Não se deve confundir radicalismo com sectarismo

Quando as pessoas querem desmerecer as posições de outrem, costumam qualificar  o alvo de radical. Com esse objetivo,  se necessário, manipulam os fatos, destorcem as palavras, tudo no afã de, até, ridicularizar aquele que escolheram como desafeto. Eu já fui vítima desse tipo de ação, razão pela qual sei bem do que estou falando.

É necessário dizer aos desavisados, no entanto,  que não se deve confundir sectarismo com radicalismo, confusão que costumam fazer, por pura maldade, os oportunistas.

Radical, deviam saber, é aquilo que se firma nas raízes, que não têm convicções superficiais, meramente epidérmicas; radical é alguém que procura solidez nas posturas  e decisões  tomadas, não repousando na indefinição e nas certezas medíocres.

Diferente do radical é o sectário, que é parcial, intransigente e  faccioso; aquele que não é capaz de distinguir outras possibilidades, o que, creio, não é meu caso.

À luz dessas anotações, formuladas a partir das reflexões de  Mario Sergio Cortella, in Provocações Filosóficas, é facílimo concluir que as minhas posições nos julgamentos dos quais participo nada têm de facciosas, conquanto seja forçado a admitir que, muitas vezes, por convicção, assumo posturas radicais. Quando, por exemplo, me esmero em sublimar  a Constituição nos  votos que elaboro, estou assumindo, sim, uma posição radical –  sem ser faccioso. Quando digo que todo sofrimento desnecessário afronta a dignidade da pessoa, estou assumindo, também aqui,  uma posição radical – sem ser faccioso.  Quando afirmo, por outro lado, que abomino toda forma de ditadura, ainda que seja dos amigos e das ideias, estou assumindo, também aqui, uma posição radical, mas, do mesmo modo,  não sectária.

O que não aceito, e todos que convivem comigo estão cientes, é o conforto do meio-termo, das posições comportadas e por isso mesmo confortáveis.

O caminho do meio só é confortável para os medíocres, os que têm medo de assumir riscos, de romper, quando necessário, com a prudência. É prudente, por exemplo, não discordar com veemência do colega. Em torno dessa questão não esperem de mim a prudência, conquanto seja educado e cortês.

Chega de abuso!

Convenhamos: esse horário eleitoral gratuito, em determinados aspectos,  é uma afronta.

Convenhamos, ademais: essa propaganda com carros de som é  uma excrescência.

O que entrevejo em face  da propaganda eleitoral é que cumpre-se o que determina a lei, desrespeitando outra lei.

A verdade é que ninguém suporta a poluição sonora produzida pelos carros de som dos candidatos.

Quem mora numa avenida como eu, não tem o direito de ler ou de assistir a um programa de televisão.

Há momentos que não se pode sequer conversar.

O pior que há músicas de candidatos que colam nos ouvidos da gente que, muitas vezes, dormimos cantando, sem querer, o seu maldito refrão.

É tempo de mudar!

Chegou a hora de se rever esses abusos!

Não dá mais para suportar calado essa afronta.

Registro, para não ser mal interpretado, que não sou contra a propaganda eleitoral.

O que quero dizer é que tem que ter limites.

Não se pode, em nome da lei, afrontar a lei.

Não pode o serviço de som de um determinado veículo atentar contra a nossa saúde, nos afrontar e nos  irritar  por falta de limites.

É preciso que as instituições saiam da sua inércia para fiscalizar os abusos.

Em nome da lei não se pode ir ao extremo.

Eu quero paz!

Eu tenho o direito de escolher o que quero ouvir!

Eu tenho o direito de, na minha casa, conversar com os meus filhos, trocar ideias com a minha mulher.

Direito não é para aniquilar direitos.

Se é verdade que os candidatos podem, livremente, fazer propaganda política, não é menos verdade que eu tenho direito ao sossêgo. Disse infere-se que, do confronto entre o meu direito e o direito dos canditados, tem que existir um meio-termo.

O que é inaceitável é a falta de limites, é a exorbitância, o posso tudo em nome da lei.

Eu tenho o direito de ouvir música na minha casa; não posso, todavia, ouvi-la em níveis de decibéis que possam incomodar o vizinho.

Eu tenho o direito de comemorar o meu aniversário com a minha família e meus amigos; inobstante, não posso, mesmo estando no interior do meu apartamento, fazer algazarras, de modo a perturbar o meu vizinho.

Eu posso beber, cantar,  dançar e, até, me embriagar no meu apartamento; não posso, todavia, bêbado, lançar improprérios e desacatar os meus vizinhos, ao argumento de que, estando em minha casa, tudo posso.

Vê-se, com o exemplos acima lançados, que o meu limite é o direito do meu congênere.

Por que, então, a propaganda eleitoral não tem limites?

Difícil controlar? Claro que é.

Mas é preciso, sem mais tardança,  criar uma cultura de respeito aos direitos dos semelhantes, ainda que seja no período eleitoral quando, ao que parece, tudo pode.

Passado,presente e futuro

Para e pense: teria  sentido o presente se não houvesse a perspectiva de futuro?

De minha parte compreendo que o presente só tem sentido diante – e em face –  do porvir.

Nada do que fazemos nos dias presentes teria  sentido  não fosse  a (quase ) certeza do futuro.

Plantamos hoje para  colher no futuro.

Planejamos as nossas vidas, as nossas ações em face do futuro.

Se o futuro se esvai em nossa mente, sem que acreditemos  que o que fazemos hoje repercutirá no futuro, então os dias presentes de nada valem.

Vivo, por isso, o presente, com os pés fincados no futuro, entrementes.

Triste daquele que vive o presente com a alma mergulhada (apenas)  no passado.

Há registros históricos dando conta de que Colombo se sentiu mais feliz quando estava prestes (futuro) a descobrir a América do que quando efetivamente a descobriu(passado).

Nos dias presentes vivo  em razão da que há de vir(futuro), com o que justifico a minha razão de existir (presente)

É inaceitável, para mim, que as minhas aflições, as minhas inquietações, as minhas angústias  nos dias presentes  sejam em vão, diante da perspectiva de um não vir.

Olho para frente e – que bom! –  ainda vejo o  horizonte . Por isso continuo, por isso sigo em frente: rompendo as amarras, enfrentando as intempéries, expungindo as dificuldades, pavimentando o caminho que me levará adiante, na certeza de que quando  do meu ponto de observação não for possível vislumbrar o  futuro,   a vida  tende a perder  o sentido.

“O animal satisfeito dorme”

Guimaraes Rosa dizia que “o animal satisfeito dorme”. Com isso queria dizer que  o homem, satisfeito, corre o risco da monotonia existencial.

A verdade é que o homem, satisfeito com a situação presente, tende a perder substância, a entrar numa fase de indigência mental muito perigosa.

Acho que estou passando por essa fase!

Creio que, pelo menos no que concerne à minha condição de magistrado, a sedução do repouso e a acomodação parecem me contaminar.

Olho em volta, estando no Tribunal de Justiça, e fico com as impressão de que já estou satisfeito, que posso me aposentar, que posso voltar pra casa e iniciar um novo projeto de vida.

Ontem mesmo, por ocasião da posse solene do colega Raimundo Barros, fiquei com meus botões, olhando para um e para outro colega, e me indagando: o que estou fazendo aqui? Por que não vou para minha casa? O que ainda é possível realizar, estando desembargador? Por que, diferente de muitos, não almejo ser presidente? Por que, se todos se empolgam com o poder, eu me sinto desconfortável exercendo-o? O que tanto fascina nesse cargo que não consegue me atingir?

Tudo isso pode ser confusão da minha mente.

É possível que, mais logo, eu volte ao meu estado, digamos,  normal, afinal, só mesmo não sendo normal para não se embevecer com algo que a todos fascina.

Exercício de humildade

É de minha formação não falar de e sobre coisas que não conheço. E vou além! Me constrange ouvir alguém falar, às vezes aparentando convicção, sobre o que não conhece. Aqui e acolá, por não gostar desse tipo de comportamento, sou compelido a conviver com esse tipo de gente, que, desde a minha compreensão, quando fala do que não conhece, está, de certa forma, nos chamando a todos de otários. O pior é que, muitas vezes, por incursionar acerca do que não têm conhecimento, sofrem constrangimentos, quando são flagradas  numa lorota, todavia, ainda assim, prosseguem na sua faina, como se estivessem zombando de todos nós.

Compreendo que, quando o assunto é cultura, é preceiso ser humilde para admitir que o que sabemos é muito pouco, ou quase nada, em face do universo de informações que povoam o mundo.  Aliás, Sócrates ministrou bem essa lição. Assim é que, apontado como o mais sábio dos homens,  e não se achando digno da honraria, sentenciou, nas palavras reproduzidas  pelo seu discípulo PLATÃO: “Mais sábio do que esse homem eu sou; é bem provável que nenhum de nós saiba nada de bom, mas ele supõe saber alguma coisa e não sabe, enquanto eu, se não sei, tampouco suponho saber. Parece que sou um nadinha mais sábio do que ele exatamente por não supor que saiba o que não sei”.

A propósito, há registros de  que Sócrates buscou, incessantemente, alguém mais sábio, supondo estar a serviço dos deuses. Consta, no entanto, que o resultado foi sempre o mesmo, isto é, todos falavam como se fossem sábios e mesmo os que conheciam alguma coisa tendiam a extrapolar seus conhecimentos, resvalando para assuntos sobre os quais não tinham nenhuma noção.

O que pretendo nessas reflexões é remarcar que, diante de determinadas questões, para as quais não temos respostas prontas numa prateleira,  é melhor indagar que responder, ouvir do que falar.

Isso se chama exercício de humildade.

Na laje sepulcral

Nós todos, todos os dias, todas as horas, fazemos história.
Todos os dias, a cada momento,  escrevemos mais um capítulo da nossa história, na condição de protagonistas ou na condição de coadjuvantes de outros personagens que, da mesma forma, vão construindo a sua própria história.
Diante dessa constatação,  olho para trás e vejo que, mesmo irrelevante, dentro de um contexto no qual  pontificam luminares,  vou construindo a minha história. Mas tenho consciência que não é muito,  que tudo que eu fiz  é quase nada e que, por isso, quase nada do que realizei será legado para a história, no sentido mais amplo do termo.
A verdade é que eu não posso, em face mesmo da minha quase irrelevância, ir além do que já construí, porque tenho a exata noção dos meus limites, da minha importância  no contexto no qual realizo a minha produção intelectual.
Em face do pouco que edifiquei, só  desejo que a história reserve para mim um lugar de destaque em face das minhas boas intenções e em face de nunca ter usado o poder para fazer o mal a ninguém.  Se algo tiver que ser escrito na minha lápide, depois que eu deixar a vida terrena, basta que fique consignado o seguinte: aqui jaz um bem-intencionado.
Conquanto constatemos, por óbvio, que cada um faz a sua história, não se há de obscurecer, com a mesma obviedade, que em torno de cada personagem da história criam-se fantasias, para o bem e para o mal, muitas deles com o claro objetivo de diminuir-lhes a importância. E o mais greve é que, algumas vezes, a fantasia, o lado negativo, enfim, acabo por preponderar no inconsciente das pessoas. O exemplos são inumeráveis.
Por mais que façamos, por mais que realizemos, por mais que nos destaquemos, haverá sempre quem trabalhe para minimizar o nosso valor, a nossa importância.  Ainda que reconheçam em nós algum valor, cuidam de  destacar um eventual defeito, pelo mórbido prazer de  minimizar o valor das nossas realizações.  Nesse sentido, todos sabem, seria até despiciendo dizer, que,  por muitos anos, fui alijado de promoções para a Corte estadual, ao argumento de que, embora fosse um magistrado correto e trabalhador, era arrogante e incendiário. À conta desse estigma fui sendo preterido.
Um dado apanhado da história ilustra bem essas reflexões. Protágoras *( O homem é a medida de todas as coisas) foi criticado duramente por Sócrates, pelo fato de cobrar pelas aulas que ministrava, e, à conta disso, ter progredido financeiramente, cumprindo consignar que as aulas que ministrava se destinavam aos jovens homens de famílias ricas ou nobres.Esse lado de Protágoras, que bem poderia ter sido relevado, em face do seu legado,  acabou servindo de pretexto para críticas acerbas, a reafirmar as conclusões que aqui emolduradas.
Constata-se, no exemplo, que, muito provavelmente, fossem quais fossem as virtudes de Protágoras, fossem quais fossem a sua  contribuição  intelectual para sociedade, para sociedade em geral e para Péricles em especial, ainda assim, seria criticado- se não fosse por esse motivo, seria por outro, afinal,  nenhum de nós escapa da maldade do homem. É dizer: ainda que não tivesse defeito, ter-se-ia que imputar-lhe um, fosse qual fosse, para minimizar a sua importância, como, de resto, aconteceu com o próprio Sócatres,  cujo morte sabemos em quais circunstâncias ocorreu.
A conclusão a que se pode chegar, em torno dessa questão, é que, por mais que façamos, por mais que realizemos, sejam quais forem as nossas contribuições para história, haverá sempre quem prefira, ao invés de reconhecer o nosso valor, nos criticar em face de uma ação menor.

*Protágoras, o mais conhecido dos sofistas, nasceu em Abdera, em 483 a.C. Era amigo pessoal de Péricles e foi o responsável pela incumbência de escrever as leis para a colônia de Turi, fundada em 480. Por ter afirmado que ninguém podia garantia a existência ou inexistência dos deuses, foi acusado de sacrilégio, condenado e banido de Atenas, e as suas obras foram queimadas na praça da cidade. Morreu em 410 a.C., em um naufrágio, durante a fuga para Sicília.

Em busca de valorização

Todo mundo gosta de ser prestigiado; diria eu, valorizado, reconhecido.

Eu, tu, ele, ninguém fica indiferente em torno dessas questões.  A menos que não seja racional.
É próprio do ser humano gostar de ser reconhecido pelas  ações que realiza.
Velho, novo, ancião, seja quem for, todos nos sentimos bem quando nos prestigiam, quando nos valorizam, ainda que o seja por uma insignificante realização.
Claro que, em face de questões marcadamente pessoais, alguns gostam mais que outros, exigem mais que outros, se regozijam mais que outros.
Mas muito cuidado, porque o desejo de reconhecimento pode levar as pessoas ao extremo, como ilustrarei a seguir, com dois exemplos diametralmente opostos.
Pois bem. No domingo próximo passado estive com um tia, de oitenta anos, irmã do meu pai, aqui no Rio de Janeiro, que, depois de muitas recordações, de muito papo descontraído sobre as nossas vidas, deixou  claro que uma das razões pelas quais não volta para o Maranhão ( mora no Rio há 62 anos), onde estão todos os seus irmãos, é  sentir-se prestigiada, valorizada aqui.
Soa estranho, no primeiro momento, que alguém se sinta mais prestigiada em terra estranha que na sua. Todavia, muitas vezes, não se há de negar, nisso não há nada de inusitado. Muita vezes eu próprio tenho a sensação de que sou mais valorizado por ” estranhos” que por parentes. Mas isso é outra questão, que não deve ser lembrada.
O que importa mesmo para essas reflexões é reafirmar a necessidade que todos temos de ser valorizados, prestigiados, reconhecidos.
Vou adiante.
O segundo exemplo que gostaria de mencionar, para ilustrar essas reflexões, foi o depoimento de um policial( a matéria foi veiculada com o nome fictício),  mencionado numa matéria publicada no jornal o Estado de São Paulo, de 22 do corrente, o qual, dentre outras barbaridades, disse que, para se sentir prestigiado dentro da corporação, precisou matar, pois a todo tempo os seus colegas indagavam se já havia matado alguém, e responder-lhes sempre negativamente o deixava em situação desconfortável.
Esses dois exemplos, tirados ao acaso, reafirmam o que eu disse acima: todos buscamos reconhecimento, todos queremos ser prestigiados, todos queremos ser valorizados.
Só que uns em face do bem que realizou e outros, em face do mal que praticam.
É possível compreender o ser humano?

Escolhas morais

Na vida estamos, quase sempre, em conflito com as nossas escolhas.  É o prêço que pagamos por sermos racionais

Muitas vezes, premidos pelos circunstancias, diante de duas escolhas morais,  optamos, pelo mais diversos motivos, pela menos recomendável.

Disso decorre que, pelo erro, pela escolha equivocada, pagamos um preço, que, dependendo do gravame, pode nos afligir pelo resto das nossas vidas.
Eu, tu, ele, nós, todos nós, enfim, em determinados momentos da vida, fizemos  – ou melhor, fazemos – escolhas morais equivocadas. E todos nós, por fazê-lo, pagamos o preço correspondente, que, quase  sempre, é proporcional às suas consequências.
Quero dizer, com essas reflexões, que uma pessoa moral  deve saber escolher -ou, pelo menos,  tentar – dentre as opções morais, a mais recomendável, a mais consentânea, a menos gravosa, a que menos agredida. Quando não somos capazes, sejam quais forem as circunstâncias,  de fazer a melhor escolha, pagamos o preço do erro cometido.
Ser uma pessoa moral, portanto, significa não fazer escolhas por impulso, saber controlar os desejos, as forças internas, usar a razão, decidir à luz de um conjunto de regras, de imperativos (morais), o que, nada obstante, nem sempre é possível, daí ser prudente que, diante de um erro,  tenhamos o necessáirio equilíbrio para avaliar se, nas mesmas circunstancias, não agiríamos da mesma forma.
Devo admitir, cá  do meu canto, que, muitas vezes, tenho optado – como todos o fazemos, afinal – por escolher, dentre as opções possíveis, o pior caminho, a menos desejável, por absoluta falta de capacidade, nalgumas circunstâncias, de fazer a melhor, a mais razoável, a menos deletéria dentre as escolhas que poderia fazer, disso inferindo que, diante das escolhas morais, somos rigorosamente iguais.