O exercício do Poder, ainda que seja apenas um pequeno fragmento, determina, muitas vezes, o nosso destino, o nosso modo de ser, de pensar e de agir.
O exercício do poder seleciona, até, as nossas “amizades”. O exercício do poder nos leva, muitas vezes, a navegar em águas revoltas.
Lembro, nesse sentido, que quando assumi a comarca de Presidente Dutra – minha primeira e mais difícil comarca – , fui obrigado a conviver com pessoas com as quais não nutria a mínima simpatia, para, no mesmo passo, afastar-me de pessoas pelas quais nutria um misto de admiração e respeito.
Continue reading “Reminiscência – I”
Abaixo, o inteiro teor de uma mensagem que mandei a uma sobrinha querida, daquelas que tem todas as qualidades morais que nós desejamos ver em nossos próprios filhos.
A seguir, pois, a mensagem fluida por inteiro, de acordo com os desejos do coração.
“A admiração que todos temos por você é uma admiração do tipo silenciosa. Nós – dizem que é uma característica dos Almeida – agimos com você como agimos com todas as pessoas que amamos: apenas admiramos, apenas gostamos, apenas torcemos pelo seu sucesso e pela sua felicidade. A timidez, muitas vezes cala a nossa voz e os nossos gestos. Mas muitas vezes o melhor mesmo é o silêncio. Para amar e querer bem não precisa gritar, não precisa dizer. Basta amar, basta admirar, basta querer bem.
Mas saiba que você é o alvo preferido de nossa admiração e do nosso respeito, por tudo que você é , pela sua doçura, pela sua inteligência, pela sua formação moral, pela tua meiguice, por tudo enfim. É por isso e por muito mais, que tens o direito adquirido de ser feliz.
Continue reading “Mensagem para Luciana”
MACHADO DE ASSIS, na seção Cartas Fluminenses, no Diário, em 1867, afirmou dentre outras coisas:
“Estou longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado”.
Ao me contrapor a essa e a outras posições de Machado de Assis – claro que me refiro às coisas triviais -, cada vez que me atenho à leitura de sua obra e de sua biografia, mais me dou conta de que para gostar de alguém e admirar nós não precisamos concordar com os seus pontos-de vista, com a sua maneira de ser. Basta gostar, basta admirar, basta ver o que ele tem de bom. É assim a vida. É assim que devem ser estabelecidas as relações. É assim que penso. É assim que sou. É assim que estabeleço as minhas relações pessoais e familiares.
Da minha infância, diferente de Machado de Assis, por exemplo, não há um só dia que não me recorde; o meu passado habita, turba, esbulha, inclemente, o meu presente.
Não consigo, ainda que tente, me desvincular do passado, mas também nunca deixo de pensar no futuro.
Entre um e outro – passado e futuro – está o meu presente, que procuro viver intensamente, na medida do que compreendo o que seja essa intensidade.
Viver intensamente o presente, para mim, é, por exemplo, depois de uma semana exaustiva de trabalho, aproveitar o final de semana para atualizar-me na internet, para ler um bom livro, iniciar ou concluir uma sentença, assistir – em casa ou no cinema – a um bom filme, lavar meu carro, conviver com o minha família, externar aos meus filhos – com gestos, já que sou tímido nas palavras – o quanto os amo e o quanto são importantes para mim.
Diferente de Machado de Assis, vivo intensamente o passado, o presente e o futuro. Ou estou enganado? Isso não seria possível? Qualquer um que pense assim enlouqueceria? Mas quem disse que sou normal?
A historia registra que em 1831, quando foi obrigado a abdicar da Coroa brasileira, D. Pedro I, antes de embarcar no Warspite, navio inglês que o acolheu, recebeu a visita de um ex-ministro, Francisco Vilela, marquês de Paranaguá, que lhe pedia socorro, em face de sua situação financeira precária.
D. Pedro I, com aspereza, disse ao ex-ministro que não podia dele cuidar, que nada podia fazer, porque já estava ajudando muita gente.
Diante dessa inesperada manifestação de D.Pedro, o marquês disse, então, que seria obrigado a voltar a Portugal, onde teria direito a uma pequena aposentadoria, no que foi, mais uma vez, rechaçado por D. Pedro I.
Continue reading “D. Pedro I e o Marquês de Paranaguá”
Passei os dias de carnaval, como faça há vários anos, em Cururupu. Aproveitei as folias de momo para ler e relaxar – e refletir, ademais.
O mais significativo, no entanto, não foi ler, relaxar e refletir. O mais importante mesmo foi ter desfrutado, durante sete dias – estou de férias, lembram? – da companhia de minha família, de parentes e amigos.
Estar com a minha família é meu maior prazer. Nada, mas nada mesmo, se compara ao convívio familiar. Viver – e conviver – em família é um bálsamo, uma dádiva, um prazer imensurável.
Continue reading “A falta que o estado faz”
Tenho dito, iterativamente, que nós, autoridades, não podemos, nunca, sob qualquer pretexto, nos nivelar aos meliantes. Os meliantes, por óbvias razões, não têm compromisso com a lei, com a ordem pública, com a moral, com a ética, com os bons costumes. Nós, diferente deles, assumimos o compromisso de fazer valer a lei.
Nós, magistrados – sobretudo – temos compromisso com o garantismo penal.Nessa linha de argumentação, devo dizer que extrapola os limites do aceitável o magistrado que, ad exempli, trata o acusado com arrogância, que o intimida na sala de audiências, que o trata com descortesia, que arranca a fórceps uma confissão, que o trata como se marginal fosse – ainda que o seja, ainda que o fosse.
Continue reading “As autoridades não podem agir como agem os marginais”
Vocês ainda se recordam da saia justa que eu colocava os acusados – e os seus advogados – com a indagação acerca do tratamento recebido por eles em sede administrativa.
Vocês ainda recordam que o meu objetivo era rechaçar a tentativa dos acusados de, em sede judicial, desvalorizar a confissão havida em sede extrajudicial, sabido que ela, de rigor, pode ser buscada para compor o quadro probatório, dependendo, claro, das provas produzidas em juízo, sob o pálio do contraditório e da ampla defesa.
Pois bem. Depois que alguns advogados perceberam as razões que motivavam as minhas indagações acerca do interrogatório extrajudicial, passaram a orientar os acusados a, de logo, no primeiro momento do interrogatório, dizerem que foram torturados e que, por isso, confessaram o crime na sede periférica da persecução.
Continue reading “As mentiras que eles contam – III”
Todos assistimos, estarrecidos, a luta que se trava quando se aproxima – ou mesmo antes – a sucessão nos três Poderes. A luta levada a efeito é renhida e não dispensa expedientes questionáveis, escusos, abomináveis. Pelo Poder (stricto sensu) e em face do poder (lato sensu), mesmo os que posam de vestal saem do prumo – se excedem, não raro.
A história está prenhe de fatos que corroboram as afirmações supra. Não preciso, pois, citá-los. Muitos são os que descem ao chão, fazem qualquer acordo, negociam a honra, em nome do poder . Isso é fato.
Estou a cavaleiro na análise dessa questão, porque nunca fui de lutar pelo poder a qualquer custo, sob quaisquer condições, encilhando qualquer tipo de arma.
Continue reading “Apenas um retrato na parede”