Soberba

napoelao-neilima1A soberba ( orgulho desmedido, arrogância, presunção ) não é boa companheira. Parece castigo, mas todas as vezes quem alguém se imagina o senhor da verdade ou da razão, sofre um revés, que é exatamente para apreender que a humildade é uma virtude (É claro que dito isso por quem tem a fama que tenho parece paradoxal. Mas só quem sabe quem sou, verdadeiramente, são os que estão em volta de mim. O resto é puro preconceito, precipitação, pré-julgamento).

Mas é impressionante como há pessoas que não aprendem. Reconheço que assumo posições antipáticas, quando digo, por exemplo, que o poder público não está a serviço de uma pessoa, mas se destina a toda coletividade. Mas isso não é prepotência, não é arrogância; é filosofia de vida, é filosofia moral.

Sei, ademais, que quando exponho as minhas convicções acerca de questões morais, também pareço, aos olhos dos meus próprios colegas, prepotente. Mas filosofia moral não é prepotência: é uma maneira de ver e agir, à luz dos valores morais que devem estar sedimentos em cada um de nós, sobretudo os que exercem um múnus público.

Mas eu sei, também, que poucos são os que têm a humildade e o equilíbrio que tenho no exercício do poder. Eu nunca acho que posso tudo. Eu não tenho a vaidade que  a muitos impregna em face do exercício de um  cargo de poder e visibilidade. Eu não trato com descortesia os meus pares, advogados e funcionários. Mas já fui tratado com deselegância, sem reagir, porque, além do mais, tenho educação.

Diferente de muitos, eu não me julgo poderoso. Não dou murros na mesa. Não grito e nem desrespeito nenhum ciadão, nenhum funcionário e quem mais com quem eu tenha que me relacionar.

Reconheço quando estou errado, e peço desculpas, se for o caso. Nesse passo, se entendo que, por exemplo,  procedi sem o necessário respeito para com os meus pares ou em relação a quem quer que seja, mesmo que seja a pessoa mais humilde que eventualmente esteja sob o meu comando, sei retroceder, pedir desculpas.

Discuto  questões jurídicas, habitualmente, com os meus assessores,  sendo que, muitas vezes, sou vencido nos meus argumentos; quando isso ocorre, retrocedo, sigo noutra direção – sem acanhamento, sem parecer que capitulei, sem me sentir derrotado, mesmo porque, recurar, reconhecer o erro, não é demérito.

Recuo, sim, sempre que me dou conta do erro. Ouço conselhos dos meus assessores, como o mesmo desprendimento, acatamento e respeito com que eles ouvem as minhas perorações.

A soberba, definitivamente, não é a minha marca. Mas há os que pensam, sim, que tudo podem, que são os donos da verdade, que não podem voltar atrás, que não devem assumir os seus erros. Esses, só a vida para ensinar. Mas há os que, empedernidos, nem os reveses da vida os tornam humildes, o que é uma pena.

Um dado histórico pode traduzir, exemplarmente, o que estou tentando dizer.

Pois bem. Napoleão, inconformado com a decisão do czar (imperador russo) de abandonar o bloqueio continental ( pelo qual todos os países europeus teriam de fechar seus portos ao comércio inglês), decidiu invadir a Rússia, em represália. Para isso, consta dos registros históricos, preparou um exercito de 600 mil homens e 180 mil cavalos. As tropoas francesas, no território russo, fizeram as tropos do czar bater em retirada. Napoleão e suas tropas chegaram a Moscou e ocuparam o Kremlin( palácio do czar). As tropas, no entanto, depauperadas, começaram a sucumbir diante do rigoroso inverno russo.  Para simplificar: diante dessa adversidade, que a soberba de Napoleão não deixou ver,  dos 600 mil soldados só voltaram com vida 40 mil, famintos e esfarrapados. Resultado: Napoleão,com esse erro, foi apeado do poder, em face da reação dos ingleses, que se aliaram aos austríacos, russos e prussianos, e invadiram Paris. Derrubado, foi enviado à ilha de Elba. Assumiu o poder Luis XVIII, irmão de Luis XIV.É verdade que, depois, Napoleão reassumiu o poder, conquanto o tenho perdido em seguida, na famosa batalha de Waterloo, tendo sido exilado, depois, na Ilha de Elba, onde permaneceu até morrer.

Mas o que de mais importante fica dessa página da história é a constatação de que, tivesse sido mais humildade e previdente, Napoleão não arrastaria para morte mais de 560 mil franceses.

Soberba, pois, é isso.

Um pásssaro para chilrear

passaro-5752Muitas vezes, complicamos as coisas mais simples; nos agastamos, em demasia, por questões banais, deixando de valorizar o que devia ter sido valorizado. Não valorizamos, para, depois, nos arrepender. Mas aí já pode ser muito tarde.

É por isso que valorizo as coisas mais simples que acontecem na minha vida. Deixo de participar de qualquer festa, de qualquer solenidade,  para bater um bom papo com os amigos; jogar conversa fora, como se diz. Se possível, regada a  Whisky ( que bebo moderadamente), que também não precisa ser muito sofisticado. As coisas muito sofisticadas não tem sabor natural; parece artificial.

Viver bem, para mim, é isso: ver em cada momento alguma coisa para ser comemorada. É por isso que não sou de fazer comemorações em datas específicas. Eu vivo em festa. Minha vida é uma tertúlia sem fim. Mas, registro, vivo curtindo as coisas mais simples: uma  boa leitura, um bom livro, um belo filme, uma roda de amigos etc

Um detalhe: como os amigos de conversas são todos sexagenários, é bom consignar que as nossas conversas giram sempre em torno dos mesmos temas.  Nós vivemos nos repetindo. Há de nós que já contou a mesma história umas duzentas vezes. Mas mesmo assim ainda nos divertimos, achamos graça – em face das mesmas histórias, com os mesmos personagens.

A verdade é que da vida só queremos os prazeres, a bonança, a folgança e a patuscada. Problema, por menor que seja, nós tendemos  superdimensionar, muitas vezes só para nos infelicitar, para nos sentirmos vítimas; a infelicidade, assim, pode estar dentro de nós mesmos.

A felicidade – belo clichê – pode estar nas coisas mais simples. Aliás, para mim, a felicidade está sempre nas coisas mais simples; certamente porque não sou nada sofisticado.

Ainda recentemente, tendo acordado pelos cinco horas da manhã, como faço habitualmente, detive-me a pensar numa coisa simples que a vida urbana nos roubou: o canto dos galos ao amanhecer; nunca mais ouvi o galo cantar ao amanhecer. O galo, para quem não sabe, era o despertador do sertanejo; tanto que, se algum deles, inexplicavelmente, cantasse a destempo, cuidava-se logo  de antecipar a cabidela do domingo, com muitas horas de fogo para amolecer a vítima.

Mas eu dizia que vivemos das coisas mais simples. Eu gosto das coisas simples. O sofisticado, o muito formal me incomoda.

E, registro, não sou diferente de muitos. As coisas simples fascinam a mim e a muitos como eu.

A propósito, o personagem principal de o  Último Dia de Um Condenado, de Victor Hugo, aguardando a execução da pena ( de morte, registro), num determinado momento de solidão, de absoluta introspecção em face de sua situação, fez o seguinte desabafo:

“O cheiro abafado da prisão sufoca-me mais do que nunca e aos meus ouvidos ressoava ainda o ruído das correntes dos forçados. Achava-me cansado de estar em Bicêtre. Parecia-me que Deus deveria ter piedade de mim e enviar-me ao menos um passarinho para chilrear na minha frente, pousado à beira do telhado”

Fico pensando: quantos de nós deixamos de atentar para o canto dos pássaros; algo tão simples mas que só nos damos conta da sua relevância quando somos privados desse presente da natureza.

É provável que o  personagem de Victor Hugo, tendo tido oportunidade, nunca deu o valor que tem o canto de um pássaro.

De minha parte, quisera poder ter o prazer de acordar, pelo menos mais  uma vez, ouvindo o canto de um galo, que tantos vezes me despertou, me oportunizando  ir ao curral do vizinho testemunhar a ordenha das vagas e  degustar um bom leite mugido.

Privilégio de poucos, sabia?

O exemplo de Émile Zola

Tenho afirmado e reafirmado que não confio em quem não assume posição. É desconcertante ver alguém sobre o muro, esperando a hora conveniente para assumir uma posição. Mais desconcertante, ainda, é a postura de quem só assume posição no cochicho;  na hora do vamos ver, amarela, deixa o proscênio, desaparece como que por encanto, inventa um compromisso de última hora, um exame para fazer, uma consulta com hora marcada,  um dor de barrica. É dizer: o tipo que amarela, que é covarde, maria-vai-com-as outras.

A história não perdoa os covardes, os falastrões, os que são só de conversa mole. O tempo passará e dele só ficará, se ficar, a péssima lembrança, o péssimo exemplo.

Da história vem o melhor exemplo: Émile Zola; ele não teve receio de enfrentar o sistema, em defesa de um injustiçado. Foi perseguido e condenado por isso. Mas, em compensação,a história só registra a sua ação; não tem nenhuma relevância para história os que reagiram contra Zola, que, como sói ocorrer, caíram no esquecimento.

Emile ZolaPara ilustrar, publico excerto de um dos muitos libelos escritos por Émile Zola, em defesa do capitão Dreyfus (cf. J´accuse), vítima de uma grave erro judiciário, França, já aqui mencionado em artigo anterior

“[…]Nos massacres todos abrem mão do que possuem. E falo deles com a maior tranquilidade, pois não os amo e nem os odeio. Não tenho entre eles nenhum amigo que esteja perto do meu coração. Para mim são seres humanos, e isso basta[…]”.

Noutro excerto:

“[…]Mas, para a família do capitão Dreyfus, as coisas são diferentes, e quem  aqui não compreendesse, não se inclinasse, seria um triste coração. Entendam! Todo o seu ouro, todo o seu sangue, a família tem o direito e o dever de dá-los, se crê seu filho inocente. Nessa casa que chora, em que há uma esposa, irmãos e parentes de luto, só se deve entrar com o chapéu na mão; e somente os malcriados se permitem falar alta e ser insolentes. “Irmão do Traidor!” é o insulto que lança, à face desse irmão! Sob que moral, sob que Deus vivemos, então, para que isso seja possível, para que  pela falta de um dos membros seja reprovada a família inteira? Nada é mais baixo nem mais indigno de nossa cultura e de nossa generosidade. Os jornais que injuriam o irmão do capitão Dreyfus porque ele cumpre seu dever são uma vergonha para imprensa francesa[…]”

E tu, energúmeno, por que só falas pelas cantos?  Por que não assumes posição?

O preço da ousadia

Para manter um blog, postando matérias novas todos os dias, é preciso muita inspiração. Mas não basta a inspiração: é preciso ter coragem de dizer o que se pensa; coragem porque, ao dizer o que se pensa, pode-se fabricar inimizades -até figadais, creia. Por isso, é sempre mais cômodo não falar, ficar sobre o muro, ver a banda passar, sem esboçar reação. Como não sou desse tipo, eu prefiro dizer o que penso; mas o faço com responsabilidade, cuidando sempre para não agredir as pessoas, limitando-me a expor os meus pontos de vista em face dos mais diferentes temas, apenas para marcar posição, à luz da compreensão que tenho que, nos dias presentes, já não prevalece aquela máxima, que esconde um ato de covardia, de que juiz só fala nos autos.

É preciso convir, inobstante, que dizer o que se pensa é correr o risco de pagar um alto preço, sobretudo porque as palavras, muitas delas polissêmicas, de especial abertura semântica, permitem muitas interpretações, que ficam na dependência de quem as leiam, às luz de suas pré-compreensões, dos seus valores, das suas idiossincrasias.

Recordo, a propósito, que, em 2006, dei uma entrevista a jornal local, na qual, dentre outros temas, fiz uma abordagem acerca da falta de critérios para as promoções por merecimento. No dia seguinte, o jornal estampou uma manchete imputando e mim a autoria de graves acusações contra o Poder Judiciário do Maranhão. Claro que, por isso, paguei um preço alta. Mas entendi o resultado como uma consequência natural de ter corrido o risco de dizer o que pensava.

Mas eu dizia, é preciso ter coragem de dizer o que se pensa, ainda que possamos ser incompreendidos.

Dois episódios históricos para ilustrar. Hobbes, ao defender uma autoridade absoluta em face dos cidadãos, demoliu, no mesmo passo, a pretensão dos reis ao favor divino. Ao fazê-lo, foi considerado por muitos de seus contemporâneos, se não de fato um ateu, certamente um herege perigoso. Depois da grande peste de 1666, quando 60 mil londrinos morreram, seguida pelo Grande Incêndio, um comitê parlamentar foi formado para investigar se seus escritos tinham provocado os dois desastres. Pagou o preço da ousadia de dizer o que pensava (Casos Filosóficos, Martin Cohen, 2012)

Émile Zola, todos lembram, escreveu um artigo ( J’ accuse), em face do caso Dreyfus, publicado no jornal L’ Aurore, atacando os generais e outros oficiais , a quem atribuía a responsabilidade por um grave erro judicial. Pagou um elevado preço. Foi processado, condenado e exilado, nada obstante não tenha feito nenhuma acusação leviana, vez que, depois, comprovou-se que, efetivamente, a condenação de Dreyfus tinha sido embasada em prova insubsistente.  Dentre outras verdades, Zola afirmou: “Meu dever é de falar, não quero ser cúmplice. Minhas noites seriam atormentadas pelo espectro do inocente que paga, na mais horrível das torturas, por um crime que ele não cometeu”.

É isso!

Eu daqui do meu lado, ciente da minha dimensão, vou dizendo as coisas que penso, sem temer pelas incompreensões. Sei, todavia, que, por isso, há quem me veja com cautela e reserva, afinal, na concepção de muitos, falar, dizer o que pensa, numa corporação, pode ser um grave pecado. Mas eu vou dizendo, na convicção de que não sou irresponsável e inconsequente. Muitos gostam e aplaudem o que digo; outros, nem tanto.

Fazer o quê?

Paz e tranquilidade para ser feliz

Os primeiros meses que vivi no Tribunal de Justiça foram os mais difíceis da minha vida profissional. Passei muitos momentos de aflição. Era tudo novo, tudo compartido, tudo fragmentado. Além do mais,  cercado de pessoas que pensavam diferente de mim, sem perder de vista que cheguei  precedido de uma má fama, criada por desafetos gratuitos, por pura maldade. Deparei-me, ademais, em meio a tantas outras diferenças, com julgadores dos mais variados matizes:  uns conservadores, outros, liberais; alguns mais e outros menos radicias;   uns histriônicos, outros, mais contidos; uns tímidos, outros, sem receio da exposição. Tudo muito complicado para uma pessoa da minha personalidade, reflexiva por natureza. Peguei-me, nesse sentido, por diversas vezes, absorto, analisando o colega, tentando traçar o seu perfil como julgador. Daí que fui compreendendo e etiquetando aqueles que entendi mais ou menos positivista, por exemplo. Identifiquei, noutro giro, aqueles cujo pensamento mais se aproximava da minha visão de mundo, com os quais, claro, fui acomodando a minha mente.

Vivi, em face dessas e doutras constatações, momento de intensa ebulição mental; desejei, muito, ter tempo para me aposentar, deixar o proscênio, partir para outras atividades: escrever, ensinar, fazer programa de radio ( minha verdadeira paixão), cuidar de mim e da minha família. Mas, por não ter tempo, tive que perseverar. Hoje, passados três anos, estou mais assentado, mais ajustado com o meio,  razão pela qual posso dizer que estou  feliz, porque estou em paz e tranquilo em relação a muitas das questões que me afligiram.

Com o passar dos dias claro,  fui me adaptando, fui participando mais intensamente dos debates, fui me enturmando, perdendo o receio de que, por ter assumido o desembargo precedido de má fama, pudessem me tratar com indiferença. Hoje posso dizer que já vou para as sessões de julgamento em paz, com tranquilidade, por isso, nos dias presentes, estou, sim,  mais leve e mais solto, disposto a seguir adiante, dando a minha contribuição aos julgamentos, fazendo a minha parte, perseverando nos meus argumentos, defendendo as minhas teses, expondo, com coragem e sem receio, as minhas posições acerca dos temas mais polêmicos, sempre com o necessário equilíbrio e, fundamentalmente, respeitando os que pensam diferente de mim, como tem ocorrido nas Câmaras Criminais Reunidas, onde, em face de alguns temas, tenho permanecido praticamente isolado.

Envolto nos últimos meses com o estudo da filosofia, anoto, com Epicuro ( 341-270 a.C.), que a paz e a tranquilidade que tenho hoje sedimentadas em mim, são a razão maior da minha felicidade, sob o ponto de vista profissional, vez que, na minha vida pessoal, eu nunca deixei de ser feliz.

Agora, alcançando esse nível de tranquilidade, sinto-me em condições de seguir adiante. Vou até não sei quando. Quando eu tiver tempo de me aposentar, conversarei com a minha família para tomar uma decisão. Se tiver com que empregar o meu tempo, sendo útil à sociedade em outra atividade, acho que o caminho será a aposentadoria, inexoravelmente.

Mas, como Heráclito ( viveu por volta de 500 a.C), vou deixar fluir, vou seguindo a onda, vou construindo o que posso construir, na certeza de que não deixarei nenhum retrato na galeria dos imortais, mas vou deixar a minha história construída e sedimentada com base na dignidade e no destemor com que sempre emoldurei as minhas posições.

A pequena e a grande mentiras

Há pessoas (aparentemente) obcecadas  pela verdade; ainda que seja do tipo que, na sua vida pessoal, se valha, muitas vezes, da mentira,  pelos mais diversos motivos.

Essa afirmação faço apenas a guisa de introdução – para instigar, provocar mesmo  – , em face do tema que vou abordar a seguir.

Eu, cá do meu canto, fico perscrutando se vale a pena dizer- e saber – , sempre,  a verdade; se não é preferível ouvir uma mentira, aqui e acolá, circunstancialmente; que não sejam, claro, mentiras como as protagonizadas pelo Grande Irmão, como na ficção de George Orwell.

Não! Não é isso!

O que cogito é saber se a mentira banal, a mentira sem importância, que não prejudique, que não cause danos à honra e ao patrimônio das pessoas pode ser contada, aqui e acolá, porque, afinal, falar sempre a verdade, não dar vazão ao, digamos,  mentiroso que há dentro de cada um de nós, pode não ser  o mais aconselhável nas nossas relações.

É que, desde a minha compreensão, nem sempre as pessoas estão preparadas para uma verdade. É por isso que, algumas vezes, é preferível a mentira. Mentiras, nessas circunstâncias, não são mais que pecados venais.

Compreendo, sim, que, nas nossas relações, há momentos, há ocasiões que se deve, pelas circunstâncias, mentir ou, se for preferível, ocultar a verdade.

Eu conta as minhas mentiras. Já me vi, muitas vezes, compelido a mentir; às vezes, para não magoar, para não fazer sofrer.

Você, certamente, também já contou a sua.

A verdade é que todos nós mentimos, dependendo das circunstâncias.

O que não se deve é levar a mentira às últimas consequências. Não se deve mentir para tirar proveito, para ludibriar, para derrubar um colega, para destruir a reputação de um congênere.

O grave, entrementes, é que, dentre nós, há, sim, os que mentem por prazer, para menoscabar, embaciar, desmerecer, empanar, obscurecer o brilho do colega.

Conheço pessoas que chegam ao orgasmos contando uma lorota, mentindo sobre um colega, criando histórias mirabolantes, objetivando colocar mal perante as pessoas aquele que ele elege como desafeto, em face, exclusivamente, de sua mente doentia.

Aliás, ouso dizer, que o loroteiro adora uma plateia. E, com plateia, ele se esbalda. Mente pelos cotovelos. Mentindo, ataca a honra das pessoas, sem nenhuma cerimônia, sem nenhum escrúpulo. O grave é que não tem medo de nada. Pensa que o poder a tudo favorece, a tudo encobre.

Eu já fui vítima desse tipo.  Eu mesmo já testemunhei, sem nenhum prazer, a atuação desse tipo peçonhento em detrimento de outras pessoas.

Quero dizer eu te amo

gota-de-amor-1024Duas frases  me fizeram refletir sobre a aceleração da vida, sobre a passagem implacável do tempo. A primeira delas da atriz Fernanda Montenegro: “A coisa mais dolorosa pela qual tenho passado é ver a minha geração morrer”. A segunda, de José Dirceu: “Para mim é uma tragédia ser preso aos 66 anos. Eu vou sair da cadeia com 70 anos”.

Além dessas lancinantes manifestações, que condizem, repito, com a aceleração da vida,  ouvi de meu pai, há uns 12 dias, o seguinte: “ Meu filho, eu resolvi que não bebo mais. É muito bom viver. Eu tenho 82 anos, mas ainda quero viver muito. Assim como deixei o cigarro, agora deixo a bebida, por que sem ela vou poder viver muito mais”.

As três mensagens me levam a algumas conclusões – todas muito óbvias -, que quero compartilhar com os leitores do meu blog: (i)  a certeza que todos temos de que a nossa vida na terra é passageira, (ii)que, mais dias menos dias, portanto,  todos iremos partir, e que, em face da nossa racionalidade, (iii) – devemos  perceber quando a vida começa a se esvair, quando não dá mais para fazer planos a longo prazo, que amanhã é agora, que tudo urge, que as sementes que plantarmos agora não colheremos no futuro, porque não haverá porvir.

A mim me angustia, sim, a passagem inclemente do tempo, tema sobre o qual já tive a oportunidade de refletir aqui mesmo, neste mesmo espaço.

É que, olhando para trás, fico com a sensação de que, até aqui, (i) a minha estada na terra não tem sido profícua como poderia sê-lo, (ii) que, do muito que podia realizar, pouco fiz, (iii) que, muitas vezes, podendo – e devendo – falar, calei, optei pelo silêncio dos insensíveis (iv) que, em certas ocasiões, podendo agir como herói, me acovardei, (v) – que, quando tive a oportunidade, não fui capaz de dizer “eu te amo”, à conta de uma timidez injustificável, na suposição, ademais, de que a manifestação do amor se dá muito mais nos gestos que nas palavras.

Eu também tenho testemunhado a partida definitiva de pessoas da minha geração; uma geração um pouco mais nova que a de Fernanda Montenegro, é verdade. Mas tem ocorrido, sim. E eu tenho lamentado. E vejo, com os olhos de quem quer ver, que estou sendo levado, celeremente, para o mesmo destino, que, afinal, é inescapável, inexorável.

Eu também lamentaria se, ao 59 anos, tivesse, de alguma maneira, que me recolher para assistir, trancafiado, a vida passando por uma janela, como lamenta José Dirceu, sobretudo por entender que não se deveria, sejam quais forem os deslizes cometidos, separar, nem  por um dia, as pessoas que se amam.

Uma corrente filosófica dos anos 30 e 50, chamada existencialismo, definiu o ser humano ou o homem como “um ser para a morte”, isto é, um ser que sabe que termina e que precisa encontrar em si mesmo o sentido de sua existência ( Convite à Filosofia, Marilena Chaui, 1998).

Apesar de me inquietar a sensação de  não ter cumprido bem o meu papel, e de, na minha (exigente) avaliação, não ter justificado, como deveria, a razão da minha existência, ainda assim sou instado a pedir clemência a quem de direito: eu quero, como tantos, viver muito mais, para, quem sabe, realizar um pouco mais ou, pelo menos, para ter tempo de, sem timidez, olhar nos olhos das pessoas amadas e dizer, sem enleio: “eu te amo”.

Como um casulo

6_casuloReconheço que, em face de muitas das minhas manifestações,  eu me coloco, muitas vezes, na linha de tiro e viro alvo fácil de críticas, afinal muitos não concordam com as minhas posições, o que é democraticamente aceitável. Há ocasiões que concluo, depois de alinhavar o pensamento, que não deveria publicá-lo, para evitar ser mal interpretado. Depois  de uma pequena hesitação, termino me decidindo pela publicação. É algo incontrolável! Eu fico sempre com a sensação de que alguém precisa dizer algo, que alguém precisa contestar o que está estabelecido como natural, que alguém tem que assumir uma posição, que o pior que se pode fazer é calar, se acomodar, deixar as coisas fluírem, ainda que se tenha que pagar um preço alto pela ousadia.

Diante dessa constatação – ou seja, de que o que se pensa deve ser compartilhado -,  ao fim e ao cabo de cada reflexão eu me sinto na obrigação de veicular o resultado delas,, afinal, pensar  – e expor, na mesma balada, o resultado do que se pensa – só incomoda aqueles que pensam e agem de forma diferente do que penso e do que sou; mas, nesse caso, seria bom que os que discordassem saíssem da inércia para, dialeticamente, democraticamente, respeitosamente, discutirmos os nossos pontos de vista.

O pior se pode fazer, repito, é pensar e calar, é querer dizer e engulir as palavras.

Deve-se ter em linha de conta, a propósito, que o pensamento, por si só, não amedronta ninguém, não repercute, não tem efeito, não tem consequência, é um nada, é pura irrelevância, afinal, se somos dotados de racionalidade, se não padecemos de nenhuma doença mental que nos retire a capacidade de entender e querer, deve-se, sim, pensar e dizer o que pensamos. Nós podemos, até,  se não deixarmos a covardia quebrantar as nossas forças, mudar o mundo com as nossas pregações, com a exposição das nossas convicções, que, afinal, são coincidentes com o que pensa a absoluta maioria.

Um pensamento aprisionado tem a mesma consequência que o uma lagarta num casulo; ela nunca será borboleta.

É preciso, pois, pensar e ir além do pensamento.

Só para ilustrar, lembro que os poderosos de Atenas tinham Sócrates como um perigo, pois ele  ajudava a juventude a pensar. Por isso, foi acusado de desrespeitar os deuses, de corromper os jovens e violar as leis. Por isso foi condenado, e por isso ingeriu cicuta e foi levado à morte.

Passados tantos séculos, fico, às vezes, com a sensação de que ainda é pecado dizer o que se pensa e que  só não peca e não desagrada aquele que mantiver o pensamento sob custódia.

É preciso acreditar na força racional do pensamento. Temos que ter fé, como seres racionais, nos nossos pensamentos, afinal, reflexão (rectius: o pensamento) é a consciência conhecendo-se a si mesma como capacidade para conhecer as coisas, alcançando ou o conceito ou a essência delas( Marilena Chaui, Convite à Filosofia, 1998)

Uma manifestação, para encerrar. Quando eu me decido por reflexões dessa natureza, não olvido que, segundo Marx, os nossos pensamentos são impulsionados por um poder invisível chamado ideologia. Não deslembro, da mesma forma, que Freud, de seu lado, compreendia que os nossos pensamentos são manipulados por uma força invisível e profunda que atua sobre a nossa consciência, chamada inconsciente.

Entendo, inobstante, que as ponderações que fiz acerca do pensamento não autorizam uma discussão filosófica desse porte.

Tudo isso pode e deve ser ponderado. Todavia, entendo que não devo fazê-lo nessa oportunidade.

Fico por aqui, pois.