido relevado, em face do seu legado,  acabou servindo de pretexto para críticas acerbas, a reafirmar as conclusões que aqui emolduradas.
Constata-se, no exemplo, que, muito provavelmente, fossem quais fossem as virtudes de Protágoras, fossem quais fossem a sua  contribuição  intelectual para sociedade, para sociedade em geral e para Péricles em especial, ainda assim, seria criticado- se não fosse por esse motivo, seria por outro, afinal,  nenhum de nós escapa da maldade do homem. É dizer: ainda que não tivesse defeito, ter-se-ia que imputar-lhe um, fosse qual fosse, para minimizar a sua importância, como, de resto, aconteceu com o próprio Sócatres,  cujo morte sabemos em quais circunstâncias ocorreu.
A conclusão a que se pode chegar, em torno dessa questão, é que, por mais que façamos, por mais que realizemos, sejam quais forem as nossas contribuições para história, haverá sempre quem prefira, ao invés de reconhecer o nosso valor, nos criticar em face de uma ação menor.

*Protágoras, o mais conhecido dos sofistas, nasceu em Abdera, em 483 a.C. Era amigo pessoal de Péricles e foi o responsável pela incumbência de escrever as leis para a colônia de Turi, fundada em 480. Por ter afirmado que ninguém podia garantia a existência ou inexistência dos deuses, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Atenas, e as suas obras foram queimadas na praça da cidade. Morreu em 410 a.C., em um naufrágio, durante a fuga para Sicília.

Em busca de valorização

Todo mundo gosta de ser prestigiado; diria eu, valorizado, reconhecido.

Eu, tu, ele, ninguém fica indiferente em torno dessas questões.  A menos que não seja racional.
É próprio do ser humano gostar de ser reconhecido pelas  ações que realiza.
Velho, novo, ancião, seja quem for, todos nos sentimos bem quando nos prestigiam, quando nos valorizam, ainda que o seja por uma insignificante realização.
Claro que, em face de questões marcadamente pessoais, alguns gostam mais que outros, exigem mais que outros, se regozijam mais que outros.
Mas muito cuidado, porque o desejo de reconhecimento pode levar as pessoas ao extremo, como ilustrarei a seguir, com dois exemplos diametralmente opostos.
Pois bem. No domingo próximo passado estive com um tia, de oitenta anos, irmã do meu pai, aqui no Rio de Janeiro, que, depois de muitas recordações, de muito papo descontraído sobre as nossas vidas, deixou  claro que uma das razões pelas quais não volta para o Maranhão ( mora no Rio há 62 anos), onde estão todos os seus irmãos, é  sentir-se prestigiada, valorizada aqui.
Soa estranho, no primeiro momento, que alguém se sinta mais prestigiada em terra estranha que na sua. Todavia, muitas vezes, não se há de negar, nisso não há nada de inusitado. Muita vezes eu próprio tenho a sensação de que sou mais valorizado por ” estranhos” que por parentes. Mas isso é outra questão, que não deve ser lembrada.
O que importa mesmo para essas reflexões é reafirmar a necessidade que todos temos de ser valorizados, prestigiados, reconhecidos.
Vou adiante.
O segundo exemplo que gostaria de mencionar, para ilustrar essas reflexões, foi o depoimento de um policial( a matéria foi veiculada com o nome fictício),  mencionado numa matéria publicada no jornal o Estado de São Paulo, de 22 do corrente, o qual, dentre outras barbaridades, disse que, para se sentir prestigiado dentro da corporação, precisou matar, pois a todo tempo os seus colegas indagavam se já havia matado alguém, e responder-lhes sempre negativamente o deixava em situação desconfortável.
Esses dois exemplos, tirados ao acaso, reafirmam o que eu disse acima: todos buscamos reconhecimento, todos queremos ser prestigiados, todos queremos ser valorizados.
Só que uns em face do bem que realizou e outros, em face do mal que praticam.
É possível compreender o ser humano?

Escolhas morais

Na vida estamos, quase sempre, em conflito com as nossas escolhas.  É o prêço que pagamos por sermos racionais

Muitas vezes, premidos pelos circunstancias, diante de duas escolhas morais,  optamos, pelo mais diversos motivos, pela menos recomendável.

Disso decorre que, pelo erro, pela escolha equivocada, pagamos um preço, que, dependendo do gravame, pode nos afligir pelo resto das nossas vidas.
Eu, tu, ele, nós, todos nós, enfim, em determinados momentos da vida, fizemos  – ou melhor, fazemos – escolhas morais equivocadas. E todos nós, por fazê-lo, pagamos o preço correspondente, que, quase  sempre, é proporcional às suas consequências.
Quero dizer, com essas reflexões, que uma pessoa moral  deve saber escolher -ou, pelo menos,  tentar – dentre as opções morais, a mais recomendável, a mais consentânea, a menos gravosa, a que menos agredida. Quando não somos capazes, sejam quais forem as circunstâncias,  de fazer a melhor escolha, pagamos o preço do erro cometido.
Ser uma pessoa moral, portanto, significa não fazer escolhas por impulso, saber controlar os desejos, as forças internas, usar a razão, decidir à luz de um conjunto de regras, de imperativos (morais), o que, nada obstante, nem sempre é possível, daí ser prudente que, diante de um erro,  tenhamos o necessáirio equilíbrio para avaliar se, nas mesmas circunstancias, não agiríamos da mesma forma.
Devo admitir, cá  do meu canto, que, muitas vezes, tenho optado – como todos o fazemos, afinal – por escolher, dentre as opções possíveis, o pior caminho, a menos desejável, por absoluta falta de capacidade, nalgumas circunstâncias, de fazer a melhor, a mais razoável, a menos deletéria dentre as escolhas que poderia fazer, disso inferindo que, diante das escolhas morais, somos rigorosamente iguais.

Anarquia para uns poucos

Tenho a péssima sensação de que as leis no Brasil são destinadas a uns poucos. Na vertente eleitoral, por exemplo, a sensação que tenho é que cada um faz o que quer, especificamente  no que condiz com as questões que envolvem arrecadação de dinheiro para as campanhas. É uma zorra! É tudo feito às escuras, mas de tal sorte que, para alguns, fica a (falsa ) impressão de que a Justiça Eleitoral a tudo fiscaliza, a tudo coíbe, quando, na realidade, pelo menos para uma determinada elite, experimentada e viciada, é pura anarquia, já que a estes o estado, ainda que dissimuladamente, ” confere” poderes quase ilimitados para fazer o que bem entenderem. Nesse cenário, se Bakunin e Kroprotkin vivos estivessem, constatariam que a sua idéia de uma vida social anárquica seria absolutamente inviável, em face dos malefícios que muitos desses malfeitores encarapitados no poder têm  feito ao cidadão comum.Esse conversa de que o homem nasce bom e que tem espírito solidário, é uma rematado equívoco. Pelo menos os homens públicos do Brasil, com raríssimas e honrosas exceções, pensam exclusivamente neles – e, circunstancialmente, naqueles que estão em sua volta, cujas ambições são plasmadas pelos mesmos objetivos.

Atenção: ficam absolvidos nessa questão os honrados magistrados que, na Justiça Eleitoral, lutam, além dos limites de suas forças, para coibir os abusos. Mas eles sabem, tanto quanto eu, que é impossível coibir os abusos, já sedimentados em nossa cultura, tanto que figuras expressivas do mundo político apregoam ser normal a forma como são arrecadadas as verbas de campanha, como se não soubéssemos todos o valor da conta a ser paga depois, com o dinheiro que subtraem dos nossos bolsos.

Faço essas reflexões porque, iniciada a gastança com a campanha política, todos vamos constatar, depois, que grande parte do dinheiro que nos retiram a guisa de impostos  irá ser desviada para honrar os compromissos com os doadores, que, já se sabe, têm ambição desmedida em torno dessas questões.

Etiquetamento

Não gosto de rótulos ou  etiquetamentos.   Faço questão de bradar bem alto acerca dessa questão. Todos do meu convívio  sabem  por que odeiam os rótulos.

Não gosto quando ousam sintetizar a minha história e a minha maneira de ser com uma palavra. Eu não sou uma palavra. Eu sou mais do que isso. Não se resume um homem e a sua história numa etiqueta.

Não gosto de rótulos, ademais,   porque é desumano. Não gosto  porque, de regra, os rótulos, no sentido que aqui emprego,  são  gestados por pura maldade, como fizeram comigo quando decidiram, à minha revelia, que eu era um tipo  arrogante  e que, por isso, não deveria merecer a consideração dos meus pares. Até h0je carrego nas costas as consequências desse rótulo.

A verdade é que todos deveriam se insurgir contra os rótulos, sobretudo  o rótulo maldoso ( e ele é, quase sempre, fruto de uma maldade ),  que serve apenas para menoscabar o semelhante.

A verdade, no entanto, é que as pessoas insistem em rotular as outras pessoas. O etiquetamento parece que exerce um fascínio sobre as pessoas; pessoas maldosas, quero registrar.

Confesso que se há algo que me agasta são os rótulos, daqueles que grudam na testa da gente, como se fosse uma logomarca de refrigerante ou cerveja.

Promove-se o etiquetamento,  tenho a nítida sensação,   para o achincalhe, para o menoscabo e o menosprezo,   por pura maldade, pelo prazer do escárnio.

Um exemplo, para ilustrar.  Tenho uma irmã, profissional respeitada, que, no entanto, por ter chegado um dia atrasada a um compromisso de lazer com os demais irmãos, ficou rotulada, para sempre, como impontual. Assim é que, todas as vezes que marcamos um compromisso, há sempre quem lembre que ela, para variar, deverá se atrasar, o que, a rigor, é uma inverdade. Se, para confirmar o rótulo, ela, por algum motivo,  se atrasa, sempre haverá quem diga que dela não se podia esperar outras coisa.

Mas essa etiqueta que grudaram na teste dela, repito,   é uma remata injustiça.  Ela, ao reverso, é muito pontual e cumpridora de suas obrigações. Todavia, agora, restará rotulada para sempre. O bom é que ela leva tudo na gozação, porque sabe que, de rigor, ela não pode ser comparada aos impontuais.

A questão dos rótulos é mais grave nas corporações. Aqui no Tribunal de Justiça do Maranhão, todos têm rótulos – para o bem ou para o mal.  Todavia, com eles não me acostumo, porque nem sempre, reafirmo, retratam a realidade; e ,muitos decorrem de pura maldade, só pelo prazer de achincalhar.

Quem pode me responder, por exemplo, quais são os desembargadores progressistas e os conservadores do Tribunal de Justiça do Maranhão?

Ninguém sabe dizer. Mas, ainda assim, rotulam. Eu, por exemplo, já tive a má fama de antigarantista no juízo de base, e, agora, em segunda instância, abraçando as mesmas causas, vituperando contra as mesmas coisas, sou conhecido como excessivamente garantista. Esse é mais um rótulo que fixaram na minha  testa. E agora, se não sigo o caminho que acham que eu devo seguir, em face do rótulo, dirão, pura e simplesmente, que não se pode confiar nas minhas decisões, e que de garantista eu não tenho nada. Por aí se pode convir a maldade que pode decorrer de um rótulo.

Mas afinal, sou conservador ou progressista?

Confesso que eu mesmo não sei dizer, porque tudo depende de quem promoveu a etiqueta.

O que sei dizer é que sou um magistrado do meu tempo. Eu vivo as coisas do meu tempo. Eu defendo as teses do meu tempo. Eu defendo as coisas nas quais acredito e que são compatíveis com o momento que vivo.  O resto, os rótulos,  as etiquetas são maldade e nada mais.

A verdade é que cada um vai construindo a sua história: uns com mais e outros, com menos convicção.

De qualquer sorte, é a nossa história que deve ser preservada. É pela minha história que luto, razão pela qual abomino os rótulos que colidem com o que tenho edificado ao longo da minha vida pessoal e profissional.

E os rótulos? Bem, os rótulos, reafirmo,  servem,    apenas,   de pretexto para menosprezar as nossas crenças, as nossas convicções, as  nossas posições mais corajosas,  numa vã e abominável  tentativa de desvalorizá-las.

A única coisa que todos devem ter presente, acerca das minhas convicções, é que não surpreendo; as minhas convicções estão mais do que sedimentadas. Mas não me ufano de não  mudar a direção. Já o fiz algumas vezes. E o farei tantas vezes perceba que caminhando noutra direção posso, com mais probabilidade, fazer Justiça.

Republicado, após correção

O poder, os tolos e a decepção de um E.T.

 

Só um tolo se ilude com o poder. O que se vive e vivencia no poder é absolutamente efêmero. Tudo passa com uma rapidez de impressionar.

A verdade é que, depois do exercício do poder, vêm, necessariamente, o ostracismo, o andar sozinho, a solidão, a tristeza, enfim ( para os que não se preparam para essa realidade), ante a constatação de que os “amigos” de ocasião, de conveniência, debandaram, foram cantar em outra freguesia; quiçá, já podem estar, convenientemente, exercendo a sabujice em torno de outras figuras circunstancialmente poderosas.

Pena que muitos não se dão conta de que a vaidade e a prepotência, no exercício do poder, lhes remeterão, mais intensamente, mais rapidamente, enfim, à solidão, quando,  desse mesmo poder,  forem apeados – pelo tempo ou pelas circunstâncias.

Dirão: Fora do poder não há salvação! Direi: Fora do poder há, sim, salvação!

Mas salvação só haverá se, ao invés do poder, sublimares, valorizares, enalteceres, sem enleio, a família e os verdadeiros amigos, que são aqueles que não estão ao teu lado em razão do cargo que eventualmente exerças. São essas as pessoas que te querem bem e que, na adversidade, não se afastarão de ti.

Mas é possível  sedimentar amizades estando no Poder?

Decerto que sim. Tenho convicção de que as pessoas que trabalham comigo já se tornaram minhas amigas e que essa amizade pode perdurar por muitos e muitos anos. Eu tenho essa sensação! Eu não me relacionaria tão bem com os meus assessores se não tivesse a convicção que tenho de que nos gostamos e nos respeitamos.

Quem tem família e amigos verdadeiros, nunca estará – nem se sentirá – sozinho; não sofrerá em face do poder que já não tem.

Fico esperando, avidamente, pelo dia em que saberei quais são os meus verdadeiros amigos, muitos dos quais até já ousei identificar.

Quero deixar claro que não desejo ser lembrado apenas em face de um retrato fixado na parede da Corregedoria ou do Tribunal de Justiça, mesmo porque, todos sabem, as probabilidades de eu vir a ser corregedor e/ou presidente do Tribunal de Justiça é tão remota quanto a possibilidade que temos de nos  deparar, num dia qualquer de verão,  com um E.T. na Praça Gonçalves Dias, em busca de espaço para sua sobrevivência na terra,  mesmo porque, se ousar aparecer por aqui, é muito provável, quase certo,  que será assaltado ou antecipará a sua volta diante das informações que terá acerca da má conduta dos nossos homens públicos, que, decerto, não deve ser a mesma conduta dos seus iguais.

Essas reflexões me levam, mais uma vez, a uma óbvia conclusão: é preciso sublimar a família e os amigos verdadeiros, pois que somente por eles jamais seremos esquecidos, tendo em vista que por eles – amigos e família – não somos gostados – e, até, amados – pelo estar, mas pelo ser que somos.

Tenho dito, nessa linha de pensar, que os que se embriagaram com o poder, que não se preparam para o porvir, e que não foram capazes de preservar as amizades verdadeiras, viverão, até os dias finais, uma amarga solidão, exatamente quando mais precisam do conforto e de assistência.

É assim mesmo, sem tirar nem pôr. Triste dos que não vislumbram esse porvir.

Essas reflexões me fazem lembrar, outra vez, de Sébastian Roch Nicolas Chamfort, que viveu no século XIX e que foi um dos mais brilhantes satíricos de sua época.

As máximas de Sébastian, publicadas depois da sua morte, revelaram-no um mestre do aforisma e um crítico voraz e impiedoso.

Nicolas Chamfort tinha intensa aversão aos tolos, sobre os quais definia, depois de indagar:

– O que é um tolo?

Para, impiedosamente, responder:

– Alguém que confunde seu cargo com sua pessoa, seu status com seu talento e sua posição com uma virtude.

Depois, diagnosticava, com a mesma acidez:

– Um tolo, ansiando com orgulho por alguma condecoração, parece-me inferior a esse homem ridículo que, para se estimular, fazia com que suas amantes pusessem penas de pavão em seu traseiro.

O que nos enlouquecem são as nossas certezas

Nós, muitas vezes, pensamos de nós, concluímos sobre nós o que nem sempre é a percepção dos outros. Ao constar essa realidade, nos flagramos, de regra,  decepcionados e tristes – quando não deprimidos.

Nesse sentido, lembro que, certa feita, estando com a minha família em viagem de férias, procurei, como sempre acho que faço, agradar, de todas as formas, aos meus filhos e à minha mulher, mesmo porque se um deles não está bem, eu, naturalmente, também não estarei bem.

Isso é próprio da minha personalidade. Não sei e não gosto de infelicitar  as pessoas; se eu não tiver condições de dar prazer aos que estão em volta de mim, seja no trabalho, seja na minha família, eu não fico bem comigo mesmo.

Pois bem. Eu dizia que, nessa viagem de férias, procurei fazer de tudo que estivesse ao meu alcance para que todos ficassem numa boa, para que as férias fossem prazerosas e, se possível, inesquecíveis,  pelo que de bom fosse desfrutado por nós.

Determinado dia, depois de muitas concessões a todos,  e quase nenhuma a mim, sem nada reclamar em face do brusco rompimento da minha rotina, resolvi bater o martelo e decidi, sem apelo, que, em determinado dia, eu voltaria para o hotel para almoçar no meu horário ( meio-dia) e para tirar uma sesta, já que estava com saudade da minha rotina.

Pronto! Foi o que bastou para que eu fosse escolhido como o mais chato da viagem – e por unanimidade, sem nenhuma concessão, sem apelo, sem direito a reexame da decisão.

O grave é que, na minha (falsa) percepção, imaginava exatamente o contrário.

Não preciso dizer da minha inquietação, da minha frustração.

Fiquei tão decepcionado que ainda insisti tentando convencê-los que eu já tinha feito tudo que um pai podia fazer para que eles não tivessem dissabores.

Mas que nada! Quanto mais eu tentava argumentar, mais eles reafirmavam que eu tinha sido um chato, cheio de mania, cheio de rotinas e que as rotinas, em viagem,  eram para ser quebradas, o que, de rigor, estou de acordo, tanto que só pedi um dia de concessão, que me foi negado.

Não teve jeito! Fui  confirmado, em segundo turno de votação, depois de tentativas vãs de me defender,   o mais chato, com o registro, de ofício, da minha  candidatura para as próximas férias, com enorme possibilidade de ser reeleito.

É por isso que se diz que os loucos, com muita convicção, narram os seus delírios, porque crêem neles. É por isso que se diz, ademais, que o que enlouquecem não são as nossas dúvidas; o que  nos enlouquecem são as nossas certezas.

A certeza que eu tinha de ter me doado ao máximo aos meus filhos para lhes proporcionar as férias dos sonhos, quase me enlouquece ao constatar que, diferente do que eu pensava, eu tinha sido o que de mais chato ocorreu na viagem.

Tivesse eu a mais remota dúvida acerca do meu desempenho como parceiro de férias, de pai e companheiro de viagem, eu não teria ficado tão magoado e tão próximo de enlouquecer, em face da minha já proverbial  – agora confirmada pelos insuspeitos filhos – incapacidade de ser boa companhia.

Resumindo, para ficar bem sedimentada a minha tese: são as nossas certezas,  e não as nossas dúvidas , o que nos enlouquecem.