A SOCIEDADE ESTÁ DOENTE

O livro Biografia do Abismo, editora Happer Collins, 2023, e-book do cientista político Felipe Nunes e do jornalista Thomas Traumann, traça um panorama alarmante da polarização política no Brasil, me conduzindo à conclusão de que a radicalização que todos testemunhamos, conquanto graves os seus malefícios, tende a se perpetuar, em face da sua dimensão e profundidade.

O que se conclui dos dados contidos no manual é que, em ambos os espectros políticos – assim nominados esquerda e direita -, o radicalismo ultrapassou as cancelas das discussões/divergências civilizadas, contaminando até os ambientes familiares, impregnando-os de grave toxidade.

A revelar uma das faces mais nefastas da polarização/radicalização, o livro narra, por exemplo, que 43% de um espectro político, e 28% do lado oposto, ficariam infelizes se um filho se cassasse com alguém do outro grupo, a evidenciar que chegamos ao fundo do poço na radicalização da sociedade.

Não é só esse dado que estarrece, nada obstante.

O mesmo livro registra, ademais, que 15% dos chamados conservadores de direita e 16% dos ditos progressistas de esquerda deixariam de ouvir música de um cantor ou cantora que tenha dado apoio ao candidato colocado no espectro político oposto ao que se colocam.

A constatação óbvia é que vivemos num ambiente que, além de polarizado, se radicalizou por demais, disso resultando o clima de intolerância que se esparrama, por via reflexa, em toda sociedade.

Dois episódios, adiante destacados, darão ao leitor a dimensão da intolerância, com pitadas de maldade, que estamos vivenciando, a deixar claro que a sociedade está gravemente enferma e que a enfermidade não se dá apenas em razão da polarização/radicalização política, conquanto seja a sua face mais visível.

Pois bem. Thaís Medeiros, de 26 anos, que teve uma reação alérgica grave, tornando-se depende de cuidados especiais, após cheirar uma conserva de pimenta, tem sido acusada/atacada porque, dizem os detratores, teria, na verdade, cheirado cocaína, cumprindo destacar, de um perfil falso, a perversa afirmação: “Só o povo careta igual a vocês que não imaginavam que sua filhinha cheirava cocaína [e] que isso aconteceu por conta dela ter cheirado pimenta”.

A postagem, claro, teve milhares de visualizações e um número expressivo de comentários do mesmo jaez, a evidenciar que parte expressiva da sociedade está mesmo doente.

O outro episódio – igualmente estupefaciente a reafirmar a constatação supra, ou seja, de que a sociedade precisa urgentemente de tratamento – envolve Lua, filha dos influenciadores digitais Viih Tube e Eliezer.

Lua vem sendo vítima de ataques gordofóbicos nas redes sociais, desde que tinha três meses; ataques traduzidos em falas do tipo “De que adianta nascer rica, mas ser obesa?”. “Tinha tudo pra ser linda, mas é obesa”. “Tadinha”. “Ela vai explodir”.

As reflexões que fiz acima, decorrentes da polarização política no Brasil, e os exemplos que dei em razão dos ataques a Thais Medeiros e a Lua, expõem, a toda evidência, a intolerância que tem permeado a vida em sociedade, potencializada pela da licenciosidade/permissividade das redes sociais, ambientes nos quais o ser humano expõe a sua face mais cruel.

Dados do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) revelam que 148 milhões de brasileiros estão no Facebook, 105 milhões no You Tube, 99 milhões no Instagram, e, no X, antigo Twitter, são 19 milhões, cujos usuários, forçoso admitir, não se valem das redes apenas para veiculação, por exemplo, de conteúdos de entretenimento, educação, cultura ou informação, dentre outros.

As redes sociais, ao reverso e ademais, têm servido, lamentável dizer, para dar vazão aos instintos mais perversos que habitam na alma do ser humano, muitas das quais tribalizadas, fanatizadas, calcificadas, “bolhificadas”, impregnadas de preconceito e ódio, a merecer de todos nós o necessário repúdio, e, das instâncias de controle e fiscalização, até onde a legislação permite, a necessária resposta.

É isso.

O CHORO É LIVRE?

O choro, como manifestação visível de uma grande tristeza, de uma dor física ou de uma forte emoção, sempre despertou em mim uma inquietante curiosidade, na medida em que, sendo algo natural, não é encarado com a naturalidade que devia, vez que não é incomum testemunhar as pessoas dele se esquivando, para que não sejam flagradas numa situação que consideram, culturalmente, constrangedora.

Nessa perspectiva, todos já testemunhamos pedidos de desculpas de algumas pessoas que eventualmente tenham chorado em público, como se o choro fosse uma demonstração de fragilidade, algo antinatural, quando, em verdade, é uma reação decorrente de uma instabilidade emocional momentânea a que todos estamos suscetíveis, mas que é vista entre nós, ocidentais, com reserva, diferente do que ocorre no Japão, por exemplo, onde as pessoas costumam chorar ao apresentarem um singelo pedido de desculpas.

Nessa linha de pensar, importa lembrar que todos nós, levados às lágrimas em algum momento da vida, em face de uma descarga emocional, fomos instados pelos nossos pais a “engolir” o choro, porque, na compreensão deles, chorar, além de ridículo e inaceitável, é sintoma de fraqueza, traduzida no aforismo de todos conhecido segundo o qual “homem que é homem não chora”, conclusão que contrasta com a realidade e com a sensibilidade do poeta, para quem o homem também chora, também deseja colo, precisa de carinho, precisa de ternura, precisa de um abraço, da própria candura (Gonzaguinha).

A verdade é que, fruto de uma ancestralidade equivocada, de uma cultura enviesada, fomos criados sob a severa e implacável advertência de que é feio chorar, que chorar é para os fracos, disso resultando que o choro, conquanto livre, segundo máxima popular, se for inevitável, é para ser solitário, para se manifestar intramuros, porque, afinal, se o sol vai raiar, se o dia vai amanhecer e se a lua vai nascer, como simplifica o poeta, não há porque chorar, não há dor que justifique o choro.

Assisti, recentemente, num desses cortes que as redes sociais veiculam, uma participante de um reality show, amargurada, dizendo da certeza que tinha da decepção dos seus pais com o fato de estar chorando, na medida em que teve a sua formação construída a partir do aforismo segundo o qual é prova de fraqueza chorar, a reafirmar as nossas insuperáveis contradições, pois, conquanto se reafirme que o choro é livre, construiu-se, no mundo ocidental, uma cultura segundo a qual não se deve chorar para não dar o testemunho das nossas fragilidades, quando se sabe que o choro nada mais é que uma reação natural do ser humano, seja homem ou mulher, diante de uma situação adversa que a ele (a) inflija dor e/ou sofrimento.

É isso.

COMO UM GATO

Tenho dito, sem surpresa, para os que me conhecem, que, como um gato, não sou do tipo que se entrega ao primeiro afago, ao primeiro aceno.

Esse é um traço marcante – e, às vezes, incompreendido – da minha personalidade.

Se é certo ou errado não sei dizer.

A vida – pessoal e profissional – me ensinou a ser assim, a ter cautela nas minhas relações, por isso pareço – e sou mesmo! – do tipo ensimesmado, opção de vida a qual fui compelido ante algumas amargas experiências pessoais e depois de quase 40 anos lidando com criminosos dos mais variados matizes.

Por ter vivido intensamente os momentos marcantes que me foram proporcionados pelo meu trabalho – somados à minha história de vida pessoal, claro -, e por ter, nessa lida, me defrontado com personalidades díspares e surpreendentes, é que, como uma defesa, aprendi a agir com prudência excessiva nas minhas relações, cautela comparável a dos gatos, cuja personalidade poucos compreendem.

Para iniciar uma relação, com efeito, reflito intensamente, para, só depois, me entregar; entrega que, muitas vezes, se verifico tibieza na pessoa com a qual me relaciono, não chega a se concretizar definitivamente; se ela se concretiza, entrementes, uma vez rompidas todas as barreiras, explodidas todas as pontes, vou ao extremo, me entrego por inteiro.

Não sou mesmo, admito, do tipo simpático, que se entrega ao primeiro aceno. Aliás, tenho até uma certa restrição ao primeiro aceno; tenho sempre a perturbadora sensação de que ele pode ser meramente protocolar – e, na maioria das vezes, é mesmo -, por isso prefiro primeiro a cautela para, só depois, consolidar a relação.

Às vezes, na ânsia de ser simpático, forço a barra, até tento ser o que não sou verdadeiramente, apenas para parecer fidalgo, conquanto, admito, não venda essa falsa percepção de mim mesmo por muito tempo; logo me revelo por inteiro.

A propósito e para ilustrar, Albert Camus, em A peste, e-book, 23ª edição, Editora Record, 2017, narra o comportamento de um ancião, que, todos os dias, depois do almoço, nas horas em que a cidade inteira cochilava, aparecia numa varanda, chamava os gatos que estavam do outro lado da rua, para, em seguida, manifestar seu desprezo por eles, escarrando sobre os mesmos, até o dia que precisou deles para espantar os ratos, e com eles não pode contar.

A lição que se pode tirar da obra ficcional, é que não se deve julgar as pessoas apenas porque são arredias, ensimesmadas e casmurras, sabido que elas podem não ser exatamente o que aparentam ser, na medida em que, “o que é, é, o que não é, não é” (Parmênides), ou seja, é preciso, antes, refletir, aprofundar, prospectar, enfim, sobre aquilo que os olhos apenas percebem, pois sempre há uma verdade subjacente que precisa ser desvendada e também porque há sempre a possibilidade de, um dia, precisarmos dos gatos para espantar os ratos.

É isso.

ERRAR É HUMANO?

Em face da indagação/título desse artigo, respondo afirmando que o aforismo, quando invocado, está, quase sempre, condicionado às conveniências de quem o proclama.

Importa reconhecer, contudo, ser esse o apotegma presente nas nossas relações com o semelhante; princípio de alcance moral que, não raro, se traduz apenas em um sopro, mera força de expressão, dependente, como antecipei acima, das conveniências de quem dele faz uso.

A sentença moral referida, é verdade, permeia as relações sociais desde sempre; às vezes, reafirmo, apenas como uma banalização da expressão, sem consequência prática nas nossas relações, pois que dita, como tantas outras, ao sabor das circunstâncias/conveniências, na medida em que não são poucos os que, ante ao erro ou a uma ação/reação decorrente de uma falsa percepção da realidade, são implacáveis censores.

Os meus sentidos me alertam que o erro só é reconhecido, como próprio da nossa condição de seres humanos, quando cuidamos dos nossos próprios deslizes, para os quais emprestamos toda a nossa complacência, toda a nossa delicadeza e compreensão. É que, verdade iniludível, quando lidamos com os erros dos outros, a eles emprestamos apenas a nossa repulsa e reprovação.

Essas reflexões resultam, portanto, de uma constatação óbvia: nós não encaramos os erros – dos outros, claro – com a naturalidade que o aforismo pretende traduzir, a infirmar outra máxima popular, que complementa a original, segundo a qual se “errar é humano, perdoar é divino”.

Eu mesmo, por diversas vezes, fruto de muita incompreensão, precipitei-me nos julgamentos que fiz em face dos erros dos semelhantes, muitos dos quais menos graves que os deslizes que já cometi, a reafirmar que, se errar é humano, essa constatação/reconhecimento está a depender da posição que nos colocamos diante do erro cometido.

Diante das falhas/desacertos/lapsos dos iguais, para os quais reservamos a nossa avidez punitiva/censória, só somos capazes de refluir, de reavaliar, enfim, as nossas posições, quando, racionalmente, nos colocamos na posição desses mesmos iguais.

A verdade é que tendemos a julgar o comportamento dos congêneres como se fôssemos perfeitos, incapazes de um deslize, como se, na jornada da vida, permeada de vicissitudes, pertencêssemos a uma raça imune ao erro.

Para além de reconhecer que errar é humano, mais importante é ser capaz de perdoar o erro, à luz de uma necessária e inexcedível tolerância, na medida em que, nessa vida, só não erra quem não tentou acertar, por omissão ou covardia.

A questão que se coloca, portanto, e é esse o alvitre dessas reflexões, é saber se, em face do erro do semelhante, que muitos invocam para si como uma decorrência inevitável de nossa condição de seres humanos, somos capazes de, na mesma situação, perdoar quem errou, ou se o perdão é apenas uma manifestação oportunista que depende da nossa avaliação subjetiva e das nossas conveniências pessoais.

A verdade, sabida e ressabida, é que ninguém passa pela vida sem deslizes, pequenos ou grandes, daí por que todos deveríamos, com a mesma sofreguidão e parcimônia com que julgamos/perdoamos os nossos próprios erros, avaliar/perdoar os erros dos semelhantes, sem perder de vista, numa perspectiva filosófica, que o erro, no sentido empregado nessas reflexões, decorre, muitas vezes, apenas de um equívoco de julgamento do espírito.

É isso.

TODOS TEMOS OS DEFEITOS QUE TODOS TÊM

Pode parecer truísmo – e é mesmo: todos temos defeitos, uns graves, outros nem tanto.

De toda sorte, defeitos, a reafirmar a nossa indiscutível imperfeição, a nossa condição de seres humanos, enfim.

Mas o que importa para essas reflexões não é só a constatação dos nossos defeitos, porque, afinal, é apenas a reafirmação de uma ululante obviedade.

O que importa mesmo é a reafirmação de que todos temos os mesmos defeitos que todos têm, daí que apontar/censurar os erros do semelhante é, de rigor, uma hipocrisia, que todos teimamos em praticar.

Mesmo quando, sob a perspectiva da moralidade, insistimos em apontar os defeitos do semelhante – como todos fazem, afinal -, nós o fazemos para reafirmar a sentença, qual seja, de que, efetivamente, ter defeito não é privilégio de alguns, e que, nesse quesito, como em tantos outros, somos todos rigorosamente iguais.

E o que fazer diante dessa obviedade, qual seja, de que, no mundo dos mortais e pecadores, somos mesmo, de rigor, iguais?

Respondo que o que resta a fazer mesmo, diante de tamanha obviedade, é evitar ser hipócrita, ou seja, deixar de agir como se, num mundo habitado por pecados e pecadores, não fôssemos iguais – e somos, sim, nos defeitos, principalmente.

Importante consignar, pois, que reconhecer que temos os defeitos que todos têm, numa perspectiva humanista, pode se traduzir numa evolução transformadora, a reafirmar a máxima segunda a qual virtude também se aprende (Sócrates).

Destacado, à luz do exposto, a importância de reconhecermos que todos temos os mesmos defeitos que os têm os nossos semelhantes, resta, para mim, a óbvia constatação de que, se formos capazes de competir, nos dias presentes, criticamente, com quem fomos ontem, seremos, no presente, com alguma certeza, melhor do que fomos no passado, como consequência natural de um inevitável autoconhecimento.

Sob essa perspectiva, não só superaremos alguns dos nossos graves defeitos morais – muitos dos quais não fomos capazes de reconhecer antes -, mas, também, tendemos ser mais tolerantes diante dos defeitos do semelhante, pois, afinal, queiramos ou não, os defeitos do meu vizinho não são diferentes dos meus.

Para encerrar, duas obviedades: i – quando eu reconheço que tenho defeito e cuido dele, tudo tende se amenizar, mas, noutro giro, ii – quando eu nego a existência do meu defeito, aí não pode dar certo, afinal, como diz a sabedoria popular, quando viro as costas para o problema ele não deixa de existir; significa apenas que ele vai me pegar pelas costas.

É isso.

POR QUE TANTA PRESSA?

Eu já tive pressa; muita pressa.

Nesse alvitre, movido pelo desejo – irracional, às vezes – de fazer logo, de fazer hoje o que podia fazer amanhã, fui, muitas vezes, insensível, deixando, até, de manifestar os meus sentimentos mais nobres, contido e premido pelas circunstâncias da vida, como se não houvesse amanhã.

Hoje, passados os anos, já tendo vivido a dádiva da vida longa, me vejo perscrutando as razões de tanta impaciência, se havia mesmo motivos que me levassem a tanto açodamento.

Diante da constatação de que me impus uma urgência desnecessária, de que deixei a vida fluir sem dela usufruir como devia, digo pra mim mesmo, amadurecido e mais contido, repetindo uma passagem de uma bela canção popular (Tocando em frente, de Almir Sater), que, agora, sempre que possível, “ando devagar porque já tivesse pressa e levo um sorriso porque já chorei demais.”

A propósito da azáfama que nos move e que me levou a deixar de viver a vida como devia ter vivido, concluo, agora, quase a destempo, que eu devia, sim, ter compreendido a marcha da vida e simplesmente ter tocado em frente, buscando conhecer “as manhas e as manhãs, o sabor das massas e das maças”, como diz a bela canção popular antes mencionada.

Mas a verdade é que as pessoas têm pressa; todos têm pressa, porque, afinal, reconheçamos, a vida é um sopro, a nos impor a constatação de que tudo é pra ontem, impregnados que todos estamos de uma sensação inquietante de que, se não formos capazes de seguir a correnteza, se não entendermos o sentido da urgência, ficaremos pelo caminho.

Eu mesmo, em face do tempo, conquanto reconheça os equívocos de ter me apressado tanto, me pego pensando e concluindo que deixei de dar ao próximo o melhor de mim, o meu melhor sorriso, a parte doce da minha alma.

Correria maluca, desembestada, desenfreada, todos vivemos. Essa é a realidade da vida, mas injustificável, reconheço, porque, sei, ninguém pode domar o tempo, e ademais porque, afinal, há tempo de plantar e tempo de colher.

Diante de situações que tais, admito que, algumas vezes – ou não raro -, o óbvio precisa ser dito, daí a indagação que me inquieta e que me impulsiona a essas reflexões: para quê tanta pressa?

Não é incomum, diante da minha pressa – embora mais contido nos dias presentes -, as pessoas em meu entorno, simplesmente me advertirem, para me preservar, da desnecessidade da minha agonia.

Sou compelido a reconhecer que muita coisa podia ser diferente, sim, não fosse a minha pressa de fazer logo, de realizar logo; eu, seguramente, teria errado menos.

A propósito, trago a consideração, para ilustrar, uma passagem das reflexões de Amós Oz (Como curar um fanático. Israel e Palestina: Entre o Certo e o Certo, Companhia das Letras, p. 60), sobre a pressa que nos acomete a todos:

“[…] Há muitos anos, quando eu ainda era criança, minha sábia avó me explicou em palavras muito simples a diferença entre um judeu e um cristão – não entre um judeu e um muçulmano, mas entre um judeu e um cristão.

– Veja só, os cristãos acreditam que o Messias já esteve uma vez aqui e certamente voltará um dia.

Os judeus afirmam que o Messias ainda está por vir.

Por causa disso, houve tanta raiva, perseguição, derramamento de sangue, ódio…

Por quê?

Por que cada um não pode simplesmente esperar para ver?

Se o Messias chegar dizendo: Olá, é um prazer revê-los, os judeus vão ter de admitir e reconhecer o fato.

Se, por outro lado, o Messias chegar dizendo: Como vão, é um prazer conhecê-los, todo o mundo cristão terá de se desculpar com os judeus[…]”

Com as reflexões acima, resta indagar, mais uma vez: por que tanta pressa?

É isso.

O “PASSAPANISMO” ENTRE NÓS

“Passapanista”, para quem não sabe, é a pessoa que tem o hábito de defender os seus ídolos de estimação – políticos, líderes religiosos, amigos, patrão etc. – fazendo vista grossa em face dos seus erros ou simplesmente ignorando-os.

A expressão “passapanismo” ganhou contornos preocupantes no Brasil, na medida em que passou a ser considerada em face dos que, fanatizados, têm sempre uma explicação para, incondicionalmente, defender um político de estimação, sejam quais forem os seus erros/desvios de conduta/crimes.

O que tenho testemunhado, desalentado, é que, sejam quais forem as práticas desviantes de algumas destacadas figuras da República, os seus sequazes, cegamente, os absolvem, os aplaudem como se tivessem uma vida imaculada, o que sinaliza para uma parcela da sociedade injustificável tolerância com práticas que, noutros países, fulminam a carreira de qualquer homem público, como se deu, recentemente, em Portugal, quando o primeiro-ministro, tão somente em face de uma suspeita, se sentiu obrigado, em nome da moralidade, a renunciar, na compreensão de ser incompatível o cargo com alguma suspeita de conduta desviante.

Importa reconhecer, pois, que o “passapanismo” institucionalizado entre nós é grave e desalentador, porque incute na sociedade a grave sensação de que os desvios de conduta, desde que sejam dos do lado de cá, devem ser tolerados, na mesma proporção em que são condenados os desvios dos do lado de lá.

A propósito, dia desses assisti, estupefato/incrédulo/desalentado, numa determinada rede social, um desses próceres da nossa República, cheio de imputações por condutas desabonadoras/desviantes/criminosas, sendo abraçado por uma seguidora, que, tomada de emoção, chorava compulsivamente, como se o destinatário de seus efusivos cumprimentos fosse uma pessoa de conduta ilibada/irretocável, o que me leva a questionar os valores morais sobre os quais está assentada a formação moral de parte relevante de nossa sociedade.

Pior que isso é a tendência que os fanatizados têm de acreditar, sempre que são noticiados os maus feitos de seus líderes, que tudo não passa de uma perseguição política, ou que as acusações, como sempre argumentam, num discurso adrede esgrimido, foram tiradas de contexto, ainda que esse argumento, de rigor, seja apenas um sopro argumentativo.

Noutro giro, mas com a mesma relevância e em razão do que também me assusto, não é incomum a tentativa de justificar os desvios de conduta de uns, lembrando dos desvios de conduta do adversário, como se um erro justificasse o outro, a revelar, também sob essa perspectiva, que os valores morais cedem à visão fanática dos que da realidade só absorvem o que lhes convém.

Nesse mesmo cenário, vejo, por outro lado, a malsã e perigosa tendência dos devotos em atribuir à imprensa tradicional – e aqui me refiro, claro, aos veículos de comunicação comprometidos com a informação – a responsabilidade pelo fato noticiado, absolvendo, no mesmo passo e sumariamente, o autor das condutas desviantes, a revelar que muitos de nós precisamos, urgentemente, reavaliar os nossos valores morais.

É isso.

CAIR E LEVANTAR

Não é incomum encontrar leitores das minhas crônicas que me dizem gostar do que escrevo porque, na avaliação deles, falo com o coração e digo, às vezes, o que eles pensam e não falam, ou seja, com as minhas reflexões, vou ao encontro do seu pensamento, daí a conexão que se estabelece.

De outras tantas pessoas ouço, com alguma frequência, depois de minhas falas em alguma solenidade, que se emocionam com o que digo, porque veem nos meus olhos que sou verdadeiro, a reafirmar que os olhos são o passeio da alma, daí a minha convicção de que os olhos se manifestam, tanto quanto as palavras; às vezes, mais que as palavras.

Todavia, para captar as mensagens que os olhos mandam, é preciso ter sensibilidade, porque, muitas vezes, eles não são capazes de traduzir ao interlocutor, com alguma clareza, o que sentimos verdadeiramente.

Admito, todavia, que, numa ou noutra situação – nas crônicas que escrevo ou nas palestras que faço -, não é improvável que as avaliações que fazem de mim sejam fruto de um equívoco, afinal a capacidade que temos de estar equivocados em face do semelhante é imensurável, a reafirmar o apotegma popular, segundo o qual, “quem vê cara não vê coração”.

A verdade é que há uma porção enigmática em cada um de nós.

Mas admito que, no meu caso, em face sobretudo do que escrevo, acabo mesmo por desnudar um pouco a minha alma, contribuindo, com efeito, para compreensão de quem eu sou verdadeiramente.

Tenho procurado, sim, como uma necessidade mesmo, ser verdadeiro nas minhas reflexões, sobretudo porque não me apraz o autoengano – e muito menos enganar os que em mim confiam -, pois não incorporo na minha vida como verdade aquilo que sei se tratar de um embuste, ciente que sou de que mentir para si mesmo é uma das grandes armadilhas da mente.

Eu não suportaria falar e/ou escrever sobre o que não sinto ou sobre o que não conheço, pois me incomodaria ter que mentir para mim mesmo, fingindo sentir o que não sinto, escrevendo sobre o que não acredito, expressando um sentimento que não seja verdadeiro, razão pela qual tudo que exponho, tudo que escrevo, decorre de uma realidade vivida e sentida.

Eu sou, portanto, o que escrevo e o que falo, sem tirar nem pôr, daí que posso concluir, na esteira do que disse Graciliano Ramos, em uma passagem de Memórias do Cárcere, a propósito da capacidade criativa de José Lins do Rego: eu só me “abalanço” para falar do que sinto e vivo.

Por me permitir escrever apenas em face de uma realidade sentida e vivida é que reside, imagino, a receptividade dos meus escritos; que nada mais são que escritos sobre questões singelas, sobre as emoções vividas e sentidas, sobre as muitas decepções que experimentei, sobre as alegrias e as tristezas que permearam toda minha trajetória de homem público, filho, marido, pai e avô.

Tenho lembrado aos que questionam a minha insistência em escrever – em razão do que, por óbvio, me exponho a críticas, elogios e incompreensões -, inspirado no poeta Alberto da Cunha Melo, “que viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”.

Dito isso, à guisa de introdução, decidi refletir hoje sobre as pedras que aparecem em nosso caminho e nas quais todos haveremos de tropeçar, caindo aqui e levantando acolá.

Diante dessa realidade, inefável e iniludível, é preciso ter em conta que, muito mais que a certeza de que tropeçaremos nas pedras que atravessarão a nossa caminhada, é a convicção que todos devemos ter que, para cada tropeço, deve corresponder a determinação, a vontade, a perseverança, enfim, de nos levantar para prosseguir na jornada da vida.

Sejam quais forem as pedras que se coloquem em nosso caminho, é preciso seguir adiante, não importando o tamanho do tombo, afinal, prosseguir na insólita jornada da vida é um desafio em razão do qual não podemos nos acovardar.

É cair e levantar, no mesmo passo e com o mesmo faina, porque é assim a vida.

Eu mesmo sucumbi muitas vezes.

Sei que a vida ainda me reserva outras tantas quedas.

Todavia, em face das quedas que levei, eu me levantei, ainda que fragilizado.

Levantei-me abatido, sim, sufocando o gemido, duramente atingido, a ponto de quase desistir; mas não desisti, dei a volta por cima e aqui estou refletindo, mais uma vez, agora inspirado exatamente nas quedas que levei.

Todavia, é preciso ter em conta que, na vida, há tombos e tombos.

Uns nos levam à lona e, em face deles, imaginamos não mais levantar; e há mesmo os que não levantam.

Inobstante, seja qual for a dimensão da queda, é preciso determinação e perseverança para seguir adiante.

Diante dos reveses da vida, o que nos resta mesmo, com fé e sofreguidão, é encarar de frente a realidade.

A vida é uma eterna competição em face da qual perdemos ou ganhamos.

Ganhar é fácil; perder não é fácil não.

Cair e levantar são faces da mesma moeda.

Para encerrar e a propósito, um provérbio chinês: Fracassar não é cair, é recusar-se a levantar.

É isso.