ENCONTROS E DESPEDIDAS

Difícil falar de mim mesmo, porque, diferente de muitos, eu sou o meu maior crítico, sou um quase sensor de mim mesmo.

Mais fácil, portanto, falar do outro, conquanto reconheça os riscos que corremos nas nossas avaliações, as quais partem, quase sempre, das nossas pré-compreensões e dos valores que incorporamos à nossa vida, os quais, muitas vezes, nos levam a julgamentos e avaliações preconceituosas/equivocadas.

Conquanto admita as dificuldades inerentes às avaliações que fazemos do comportamento do semelhante, insisto em fazê-lo, na medida em que o ser humano é a minha fonte de inspiração, por excelência, nesses quase 40 anos de crônicas.

Tenho dito, nesse sentido, fruto de uma justificável arrogância de quem pensa que sabe da vida, que, passados tantos anos de judicatura, convivendo de perto com o ser humano e suas aflições/idiossincrasias, me especializei em gente, conquanto admita que, não raro, me surpreenda com uma atitude qualquer, me compelindo a retroceder na minha avaliação, para admitir, sem originalidade, que a alma do ser humano é algo imperscrutável, impenetrável mesmo.

Mas, ainda assim, é mais fácil, reconheço, falar dos outros que de mim, ainda que, de rigor e verdadeiramente, sejamos incapazes de fazer um julgamento justo do semelhante, pela nossa indiscutível incapacidade de, reconhecer, por má-fé, maldade e/ou falta de descortinamento, as virtudes dos outros.

Mesmo admitindo os riscos que corro ao falar de mim, tenho sensatez suficiente para reconhecer que uma das minhas características é ser sensível em face das coisas da vida, na medida em que, reconheço, uma vida irrefletida é uma vida sem sentido, que não vale a pena ser vivida, leva a alma a ficar confusa e aturdida, como se estivesse bêbada (Sócrates, Fédon).

Nesse sentido, tenho pensado muito, nos últimos anos, nos encontros e nas despedidas com os quais temos que conviver.

A minha vida – a vida de todos, enfim – tem sido, desde sempre, marcada por encontros – alguns breves, outros definitivos – e despedidas – muitas definitivas e dilacerantes, para as quais eu nunca estive/estou preparado.

Os encontros, no sentido que empresto a essas reflexões, renovam as nossas esperanças, dão uma nova dimensão à vida de cada um de nós, nos convencem que, por eles e em face deles, vale a pena prosseguir a maravilhosa e desafiadora jornada da vida.

As despedidas, o outro lado da moeda, muitas das quais vivenciei dilacerado, deixam uma sensação de vazio que, no meu caso, me fragiliza, ainda que ela seja apenas uma possibilidade futura, dada a minha capacidade de sentir antes o que muitos só sentem depois.

Assim é a vida; é assim que encaro a vida e o que dela dimana.

A gente vai vivendo, deixando a vida nos levar, e, quando menos esperamos, quando tudo se revela apenas uma mesmice, uma rotina enfadonha, ocorre o encontro, renovando os nossos sonhos, dando uma nova dimensão à nossa vida.

Aos muitos encontros que a roda da vida me proporcionou me entreguei sem pudor, para, depois, na dor, sofrer as consequências das despedidas.

Nos encontros que a vida nos proporciona, há pessoas, sim, que vieram pra ficar – e ficaram; há outras que, infelizmente, vieram, mas não puderam ficar, porque a vida é assim. E das que se foram, pelos mais diversos motivos, ficou apenas a saudade, as boas recordações.

Nada se pode fazer para mudar o que está feito.

Quando vem a despedida, antítese do encontro, o que fica mesmo é saudade do que foi sem que pudesse ter sido o que suponhamos que poderia ter sido.

Os encontros e despedidas já levaram o poeta popular a dizer que todos os dias é um vai e vem, tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais voltar, sendo que tudo isso são os dois lados da mesma viagem, ou seja, o trem que chega é o mesmo trem da partida, a hora do encontro é também de despedida; despedida de gente que vem e quer voltar, de gente que vai e quer ficar, de gente que veio só olhar, de gente a sorrir e a chorar (Fernando Brant e Milton Nascimento).

É isso.

RECONHECER O ERRO

Para quem gosta, como eu, de refletir sobre o comportamento do ser humano, a internet, pelas suas redes sociais, é, definitivamente, o local ideal para esse desiderato, na medida em que, nelas, podemos testemunhar, também, o inusitado, o esquisito e o bizarro, resultado da mistura refinada do insólito com o surreal, na medida em que muito do que é mostrado nas redes causa em todos nós estupefação e, não raro, constrangimento, a receber, por isso mesmo, um olhar não somente contemplativo/indiferente.

Nas redes sociais, a propósito, eu já vi de tudo um pouco. E, mesmo já tendo visto muita bizarrice/esquisitice, ainda me surpreende a predisposição de muitos internautas à exposição pessoal e familiar, muitas vezes em situações singulares/vexatórias – leito de hospital, por exemplo -, agindo sem controle e sem limites, na busca dos famigerados likes, ainda que, no mesmo passo, se submetam a críticas tenazes, muitas das quais ultrapassam o umbral da racionalidade, permeadas, quase sempre, de toxidade, próprias dos dias atuais, de muita intolerância e de pouca ou quase nenhuma complacência.

É preciso admitir, no entanto, que as redes sociais vieram para o bem e para o mal e que, em face dessa realidade, quase nada podemos fazer, daí que, em vez de demonizá-las, o que se deve mesmo, como faço, é preservar, tanto quanto possível, o a nossa privacidade em face delas, usando-as moderadamente, evitando, no mesmo passo, e por consequência, exposições desnecessárias, domando a porção narcísica que habita em cada um de nós.

Feito o registro, destaco que, há alguns dias, assisti a um “corte” de uma entrevista dada por uma famosa, recém-separada, a um Podcast badalado, no qual, dentre outras coisas, afirmou, depois de expor detalhes da relação, que, quando toma uma decisão, não recua, enfatizando que é sempre definitiva, ainda que venha a se arrepender depois.

Não penso assim. Aliás, me recuso a pensar assim.

Diferente da famosa, incontáveis vezes retrocedi em face de uma decisão equivocada, ciente da minha falibilidade, ou seja, da minha condição de gente, decorrência natural de uma evolução que me levou ao necessário e inexcedível autoconhecimento, ciente, ademais, fruto da maturidade alcançada, que a assunção de um erro não me torna menos digno e nem atenta contra a minha credibilidade.

Nesse cenário, não me constrange assumir que determinada posição foi equivocada, por isso, não raro e sendo o mais prudente a fazer, recuo, sim, dou a mão a palmatória, sem constrangimento, sem falsos pudores, pois o que a mim me constrange mesmo não é o recuo, o reconhecimento do erro, mas a prepotência, a arrogância e a incapacidade de admitir que errei.

Quando ouço alguém dizer, depois de uma decisão ou de uma atitude equivocada, que não recua, mesmo admitindo o erro, a conclusão que chego é que, se a vida é uma escola, como me reportei noutra feita, não são poucos os que se recusam a aprender.

Na mesma entrevista a que me referi acima, a mesma entrevistada, com milhões de seguidores – algo que não se compreende racionalmente -, com ares de deboche e regozijo, concluiu, sempre arrogante e despreparada para a vida, que não daria a ninguém o gostinho de assumir que errou, do que posso inferir que, diante do erro, há dois grupos de seres humanos: a) os humildes/evoluídos, que, reconhecendo-o, costumam refletir sobre o que poderiam fazer para evitá-lo; e b) os arrogantes, que se recusam a admitir que erraram, preferindo permanecer na escuridão em que estão mergulhados, daí a conclusão de que, se errar é humano, a propensão a se manter no erro é um sintoma claro da falta de evolução espiritual e, também, de caráter, pois, pior que errar, é se recusar a assumir o erro e, nesse passo, evoluir como ser humano.

É isso.

A ANGÚSTIA DA ACELERAÇÃO DA VIDA-FINAL

A obsessão de acertar, descurando, muitas vezes, da minha condição de ser humano, o afã de ser correto num mundo complexo como o nosso, me fez envelhecer mais rapidamente ainda, antecipando a minha maturidade, com consequências que hoje entendo desnecessárias para quem teve pouco tempo de viver a juventude, na medida em que, ante duas possibilidades, sempre optei pela que mais exigiu de mim. Agora, não tem mais jeito. O meu futuro é agora. Agora é viver. Não dá para brincar de viver; nunca brinquei de viver, na verdade. Eu até poderia viver brincando, não tivesse feito opção por uma austera forma de ser; austeridade que me fez muito mal interior, mas que me ajudou a construir uma história que, se não é digna de elogios, pelo menos não está permeada de deslizes graves que possam deslustrá-la.

Todavia, olhando em volta, relembrando de tudo que passei, assumo a culpa de não ter deixado crescer em mim a consciência, que só hoje tenho, de que nada é para sempre, e que estar vivo, desfrutando de cada momento, é, em si mesmo, um milagre que deve ser, todos os dias, sublimado.

Olho em volta e, às vezes, não me reconheço, principalmente porque sinto as dores no corpo que antes desconhecia. Admito, assim, que meu corpo dói e muitas vezes nem durmo direito.

Mas, ainda assim, levanto-me e vou à luta, buscando, com a mesma determinação, completar a história que iniciei há décadas, que me levou a não ter tudo que sempre quis, é verdade, mas levou-me a ter e gozar do que foi possível construir.

Nos registros de antanho me vejo ali: vinte, trinta, quarenta anos atrás, jovem, vivendo os espasmos da juventude que não aproveitei, pois o meu espírito envelheceu rapidamente, premido pelas circunstâncias da vida.

A verdade é que tive que me tornar adulto antes do tempo.

Agora, estou eu aqui aos setenta, vivendo com a certeza de que entre os sentimentos que experimentei – e que movem a minha vida até hoje -, o mais representativo do ser humano que sou é o amor que modulou todas minhas ações.

Doem-me as costas, os joelhos, os cotovelos; às vezes o corpo inteiro.

Dói-me quase tudo. Mas não me dói a alma.

As dores no corpo são próprias de quem envelheceu, sem saber envelhecer, sem se cuidar, sem pensar no porvir.

Tentei envelhecer com dignidade; acho, até que envelheci, sim, com dignidade.

Eu não quero enfrentar a velhice como um castigo; quero, sim, me sentir lisonjeado por ter vivido tanto e poder, agora, colocar no meu regaço os filhos do meu filho, e deles cuidar como cuidei e cuido dos meus próprios filhos, os quais vieram ao mundo para dar à minha vida outra dimensão, daí a conclusão de que, se a minha vida não é perfeita, estou feliz em poder vivê-la.

Olho para trás e vejo a longa estrada percorrida.

Nessa estrada deixei parte dos meus sonhos por realizar.

Nessa longa estrada eu também realizei muito.

Nessa estrada construí a minha história, permeada de contradições, de tristezas e alegrias – e de desejos reprimidos.

Nessa mesma estrada forjei a minha personalidade e aprendi muitas lições, dentre as quais a de que nunca estive preparado para entender o mundo e as suas complexas relações, muito por incapacidade mental e, muito mais ainda, por me assumir frágil e covarde diante das adversidades.

A única certeza que tenho, depois de tantos anos vividos, é que não tardará o dia em que vou deixar a ribalta e que serei apenas uma lembrança remota de um personagem complexo, mas que viveu para fazer o bem.

Para encerrar, digo, em arremate, que, para mim, o que importa agora é a história que construí e que deixarei como legado para os que virão, na qual estão consignados os meus erros e os meus acertos, as minhas virtudes e os meus defeitos, através dos quais revelo verdadeiramente o que sou: um sobrevivente que um dia ousou acreditar ser possível mudar as pessoas pelo exemplo.

É isso.

NÓS SOMOS UM POUCO O QUE AS PESSOAS ACHAM QUE SOMOS

É de rigor a constatação de que nos sentimos bem quando reconhecem em nós as nossas virtudes.

A mim me apraz muito ser bem avaliado por parcela relevante da sociedade em face, por exemplo, da minha ação enquanto magistrado, porque, afinal,passar pelo escrutínio público com algum reconhecimento significa estar fazendo a coisa certa, o que, para um magistrado, não é pouca coisa.

Todo e qualquer profissional, todo ser humano, enfim, gosta de ser reconhecido por uma atitude ou em face de uma realização; comigo, portanto, não podia ser diferente.

Nesse sentido, não há quem, de rigor, não se regozije com um elogio,com uma exaltação em face do reconhecimento/destaque de uma virtude, de uma realização, enfim.

Admito – não por vaidade, mas em face dos meus compromissos de homem público – que me envaidece, sim, o reconhecimento que se faz da minha atuação profissional, e, no mesmo passo, de como procedo na vida pessoal.

O que não me fascina, consigno, é o elogio gratuito, a exaltação sabuja, subserviente ou servil, ante a constatação de que o elogio fortuito/adulatório, nunca é precedido de um sentimento nobre.

Se é perceptível que todos gostamos de ser elogiados, é de rigor a conclusão, noutro giro, de que não gostamos de ser criticados, de ouvir algumas verdades que nos incomodam, dos conceitos que são emitidos em face da nossa pessoa, daí a minha conclusão de que aquele que diz receber uma crítica ou uma avaliação negativa de sua personalidade com naturalidade, não o faz com sinceridade.

Conquanto nos agastemos com a crítica ácida ou em face dos conceitos que são emitidos em razão de nossa pessoa, é preciso admitir que muito do que se diz sobre nós traduz o que o efetivamente somos; e, nesse sentido, pouco importa a nossa contrariedade, pois os fatos são mais eloquentes que a nossa eventual insatisfação.

Falo com propriedade sobre o tema.

Explico. Eu fui, muitas vezes, acusado de ser arrogante.

Nunca gostei da pecha, porque, em face dela, algumas portas se fecharam para mim; fui sendo estigmatizado, estereotipado, enfim, a ponto de ser prejulgado em face dos preconceitos que decorreram da etiqueta.

Mas hoje, passados os anos, admito que, inobstante não me desse conta, com algumas atitudes eu deixei transparecer, sim, ser uma pessoa arrogante, daí a minha inquietação com o defeito moral apontado, decorrente dessa constatação, hoje, não tenho dúvidas, de que, de rigor, sou, sim, um pouco daquilo que as pessoas acham que sou, razão pela qual me sentia incomodado com a balda apontada.

A constatação, fruto da minha experiência de vida, é que tendemos, sempre que alguém destaca em nós um defeito que sabemos que temos – mas que não admitimos que temos -, a reagir com certa inquietação, porque o ser humano tem dificuldade de conviver e de aceitar os seus próprios defeitos, fruto de um autoconhecimento enviesado.

Mas é preciso admitir que, de regra, os conceitos, as avaliações que as pessoas fazem da gente podem, sim, com muita probabilidade, ser verdadeiros, ainda que não gostemos, ainda que em face deles nos sintamos desconfortáveis.

A verdade é que nenhuma má fama, nenhuma avaliação negativa resulta precedida do nada; elas, muito provavelmente, decorrem do que efetivamente somos, conquanto, muitas vezes, não admitamos.

As avaliações que fazemos do semelhante, os conceitos que emitimos sobre o próximo, ainda que pareçam injustos, tem a precedê-los uma história que foi sendo construída com as suas atitudes, daí a reafirmação do óbvio, ou seja, que podemos ser, sim, com muita probabilidade, admitamos, ou não, aquilo que as pessoas acham que somos.

É preciso reconhecer, a propósito dessas reflexões, que o que nos falta, na verdade, é a capacidade de nos autoavaliar, de nos autoconhecer, pois que é a partir de um autoconhecimento, sem maquiagem, que reavaliamos os nossos conceitos, mudamos a nossa postura, levando as pessoas, no mesmo passo, a reavaliarem os seus (pre) conceitos sobre nós.

Se não formos capazes desse autoconhecimento – de fazer um exame crítico das nossas atitudes ante os fatos da vida, das nossas inclinações, das nossas emoções e das nossas reações em face delas, dos sentimentos que nos movem e o que somos capazes de fazer em face deles -, não seremos capazes, do mesmo modo, de admitir que somos, sim, um pouco daquilo que as pessoas dizem que efetivamente somos, gostemos ou não.

É isso.

A ANGÚSTIA DA ACELERAÇÃO DA VIDA-FINAL

A obsessão de acertar, descurando, muitas vezes, da minha condição de ser humano, o afã de ser correto num mundo complexo como o nosso, me fez envelhecer mais rapidamente ainda, antecipando a minha maturidade, com consequências que hoje entendo desnecessárias para quem teve pouco tempo de viver a juventude, na medida em que, ante duas possibilidades, sempre optei pela que mais exigiu de mim. Agora, não tem mais jeito. O meu futuro é agora. Agora é viver. Não dá para brincar de viver; nunca brinquei de viver, na verdade. Eu até poderia viver brincando, não tivesse feito opção por uma austera forma de ser; austeridade que me fez muito mal interior, mas que me ajudou a construir uma história que, se não é digna de elogios, pelo menos não está permeada de deslizes graves que possam deslustrá-la.

Todavia, olhando em volta, relembrando de tudo que passei, assumo a culpa de não ter deixado crescer em mim a consciência, que só hoje tenho, de que nada é para sempre, e que estar vivo, desfrutando de cada momento, é, em si mesmo, um milagre que deve ser, todos os dias, sublimado.

Olho em volta e, às vezes, não me reconheço, principalmente porque sinto as dores no corpo que antes desconhecia. Admito, assim, que meu corpo dói e muitas vezes nem durmo direito.

Mas, ainda assim, levanto-me e vou à luta, buscando, com a mesma determinação, completar a história que iniciei há décadas, que me levou a não ter tudo que sempre quis, é verdade, mas levou-me a ter e gozar do que foi possível construir.

Nos registros de antanho me vejo ali: vinte, trinta, quarenta anos atrás, jovem, vivendo os espasmos da juventude que não aproveitei, pois o meu espírito envelheceu rapidamente, premido pelas circunstâncias da vida.

A verdade é que tive que me tornar adulto antes do tempo.

Agora, estou eu aqui aos setenta, vivendo com a certeza de que entre os sentimentos que experimentei – e que movem a minha vida até hoje -, o mais representativo do ser humano que sou é o amor que modulou todas minhas ações.

Doem-me as costas, os joelhos, os cotovelos; às vezes o corpo inteiro.

Dói-me quase tudo. Mas não me dói a alma.

As dores no corpo são próprias de quem envelheceu, sem saber envelhecer, sem se cuidar, sem pensar no porvir.

Tentei envelhecer com dignidade; acho, até que envelheci, sim, com dignidade.

Eu não quero enfrentar a velhice como um castigo; quero, sim, me sentir lisonjeado por ter vivido tanto e poder, agora, colocar no meu regaço os filhos do meu filho, e deles cuidar como cuidei e cuido dos meus próprios filhos, os quais vieram ao mundo para dar à minha vida outra dimensão, daí a conclusão de que, se a minha vida não é perfeita, estou feliz em poder vivê-la.

Olho para trás e vejo a longa estrada percorrida.

Nessa estrada deixei parte dos meus sonhos por realizar.

Nessa longa estrada eu também realizei muito.

Nessa estrada construí a minha história, permeada de contradições, de tristezas e alegrias – e de desejos reprimidos.

Nessa mesma estrada forjei a minha personalidade e aprendi muitas lições, dentre as quais a de que nunca estive preparado para entender o mundo e as suas complexas relações, muito por incapacidade mental e, muito mais ainda, por me assumir frágil e covarde diante das adversidades.

A única certeza que tenho, depois de tantos anos vividos, é que não tardará o dia em que vou deixar a ribalta e que serei apenas uma lembrança remota de um personagem complexo, mas que viveu para fazer o bem.

Para encerrar, digo, em arremate, que, para mim, o que importa agora é a história que construí e que deixarei como legado para os que virão, na qual estão consignados os meus erros e os meus acertos, as minhas virtudes e os meus defeitos, através dos quais revelo verdadeiramente o que sou: um sobrevivente que um dia ousou acreditar ser possível mudar as pessoas pelo exemplo.

É isso.

A ANGÚSTIA DA ACELERAÇÃO DA VIDA – PARTE II


Aqui e agora, a continuação das minhas reflexões em face do meu aniversário, no último dia 02, quando completei 70 anos; parcialmente bem vividos, admito, na medida em que somente parte das minhas idiossincrasias administrei com alguma competência, de modo a preservar a minha sanidade e dos que estão no meu entorno.

A barba e os cabelos encanecidos, a pela flácida, as marcas no rosto, a saudade candente e lancinante, em face do que vivi e do pouco que usufrui da vida que me foi ofertada, pelos mais diversos motivos, dão a exata dimensão da relevância do tempo vivido; tempo que, em mim, consolidou a certeza de que, mais importante que ter razão, é ser feliz, e que, ademais, um dia a mais na minha provecta existência me dá a sensação de viver uma bênção que não se concede a muitos.
O tempo passou, claro – e passou sem fazer concessões, como sói ocorrer. Devo a ele a eterna gratidão de me permitir viver o suficiente para poder compreender que devemos olhar muito mais a alma do ser humano que a sua aparência e modo de ser, para não ser levado a preconceitos e prejulgamentos.
O tempo me ensinou, dentre outras coisas, ser uma insensatez desperdiçar o melhor da vida complicando as coisas simples, descurando da importância de cada momento vivido, para só entendê-lo, muitas vezes, quando ele já se transformou em recordações. É que, como diz o sábio, o tempo passa, a vida passa, permanecendo em nós apenas as memórias, exceto, claro, as que não fomos capazes de guardar, quiçá em face de sua irrelevância.
Consciente de ter envelhecido, quero, agora, conduzir a minha vida em paz, até onde o tempo me premiar com sua generosidade, pois há algum tempo me dei conta que um dia mais é, na verdade, um dia a menos.
Velhinho capeta, mal-humorado, criador de caso, não sou – não quero ser.
Não sei ser assim, afinal.
Velhinho simpático?
Também não sou.

Se não fui simpático na juventude, é muito pouco provável que o seja na velhice.
Mas eu tenho arroubos de simpatia, sim – espasmos de simpatia, alguns dizem.
O que fica de lição, depois de tudo, é que, se não podemos parar o tempo, devemos, ao menos, com o tempo vivido e com o tempo que nos resta, amar o próximo, respeitar as diferenças, afagar quem precisa de afago, ajudar a minimizar a dor de quem sente dor, dar carinho a quem dele necessidade, ser solidário com o sofrimento alheio; e, se possível, viver sem drama, sem conflito e sem estresse – em paz com a vida e com fé no que virá.
Olho, mais uma vez, para o meu corpo e vejo que não cuidei de mim como deveria.
Não cuidei da matéria – e nem cuidei da alma.
Sei que é impossível, mas queria, sim, voltar no tempo, para poder reparar os erros que, podendo, não deixei cometer.

Queria, sim, voltar no tempo para pedir perdão as pessoas que magoei e que não podem mais me perdoar.

Queria, sim, fazer muita coisa diferente do que fiz, porque, reavaliando a minha trajetória, sei que poderia ter sido melhor do que fui – e sou.
Se voltasse no tempo, faria muitas coisas diferentes, sim.
Diferente dos arrogantes, eu admito, sim, que não faria tudo outra vez.
Eu faria só parcialmente o que fiz.

Eu, no mínimo, faria a mim as concessões que não fiz e seria mais tolerante com os erros dos outros – e com meus próprios erros, em razão dos quais me impus desnecessário sofrimento.
Eu, muitas vezes, fui rude comigo mesmo, por birra e insensatez, admito.
Exigi de mim muito mais do que deveria.
Nessa questão estive próximo da irracionalidade.
Eu sou, sim, esse ser contraditório e complexo que as palavras desnudam.

É isso.

A ANGÚSTIA DA ACELRAÇÃO DA VIDA-PARTE I

Se me perguntarem hoje, 2 de julho, dia do meu natalício, quantos anos tenho, respondo que tenho os anos que me restam; os que vivi já não os tenho mais.
A certeza que tenho é que envelheci.
Há muito tenho a idade dos que têm prioridade nas filas de atendimento.
Daí a inevitável conclusão: a juventude de mim se distanciou; e, confesso, nem me dei conta, tamanha a rapidez.
Sobre a questão tenho agido de forma pendular: há momentos que sinto estar velho; há outros que me vejo fagueiro, altivo, projetando realizações para o futuro junto às pessoas que amo.
Tudo, porém, são confusões da minha mente, porque , afinal, envelhecer termina sendo um privilégio, daí que tento encarar a velhice com naturalidade.
Ou não?
Não sei.
Pode ser que sim; pode ser que não.
Compreendo que só em estar refletindo sobre a questão já evidencia que não encaro a velhice com a naturalidade que gostaria; e, se tento, não consigo.
Aquela história de que o tempo parece que não passou, para mim não cola.
O tempo passou, sim.
E como passou.
E como foi rápido.
E como deixou marcas em mim.
Vejo-as por toda parte: no rosto, nos braços, nas pernas…

Agora, vejo, também, as consequências da aceleração da vida na mente: minha memória, que nunca foi boa, está mais seletiva que nunca.
Não me desespero, porém, diante dessa realidade.

Será?
Nessa questão sou bem resolvido.
Será?
Nem eu mesmo sei por que faço essas afirmações ao tempo em que me questiono em face delas, pois quem me conhece sabe dos meus conflitos com a passagem inclemente do tempo.
Eu não sou bem resolvido nessa questão; preciso admitir.
Como não posso voltar no tempo, só quero mesmo é viver bem o tempo que me resta. E, numa perspectiva realista, não é muito, mas o suficiente, talvez, para desfrutar da companhia das pessoas que são revelantes da minha vida.
A verdade, e é fácil concluir em face dessas reflexões, é que eu só queria viver sem conflito com o tempo; conflito inevitável em face dos planos que ainda teimo em fazer para o futuro.
Vivo em conflito com o tempo, admito.
Mas não esqueço, entrementes, que foi o tempo que me fez realizar o que realizei. Foi o tempo quem me fez encontrar e conviver com pessoas especiais que dão sentido a minha vida.
Valeu então ter vivido tanto.
Importa indagar agora: fiz por merecer tantos anos vividos?
Creio que sim.
Mas admito que fiz menos do que podia ter feito.
Todavia, ainda assim, realizei alguma coisa.
Irrelevante a minha história?
Para mim, não.
Mas admito que devia ter sido mais audacioso.
Tempo é tempo e nada se pode fazer para impedir o seu curso.
Eu não posso, ninguém pode domar o tempo.
Quisera poder domar o tempo. Dizer: espera um pouco. Eu ainda tenho muito coisa importante para fazer.
Mas, contraditoriamente, penso comigo: pra quê parar o tempo se as coisas são como são, se o destino está traçado?

Destino?

Bem, essa é outra questão.

Não dá pra misturar as coisas.
O melhor mesmo é aceitar que o tempo flua e entender que é assim mesmo que tem que ser.
E que cada um saiba viver o seu tempo, o seu momento, a sua história, afinal somos os únicos responsáveis pelas escolhas que fazemos.
O natural mesmo é viver e ver o tempo passar.
O hoje será, inevitavelmente , o ontem e o amanhã, a Deus pertence.
E eu, se possível, viverei mais algum tempo para testemunhar o que virá.
Apesar da idade, eu vivo a perspectiva do que virá, sim, ainda que saiba que existe uma grande possibilidade de não viver o porvir.
Até quando posso esperar para viver o que espero que um dia virá ?
Não sei.
Só sei que não tenho muito tempo de espera; e isso me aflige.

É isso.

UM PAIS DIVIDIDO

Principio essas reflexões com uma obviedade: somos um país dividido,
fruto do ódio/radicalismo que tem permeado as discussões/ações políticas, nos mais diversos ambientes – familiar, inclusive -, a contaminar as relações sociais.

Já tendo vivido muito, testemunhei – como eleitor, como advogado,
professor, promotor de justiça e magistrado – muitas disputas políticas, sobretudo depois da redemocratização; testemunhei, portanto, de tudo um pouco.

Ainda assim, me surpreendo com o que tenho assistido nos dias de
hoje, vendo o radicalismo político tomar conta do debate, tornando-o incivilizado, agressivo e, consequentemente, improdutivo.

O que tenho testemunhado, lamentável dizer, é a disseminação do
ódio, sobretudo nas redes sociais, campo fértil no qual vicejam as incompreensões, as desinteligências e a intolerância.

Chegamos a uma situação de tamanha insensatez que, tenho
constatado, estamos autorizados, nos ambientes familiares – pasmem! – assacar críticas contra os próprios pais que elas ainda assim serão toleradas.

O que não é permitido, triste reconhecer, é dirigir críticas a
determinadas lideranças políticas, ungidas à condição de intocáveis, de semideuses até.

A situação aqui descrita, importa reafirmar, é grave.
O cenário sob os nossos olhos, e dos que ainda guardam alguma lucidez, é constrangedor e preocupante, a exigir detida reflexão.

Como não estou impedido de pensar, fico imaginando que, para que o
nosso país volte à civilidade e à união, só mesmo uma situação de ameaça externa, conquanto ainda tenho dúvidas sofre a sua eficácia, tamanhas as paixões, tamanhas as dissenções, considerando que a radicalização nos levou ao paroxismo, a revelar uma triste realidade: quem assume posição no espectro político se transforma, no mesmo passo, em inimigo de quem está no espectro político oposto, em face da preponderância da máxime do “nós contra eles” que tem norteado o debate político.

Para ilustrar, cito uma passagem da nossa história que, outrora, uniu o
país; penso que ela servirá para justificar a linha de pensamento acima adotada.
Pois bem. Na famigerada Guerra do Paraguai, os brasileiros de cor
branca lutaram ao lado de escravos, negros, mulatos, índios e mestiços; ribeirinhos da Amazônia e sertanejos do Nordeste encontraram-se e se uniram, pela primeira vez, aos gaúchos, catarinenses e paulistas.

A guerra em comento, portanto, produziu um sentimento de unidade
nacional que o Brasil jamais havia testemunhado, mesmo no tempo de sua
independência, cumprindo anotar que até o imperador se deslocou para a frente de batalha, enfrentando o frio e a intempérie numa barraca de campanha.

Essa passagem da história me leva a conclusão de que talvez uma
causa nacional nos unisse, ainda que se admita uma certa dúvida, visto que, no
caso da pandemia de Covid, por exemplo, testemunhei, estupefato, a sociedade
dividida entre os que apostavam na ciência e os negacionistas, para os quais a
vacina só traria malefícios a quem se dispusesse a entregar o braço para a sua
infusão.

O que espero, cá do meu canto, é que, nesse cenário desalentador que
hoje se apresenta, surja uma liderança que tenha o bom senso e pregue a
concórdia, para, no mesmo passo, refutar a beligerância.

Lembro, a propósito do bom senso e do equilíbrio que deveriam
presidir as ações das nossas lideranças, da reação de Benjamim Constant, quando o alfares Joaquim Inácio, radicalizando, propôs o fuzilamento de D. Pedro II, por ocasião das tratativas para a Proclamação da República. Na oportunidade, ante a desabrida proposta de execução do imperador, o militar brasileiro reagiu nos seguintes termos: “O senhor é sanguinário! Ao contrário, devemos rodeá-lo de todas as garantias e considerações, porque é um nosso patrício muito digno”.

Não é essa sensatez, entrementes, que tenho visto nos dias atuais, lamento concluir.
É isso.