LACRADORES

O mundo digital incorporou ao nosso cotidiano algumas expressões que eu, da geração analógica, tive – e, às vezes, ainda tenho – dificuldade de compreender, embora tente me atualizar para não parecer anacrônico, afinal as expressões do universo digital estão incorporadas ao nosso cotidiano, e só nos resta mesmo tentar compreendê-las.

Nesse ambiente, termos estrangeiros foram sendo incorporados ao nosso vocabulário, e passaram a fazer parte da nossa vida. Reels (vídeos curtos e verticais, pensados para serem consumidos facilmente e compartilhados) feed (fluxo de conteúdo que pode ser visualizado em determinada ordem) e direct (forma privada de troca de mensagens), para ficar apenas nos três exemplos que me ocorrem agora, já fazem parte da linguagem corrente. Quem os desconhece terá dificuldades de interagir com o mundo digital.

Mas, ao lado dessas expressões, há outras que perderam, parcialmente, seu sentido original, para se incorporarem à nossa vida com outro sentido, como ocorre, por exemplo, com o termo lacração.

Com efeito, lacrar, outrora, tinha a ver, em seu sentido mais estrito, com segurança, disso resultando que quando alguém recomendava, por exemplo, que se lacrasse um envelope, sabia-se o que efetivamente se pretendia com a recomendação.

A mesma palavra, por outro lado, noutra vertente menos usual, significava fazer algo muito bem, impactante, relevante, com sucesso e com destaque; nada além disso, até que surgiram as redes sociais, e, com elas, lacrar passou a ter outra conotação, daí que o que, originalmente, significava segurança, mandar bem, realizar algo extraordinário, um grande feito, com as redes sociais, mudou de sentido, tema sobre o qual pretendo refletir a seguir.

Pois bem. Hoje, o lacrador, ou seja, aquele que “lacra” na internet, pode ser, sim, um inconsequente, um irresponsável, uma pessoa destituída de pudores, capaz de qualquer ação para dela se beneficiar, para tirar proveito material ou político, deixando, portanto, de ser protagonista de um grande feito.

Os lacradores, nos dias presentes, no sentido que empresto a essas reflexões, prestam um desserviço à sociedade.

A caça por likes e engajamento, a busca frenética por visibilidade ou de algum benefício pessoal, transformou os lacradores em serem nefastos, abjetos, nefandos e inconsequentes, os quais, com sua ação, transformaram as redes sociais onde atuam em ambientes tóxicos, impingindo à sociedade danos, por vezes, irreparáveis.

Movidos pelo prazer de lacrar, de estar em evidência, de alcançar os famigerados likes, os lacradores mentem, escarnecem, agem sem pudor, veiculando mentiras (as chamadas fake news), muitas das quais têm repercussão que extrapolam a esfera individual das pessoas, para ganhar dimensão nacional, em detrimento, até, da soberania nacional.

Definitivamente, os lacradores da internet, atuando numa área onde quase tudo podem, não têm limites daí que, vicejando muitos deles num ambiente político e polarizado, as lacrações vão além do inimaginável, pouco importando, algumas vezes, os prejuízos que causam à sociedade como um todo.

Reconheçamos que o mundo, depois da internet, jamais será o mesmo – para o bem e para mal.

As redes sociais, que, originariamente visavam – e visam, ainda, na sua vertente mais civilizada – facilitar a interação e a comunicação entre pessoas, por exemplo, se tornaram ambiente fértil para todo tipo de ação, das mais simples e despretensiosas às mais nefandas, onde vicejam os haters, capazes de qualquer ação que os levem à lacração, pouco importando as consequências da ação, quer em face de uma pessoa individualmente considerada, quer em face do conjunto da sociedade, pois que, para os lacradores, o que importa mesmo são a repercussão, as consequências, a monetização, os ganhos que possam auferir em face de suas ações.

Como diz o poeta popular, concitando as pessoas a não se acomodarem e a lutarem por um futuro melhor – e esse futuro necessariamente exige que se imponha um freio às ações danosas dos lacradores, que apostam no caos para dele tirar proveito: “É preciso dar um jeito, meu irmão”.

É isso.

CANTO DE DOR

Inicio essas reflexões sentado no terraço do meu apartamento, num final de tarde, embalado pelo canto de um pássaro selvagem – bigode, curió ou bicudo, imagino -, seguramente aprisionado numa gaiola, cujo canto – de dor, tenho certeza – me fez lembrar de um antigo sucesso de Luiz Gonzaga, o famigerado “Rei do Baião”, sobre o qual discorrei a seguir.

Pois bem. O cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga do Nascimento (1912-1989), em parceria com o advogado, compositor e poeta cearense Humberto Cavalcanti Teixeira (1915-1979), compôs o baião Assum Preto, verdadeira obra-prima do cancioneiro nacional, cuja letra tem início com a descrição plástica da beleza da mata em flor, para, em seguida, descrever um ato cruel entre os passarinheiros, sobre o qual faço menção adiante.

Desde muito novo, senti algo perturbador ao ouvir a música Assum Preto, sobretudo porque sempre fui – e sou – muito sensível a tudo que envolve o mundo animal, máxime dos que estão expostos à crueldade e à insensibilidade do ser humano. Demais, porque eu mesmo testemunhei o canto do mencionado pássaro, aqui no Maranhão, em Vitorino Freire, minha terra natal, por aquelas plagas nominado Chico Petro.

Ouvindo a música (experimente, se ainda não ouviu) a gente sente cravar uma faca no peito, tamanha a força narrativa da tragédia do pássaro, privado da liberdade de voar porque lhe arrancaram os olhos, para que o seu algoz tivesse primazia do seu canto, tornando-o – o pássaro – escravo do seu próprio estribilho, a reafirmar a inesgotável capacidade do homem de agredir a natureza, para servir aos seus desejos mais mesquinhos, pouco importando o sofrimento infligido, no caso, ao Assum Preto.

A letra da música segue:

Tudo em ‘vorta’ é só beleza, sol de abril e a mata em ‘frô’.

Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor.

Mas Assum Preto, cego dos ‘óio’, num vendo a luz, ai, canta de dor”.

E prossegue:

“ ‘Tarvez’ por ‘ingnorança’, ou ‘mardade’ das ‘pió’,

Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto pra ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’,”.

E repete a letra, para cortar o coração de que tem sensibilidade:

“ ‘Furaro’ os ‘óio’ do Assum Preto, ‘pra’ ele assim, ai, ‘cantá’ ‘mio’.”

Mais adiante:

Assum Preto ‘veve sorto’, mas ‘num’ pode ‘avuá’, mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”

E repete o refrão com a mesma conformação:

Mil vez a sina de uma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse ‘oiá’.”

E finaliza:

Assum Preto, o meu cantar é tão triste como o teu, também ‘roubaro’ o meu amor que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus, também ‘roubaro’ o meu amor, que era a luz, ai, dos ‘óios’ meus.”

Essas reflexões são um libelo em favor daqueles que, numa gaiola ou com os olhos arrancados, como o pássaro que inspirou os poetas – e aquele outro que ouvi da sacada do meu apartamento -, são subjugados e compelidos a cantar com exclusividade para satisfazer o seu algoz, que, prepotente e insensível, não se dá conta de que, na verdade, o que o canto sugere é um grito de dor, um pedido de socorro.

É isso.

FALEM MAL, MAS FALEM DE MIM

Há curiosidades para as quais não temos respostas. Não se entende, por exemplo, por que os kamikazes usavam capacetes e nem a razão pela qual, antes de se aplicar uma injeção letal, se usa álcool para limpar o local, nos casos de penas capitais.

Essas duas “curiosidades” – abstraído o sentido lúdico dos questionamentos -, tomadas ao acaso apenas para ilustrar, serviram de inspiração para que eu desenvolvesse esta crônica, em face de outra curiosidade – esta real -, que permeia as nossas relações e sobre a qual passo a refletir.

Pois bem. Não se há de negar que há, sim, pessoas para as quais a opinião dos outros não tem a menor relevância. Quando se trata, por exemplo, de um agente político, via de regra, ao serem acossados por uma acusação, em vez de ficarem agastados, tratam-na com desprezo e se defendem com o mesmo e manjado jargão, que serve de defesa para todas as acusações: “É tudo perseguição política”. Ou, então, tratando-se de uma fala descuidada: “Tiraram-na do contexto”.

Na vida dos simples mortais, entrementes, não é assim que a banda toca. Ninguém se defende de uma acusação grave apenas alegando ser perseguição de um desafeto, conquanto até pode sê-lo em determinadas situações.

Mas, ao lado dos mortais, para os quais qualquer imputação importa, há os que, narcísicos, são indiferentes a qualquer fala contra si. Esses, não raro, gostam de dizer que são imunes à opinião alheia, daí que, ao tomarem ciência de que alguém, em algum lugar, tenha falado sobre elas, mesmo que seja a imputação de um fato grave, se apressam em dizer, até com certo desdém e teatralmente, que “não estão nem aí” e que o que importa mesmo é que façam menção a elas, ou seja, falem bem ou mal, mas que falem delas, o que, desde a minha compreensão, é apenas uma frase de efeito, pois, rigorosamente, creio que ninguém gosta de ser malfalado, de ser mal-afamado, caluniado ou espezinhado sob qualquer perspectiva – a menos que se trate de uma personalidade doentia, para a qual os valores morais são indiferentes.

De minha parte, já tendo sido – raras vezes, é verdade – vítima de falas desairosas, digo, com ênfase, que não me apraz a máxima, convicto de que só mesmo um narcisista se compraz ou aceita, sem se incomodar, com uma fala irresponsável, apenas pelo prazer de ser comentado, de estar no centro das atenções, sobretudo quando se trata de uma fala irresponsável, sem uma base factual que lhe dê sustentação.

Para mim, não existe essa de ter que estar em evidência, de ser comentado apenas para ser lembrado. Eu, cá do meu canto, prefiro o esquecimento a estar na boca do povo, sendo alvo de comentários malévolos, apenas pelo desejo, injustificável, de ser lembrado.

Prefiro o ostracismo a ser objeto de falação de quem quer que seja, conquanto admita que, na condição de homem público, sobretudo nos dias atuais, com as redes sociais dando abrigo a todo tipo de gente que age sem limite e sem pudor, não ser malfalado é quase uma quimera.

Todavia, ainda que tenha ciência da minha exposição, das maledicências do mundo, do fato de que sempre decidimos a favor ou contra alguma pretensão, que o derrotado quase nunca se conforma e de que, nessa condição, pode, sim, com muita probabilidade, dizer o que lhe apraz e convém, cultivo em mim a expectativa de que respeitem a minha história, respeitem o meu compromisso com a coisa pública, minha preocupação permanente em fazer o que é certo, errando aqui e acertando acolá, mas nunca movido por outro sentimento que não seja o de fazer o correto.

Definitivamente, não creio que, verdadeiramente, uma pessoa possa achar normal que falem dela, bem ou mal, apenas para estar em evidência.

É isso.

HAVERÁ SEMPRE UMA DOSE DE SOFRIMENTO

O epicurismo – filosofia fundada por Epicuro de Samos, no século IV a.C – ensina que o objetivo da vida é a busca do prazer, de maneira racional e equilibrada, na perspectiva de que, eliminando o desejo do que não é razoável, almejando racionalmente o que é possível, tendemos a ter uma vida melhor e mais equilibrada, com menos dor e sofrimento.

Para os epicuristas, de mais a mais, a felicidade está em desfrutar dos prazeres simples da vida, como a amizade, as pequenas atividades do dia a dia e a família, destacando, como exemplos de coisas simples, o desfrute de um café da manhã com a família ou de uma caminhada no parque.

O epicurismo orienta, ademais, que evitemos a dor mental e emocional, como o medo, a ansiedade e o sofrimento.

Em síntese, o melhor dos mundos, para os epicuristas, está em buscar a felicidade nos prazeres simples e duradouros, sem nos deixar dominar por desejos excessivos ou medos.

A vida, no entanto, não é bem assim, infelizmente.

A realidade, importa reafirmar, se contrapõe aos ensinamentos dos epicuristas, pois a vida, por mais que busquemos a felicidade nas coisas simples – e nesse sentido sou um epicurista ranzinza -, o mundo nos reserva, em determinados momentos, uma dose elevada de sofrimento, na medida em que, importa reconhecer, ninguém passa pela vida sem experimentar um dissabor intenso.

A verdade é que todos nós, de rigor, buscamos viver uma vida sem dor e sem sofrimento; essa é a propensão/desejo natural de todo ser humano. Não são poucos, portanto, os que, como eu, vivem a vida buscando a felicidade nas coisas simples, objetivando levar a vida da melhor maneira possível, busca que, aqui e acolá, se depara, inevitavelmente, com mágoas e aflições, resultando disso, como sói ocorrer, a inevitabilidade de dores e sofrimentos, alguns dos quais lancinantes, do tipo insuportável mesmo, levando-nos, muitas vezes, à irracionalidade, nos colocando em rota de colisão com as nossas crenças.

Vivemos, todos, buscando, frenética e incessantemente, a felicidade. E ela, às vezes, como é compreensível, simplesmente não vem. Às vezes, ela até vem. Mas vem em doses. Ela nunca vem por inteiro. Ninguém é feliz o tempo inteiro. Haverá sempre uma dose de sofrimento, a reafirmar o óbvio, ou seja, de que ela, a felicidade, nunca é completa, ainda que a busquemos nas coisas simples, como ensina Epicuro.

O filósofo Mário Cortela, com sabedoria, lembra que quem se diz feliz o tempo inteiro é apenas um tonto, na medida em que é inviável a felicidade em tempo integral.

A verdade é que a vida nos reserva sempre uma dose de sofrimento, como dito acima. Sofrimento que pode ser intenso ou em menor grau. De toda sorte, sofrimento, convindo avaliar, nesse sentido, como nos preparamos para os reveses que a vida nos impõe, para as adversidades que permearão a nossa história, para as quedas, para os açoites, para os tropeços que a vida nos infligirá, mais cedo ou mais tarde.

É claro que cada pessoa tem sua dose de resiliência. Umas são mais; outras, menos resistentes às dores infligidas pela vida. Da minha parte, admito, não sou resistente diante das adversidades, fruto de uma história de vida que me fragilizou, daí que nenhuma adversidade me ocorre sem uma dose mínima de sofrimento, incapaz que sou de controlar o pensamento, que termina por assumir o controle da minha vida.

É isso.

O IMPACTO DAS NOSSAS DECISÕES -E OMISSÕES – NA VIDA DAS PESSOAS

É uma verdade comezinha que não somos sozinhos no mundo.

Haverá, com efeito, sempre alguém em nosso entorno, que poderá, sim, ser impactado, positiva ou negativamente, em face das nossas ações/omissões.

Por isso, e em face disso, todos devemos ter cuidado com as consequências do que fazemos ou deixamos de fazer.

Se, em face das posições/decisões decorrentes das relações interpessoais, algumas pessoas podem ser impactadas, avalie, nessa perspectiva, o poder que tem uma decisão judicial impensada, gestada à luz das idiossincrasias de quem a produz. Imagine, ademais, uma decisão judicial que não é prolatada em face de uma omissão ou por qualquer outro motivo.

Por tudo isso, convém refletir, todos os dias e todas as horas, sobre a relevância de o Poder Judiciário estar à altura das expectativas que a sociedade tem em face das suas decisões, daí a eleição que fiz da produtividade como metas 1, 2 e 3 para o biênio.

É bem de se ver, pois, que o quê o cidadão almeja, quando busca uma solução civilizada para eventual conflito, é que ela não seja contaminada por interesses escusos, e que decorra, ademais, de uma atuação esmerada e expedita do agente encarregado de dizer o direito, pois que, para ele, cidadão, pouco importam os nossos conhecidos problemas estruturais.

Apenas para exemplificar, a propósito da necessidade de que decidamos, tão rapidamente quanto possível, em face do impacto de uma decisão judicial na vida das pessoas, destaco que, em comparação com o ano de 2023, conforme dados amplamente divulgados no sítio do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, houve um aumento expressivo dos nossos julgamentos, dado positivo que também se verificou no que condiz com as baixas processuais, fruto do trabalho incansável dos nossos juízes e servidores, malgrado, forçoso reconhecer, as dificuldades que permeiam a função judicante, aqui e alhures.

Consigno, outrossim, que, no que concerne à evolução anual de julgamentos, também houve progresso no mesmo período, apesar da opção que fizemos de orientar os nossos juízes para julgarem os processos mais antigos, os quais, por óbvio, guardam maior complexidade, exigindo, de consequência, maior tempo de maturação das decisões.

Com essas ações, contando a colaboração decisiva e inexcedível das Coordenadorias do Tribunal de Justiça, e, por óbvio, de todos os magistrados maranhenses e de um quadro de servidores qualificados e abnegados, reafirmamos o nosso compromisso com o incremento da produtividade do Poder Judiciário, que se perfaz, de mais a mais, com o projeto Produtividade Extraordinária e seus eixos – Juiz Extraordinário, Secretaria Extraordinária e Analista Extraordinário -, com o que buscamos responder às expectativas do jurisdicionado maranhense, cumprindo destacar, nesse sentido, o apoio incondicional que temos tido da presidência do Tribunal de Justiça, sob a liderança do Desembargador Froz Sobrinho, comprometido, tanto quanto a Corregedoria, juízes e servidores, numa prestação jurisdicional, tanto quanto possível, célere e eficaz.

É isso.

CONSUMIDORES DE MENTIRA

Impressionante como, com as redes sociais, estamos formando uma geração consumidora – e geradora – de mentiras; mentiras que vão das mais simples – com menos efeitos colaterais, portanto –, às mais graves, com consequências nefastas para a sociedade.

Os propagadores de mentiras se esmeram em divulgá-las nos grupos de whatsapp, onde estão os mais suscetíveis ao seu consumo, os quais, por abrigarem os mais radicais e sectários – de esquerda e de direita –, não estão, por isso mesmo, nem aí para a verdade factual subjacente, daí que replicam as inverdades sem medo de ser felizes, e sem a mais mínima preocupação com os efeitos deletérios de sua propagação.

Impressiona, ademais, como o ser humano – os radicais aos quais me reportei acima -, nos dias presentes, propaga mentiras cada vez com mais esmero. Impressiona, da mesma forma e na mesma medida, a facilidade e o prazer com que as mentiras são consumidas – pelos mesmos radicias – e, depois, disseminadas, como se fora algo natural e como se vivêssemos uma crise moral e comportamental para a qual eu, cá do meu lado, não vejo solução a médio prazo.

Nesse panorama, não me surpreende a habilidade que os criadores/disseminadores de mentiras vão se aperfeiçoando nessa arte, que tende a ser potencializada com a Inteligência Artificial, capazes de levar a equívoco de avaliação da veracidade ou mendacidade da veiculação até mesmo os mais atilados, os mais experimentados como eu.

Exemplo.

Vi, numa rede social, um vídeo de um ex-coach cumprimentando Donald Trump, dando a entender, pela oportunidade da veiculação, que o vídeo tivesse sido feito por ocasião da posse do presidente dos Estados Unidos.

Mesmo com toda experiência, mesmo calejado e ciente do histórico de esquisitices do ex-coach, olhei o vídeo e, em princípio, pensei: poxa, o cara é furão mesmo. Pensei, ademais: todos queriam essa proximidade e o cara, caladinho, como quem não quer nada, furou o cerco e se aproximou do homem mais poderoso do mundo.

Depois de tudo, depois da repercussão do vídeo, todos ficamos sabendo, pela jornalista Malu Gaspar, que foi feito bem antes e que foi veiculado na data da posse de Donald Trump exatamente para confundir a opinião pública, tanto que, questionado sobre a data do vídeo, o ex-coach não respondeu, a reafirmar que o afã era mesmo confundir, levar as pessoas a crerem numa mentira, qual seja, a de que teria tido o privilégio, que poucos tiveram, de se aproximar do homem mais poderoso do mundo, exatamente no dia de sua posse como o 47º presidente da maior nação do mundo.

E, assim, de mentira em mentira, replicadas incontáveis vezes nas redes sociais, levando o incauto a ter uma percepção equivocada da realidade, os mais espertos vão se mantendo em evidência, tirando proveito das mentiras que veiculam, consumidas, sem reserva, por uma horda de desinformados, radicalizados pela paixão política.

É isso.

JURADO N. 2

É verdade comezinha que muitos fatos da vida passam ao largo do nosso controle. Ninguém escolhe, por exemplo, os genitores e o país onde vai nascer. Não temos o direito de escolher a nossa cor, os irmãos e os níveis de inteligência etc., disso resultando que, sem opção de escolha, só nos resta aceitar o que a vida nos impõe.

Não é o que ocorre, entrementes, com os dilemas morais, em razão dos quais somos instados a fazer uma escolha, tendo que suportar as consequências das opções que fazemos.

É sobre essa questão que me proponho a refletir, tendo como pano de fundo o filme Jurado nº 2.

Pois bem. Todos nós, em alguma medida e em algum momento da vida, já nos defrontamos com dilemas morais. Pense, por exemplo, nas incontáveis vezes que estivemos diante de uma situação que nos impunha denunciar ou não denunciar uma situação, mas que, sopesando, nos omitimos.

É assim que os dilemas morais surgem e nos acometem, ou seja, quando estamos diante de uma situação em que somos instados a decidir entre duas situações, sabendo que, ao decidir, de uma maneira ou de outra, vamos produzir uma situação eticamente censurável, como ocorre, por exemplo, quando se está entre torturar, ou não, um facínora, para evitar que realize o seu plano de, por exemplo, tirar a vida de inocentes.

É sobre essa questão que pretendo refletir, e o faço, aqui e agora, instigado pelo filme Jurado nº.2, disponível no streaming (Max e Amazon Prime), escrito e dirigido por Clint Eastwood, cineasta, produtor, e, também, ator famoso pelos seus papéis em filmes de ação, que, aos 94 anos, no seu último trabalho antes da aposentadoria, explora os limites morais e éticos do sistema judicial americano, num thriller /drama instigante, e muito bem avaliado pelo público e pela crítica, que acompanha o drama de Justin Kemp, interpretado por Nicholas Hoult, que está servindo em “jury duty”, o serviço obrigatório dos Estados Unidos que escala os membros do júri de casos criminais.

Justin Kemp, protagonista, é um homem de família que está passando por sérias dificuldades financeiras e acaba sendo confrontando com um enorme dilema moral, ao ser escalado para julgar um de homicídio, tendo vínculos definitivos com o evento, se colocando, em face dos fatos imputados ao réu, na situação de ser a única pessoa capaz de decidir pela sua condenação ou absolvição.

Sobre o filme, mais não posso falar para não dar spoiler, podendo dizer, no entanto, que o dilema moral nele contido leva o espectador a importantes reflexões acerca das armadilhas que a vida coloca em nossas caminhos e para as quais nem sempre temos uma solução pronta e acabada, levando-nos a dilemas existenciais muitas vezes insuperáveis.

São quase duas horas de projeção que levam o telespectador a pensar e repensar a vida, e a angústia de, em determinadas circunstâncias, ter que decidir assim ou assado, sejam quais forem as consequências de sua ação ou omissão, conquanto sujeito ao escrutínio de terceiros.

O filme, em face do dilema moral vivido pelo personagem central é um desafio à sua consciência, mas é, também, um soco no estômago do telespectador, instado, durante toda a projeção, a julgar a sua hesitação entre falar a verdade ou calar.

Confesso que, durante a exibição, fui tomado de uma enorme agonia, de me ver diante do mesmo dilema, sem saber ao certo como me comportaria, como agiria diante de tamanho dilema moral.

A conclusão a que chego, que é o que importa para essas reflexões, é que, diante de um dilema moral, como o vivido na ficção, ninguém sabe mesmo como se comportar, máxime se, em face do dilema, todas as decisões possíveis são moralmente erradas mas que, ainda assim, precisam ser tomadas.

É isso.

A VIDA SIMPLES É BOA

O Carnaval passou, e eu não vi. Ou melhor, tratei-o com rigorosa indiferença.

Da sexta-feira que antecedeu o sábado de Carnaval até o exato momento em que escrevo esta crônica, Quarta-Feira de Cinzas, praticamente não saí de casa.

Com previsível para quem me conhece, mantive minha rotina, vivendo como gosto: desfrutando das coisas simples que a vida oferece, simplicidade que inclui o meu respeito e a minha reverência total à mesmice, que, pasmem!, me apraz, porque nela estão inclusas as coisas que mais me fazem ser quem sou, dentre as quais a convivência com os meus netos, que, como todos sabem, dão uma nova dimensão à minha vida, sobretudo aos que, como eu, se verem na iminência de deixar o proscênio.

Gosto de viver as coisas simples da vida, mas não sou papalvo.

A verdade é que nunca fui sofisticado; nunca fiz nenhum esforço para sê-lo.

Viver o simples me dá enorme prazer. E o simples, para mim, condiz com viver um pouco mais do mesmo, todos os dias. Vida simples, para mim, é não fugir do comum, do habitual, do usual, do trivial.

Se, para muitos, viver o Carnaval e se entregar à folia de Momo é quase um imperativo, para mim, viver um pouco mais do mesmo, é uma imposição à qual me submeto prazerosamente.

Reitero a minha predileção pelo comezinho, pelo básico, pelo corriqueiro.

A convivência diária com o trivial não faz de mim um ser simplório, mas tem o poder de me levar ao encontro de mim mesmo e do mundo no qual fui forjado, onde a maior sofisticação é o compromisso com a paz interior, que só encontro nas coisas mais simples que a vida oferece.

Lembro-me de que, adolescente, testemunhava os colegas excitados com os prazeres do mundo exterior, o que me causava certa inquietação, levando-me a muitas indagações para as quais eu não tinha resposta à época, incapaz de compreender que minha constante ausência dos périplos noturnos já era uma indicação do eremita que acabei me tornando.

E por que nada daquilo me empolgava? Porque, em vez dos prazeres proporcionados pela vida na rua, eu me sentia – como me sinto até os dias atuais – enternecido pelos prazeres da vida intramuros.

Por que a alegria que contagiava a muitos não me tocava?

Porque a minha alegria nunca esteve no mundo exterior, recluso empedernido que sempre fui.

Eu sou assim.

Não gosto de badalação.

Não gosto de muvucas.

Não gosto de música alta.

Tenho pavor de aglomeração.

Não gosto, enfim, de fugir da minha rotina, tendo compreendido, muito cedo, que um dos poucos motivos que me estimulam a sair é o prazer de voltar para casa, tanto que, em minha longeva vida, não houve um dia sequer que eu não desejasse retornar ao recôndito do meu lar.

Na terça-feira, último dia de folia, recebi meus netos no final da tarde, para os quais dediquei parte do meu tempo com brincadeiras. Com um deles, montei uma torre de madeira; ao mais velho, ensinei como jogar Uno sem bagunça; e ao terceiro, o mais novinho, emprestei meu colo, tentando fazê-lo parar de chorar.

E, assim, como tudo na vida passa, a folia de Momo também passou e, para mim, nada representou, como, aliás, nunca representou, registro que faço para que não se argumente que a minha reclusão não passa de quizila própria da velhice.

Como diz a canção popular, a propósito:

Olho a cidade ao redor

E nada me interessa

Eu finjo ter calma

A solidão me apressa”

(Excerto da música Nua, de Ana Carolina)

Ou então:

É isso aí

Como a gente achou que ia ser

A vida tão simples é boa

Quase sempre”

(Excerto da música É Isso Aí, de Ana Carolina e Seu Jorge)

Definitivamente, a vida simples é boa, e a ela dedico parte relevante do meu tempo, com forte e decisivo entusiasmo.

É isso.