O fascínio da leitura

Não existe nenhum escritor pelo qual eu tenha me apaixonado como leitor. Não tenho, portanto, nenhuma preferência que me leve cegamente a ler essa ou aquela obra. Eu simplesmente leio de tudo um pouco. Ocorre às vezes de um autor que me tenha impressionado em um romance não ser capaz de prender a minha atenção em outros, acontecendo o mesmo em sentido oposto. Mas isso não significa nenhuma contradição ou falta de convicção, pois, gostar ou não gostar é uma decorrência natural da nossa liberdade de discernimento e de escolha.

Não é, pois, definitivamente, o autor que me seduz. O que me seduz e fascina numa obra literária é a construção do personagem, a fluidez narrativa e a armação da trama, que seja capaz de envolver, de nos fazer esquecer os problemas da vida, para viver os do personagem.

Essas reflexões decorreram da opinião de Michel Houellebecq, segundo o qual amamos um livro porque amamos o seu autor. Penso que o autor, pessoa física, é o que menos importa. Livros a gente os lê e desenvolve o prazer da leitura à proporção que nos identificamos com algum personagem ou com a essência da trama, além, claro, da fluidez da narrativa, pouco importando quem seja efetivamente o seu autor, isto é, independentemente do amor ou do ódio que tenhamos pelo autor da obra.

Com Germinal, por exemplo, uma das passagens mais férteis e reflexivas da obra condiz com as descrição do espírito de companheirismo e de solidariedade dos trabalhadores espoliados nas minas de carvão, sendo de relevo destacar o momento da narrativa que nos dá conta da união deles para tentar salvar a vida dos companheiros soterrados, apesar de todas as intempéries, da fome que sentiam, do cansaço que os fazia delirar e da exploração que os tinha vitimado durante tantos anos. Esse é, sim, para mim, o momento mais sublime, mais marcante da obra de Zola, que, sei, teve outra conotação como essência. Para amar essa obra prima, pouco importa saber quais as posições políticas do seu autor, por exemplo, nem se ele merece ou não ser amado por quem vier a ler a sua obra.

A seguir, à guisa de ilustração, excertos da monumental obra, na parte que importa  para reflexão.“… Mas o salvamento dos mineiros soterrados apaixonava ainda mais. Négrel estava encarregado de tentar um supremo esforço, e braços era o que não faltava, todos os mineiros vinham oferecer-se, num impulso de fraternidade. Esqueciam a greve, não se preocupavam com o pagamento, podiam não lhes dar nada, só queriam enfrentar o perigo e tentar salvar os companheiros que estavam morrendo…”“… Muitos, doentes de horror após o acidente, agitados por espasmos nervosos, inundados de suores frios, perseguidos por pesadelos, levantavam-se apesar de tudo, mostravam-se os mais decididos a baterem-se contra a terra, como se tivessem uma desforra a tirar…”. (Emile Zola, Germinal)

Do romance Uma Certa Paz, de Amós Os, ficou em mim, para reflexão, a busca quase esquizofrênica de solidão, de isolamento e de rompimento com o status quo do personagem Ionatan,  numa identificação quase umbilical, como se compartilhássemos as mesmas idiossincrasias, os mesmos problemas,  em face de me sentir instado a, depois de ter chegado ao ápice da minha carreira e de não ter nenhuma vaidade com a minha biografia, a mudar de direção, inclusive com uma aposentadoria precoce.

A seguir, fragmentos do romance, a propósito:“…Era preciso chegar a um ambiente diferente em tudo, talvez a uma cidade grande de verdade, que lhe fosse estranha, que tivesse um rio com pontes, que tivesse torres, túneis, chafarizes esculpidos como monstros de pedras a esguichar, uns sobre os outros, jatos d’água, e essa água todas as noites iluminada das profundezas por luzes elétricas, e às vezes lá estaria uma mulher desconhecida e sozinha, o rosto voltado pata a luz da água, de costas… O tempo todo, em toda a minha vida, eu abro mão e abro mão e já quando eu era pequeno me ensinaram que a primeira coisa é abrir mão, e na turma abrir mão, e nas brincadeiras abrir mão,  e ter consideração, e dar um passo ao encontro de, e no Exercito e no trabalho e na minha casa e no campo de esportes ser sempre generoso, ser legal e generoso e não criar caso e não perturbar e não insistir mas sim prestar atenção, levar em consideração dar ao próximo dar ao coletivo dar ajuda se atrelar ao objetivo sem ser mesquinho sem contabilizar e o que me resultou de tudo isso resultou que dizem de mim Ionatan é bem legal um rapaz sério com quem se pode falar pode procurá-lo você vai se arranjar como ele ele sabe das coisas um rapaz dedicado um homem simpático mas agora chega. Basta. Acabaram-se as concessões. A partir de agora começa uma nova história…” ( Um Certa Paz, Amós Oz)

Basta refletir sobre as duas situações destacadas nos dois romances para que se avalie como o ser humano, o mesmo homem, o mesmo filho de Deus, diante de circunstâncias similares, pode adotar posições diametralmente opostas, a desnudar as nossas contradições. Enquanto os personagens de Germinal entregam a vida para salvar os amigos soterrados, pouco se importando com os seus problemas pessoais,  o solitário e sombrio Ionatan de Uma Certa Paz chega a um momento da vida em que simplesmente dá um basta à zona de conforto e às regras de convivência que até então lhes tinham sido impostas, repudiando tudo que lhe foi ministrado, inclusive o sentimento de solidariedade.

O leitor pode, sim, diante das duas obras, escritas em épocas em tudo diferentes, com personalidades centrais de perfis tão díspares, se identificar com uma ou com outra, mas, ainda que não o faça, certamente poderá fazer boas ponderações sobre aquele que, dentre todos os animais da terra, é o mais complexo e surpreendente, o homem. Daí o fascínio da literatura.

Todavia, para o bem e para o mal, difícil é não se sentir um pouco personagem de cada um desses romances, sempre à luz das suas perspectivas de vida. Eu, curiosamente, para reafirmar as minhas conhecidas imperfeições, tanto me identifico com o sentimento solidário dos personagens de Zola, quanto com inquietação do personagem de Amós Oz, pois, em determinados momentos, penso, sim, em romper com o status quo, e iniciar uma nova jornada, mas sou contido pela sensatez e pela condição de sexagenário, que já não me permite iniciar uma aventura, ao mesmo tempo em que deixo fluir o sentimento de solidariedade que viceja em mim, sem que vislumbre nisso nenhuma contradição inconciliável.

Como se vê, a literatura que diverte é a mesma que faz refletir sobre a vida.  Por isso, e muito mais, é que ela é fascinante. Contudo, reafirmo, tem que ser literatura reflexiva, não a mecânica, automática, sem alma, oportunista, escapista, que visa ao lucro, que exista apenas em face de uma volúpia arrecadadora, dramas construídos em laboratórios e não urdidos na mente reflexiva e criadora do homem.

Eu, cá do meu lado, com as minhas “otarices”

Em face de tudo o que tem sido noticiado sobre o aparelhamento do estado e desvio de verbas públicas, essa crônica é mais que oportuna. Não pretendo com ela, no entanto, nada mais que refletir, à minha maneira, sem a pretensão descabida de assumir o papel de paladino da moralidade, o que não sou, tendo em vista que, como qualquer homem público, devo me equivocar, de vez em quando, nas minhas escolhas morais.

Dito isto, menciono, agora, para ilustrar essas reflexões, dois exemplos – um da vida real e outro, da ficção – que bem demonstram a visão de mundo das pessoas, a partir dos valores morais de cada um.

Primeiro, da vida real. Escutava eu um programa policial, quando o repórter indagou ao meliante se ele não tinha escrúpulos em roubar uma aposentada, que já percebia tão pouco, que já dera a sua contribuição à sociedade, e que, por viver de uma pequena aposentadoria, decerto sobrevivia com muita dificuldade. O meliante, vaidoso, respondeu indagando ao repórter, mais ou menos nesses termos: “E você pensa que a minha vida é moleza. Assaltar não é fácil, meu amigo. Se a vida da vítima é difícil, as minhas dificuldades não são menores”.

Agora, o exemplo da ficção, por mim já referida em outra oportunidade. O meliante Lambreta, na crônica de Rubem Fonseca, intitulada Feliz Ano Novo, era, como o meliante antes referido, além de arrogante, um cara vaidoso; e sua vaidade decorria das suas ações criminosas, tanto que um dos seus pares, em determinado passagem da extraordinária crônica, lhe faz a seguinte menção: “O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano. Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha. É vaidoso, mas merece. Já trabalhou em S. Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, para não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos”.

Aqui mesmo neste mesmo espaço, já refleti em outras ocasiões sobre a vaidade malfazeja, aquela que é capaz de cegar, de só permitir que o homem veja a sua própria imagem refletida, o que o faz pensar que o seu umbigo é o centro do universo, como é o caso dos personagens mencionados à guisa de exemplo.

Aqui pretendo refletir, mais uma vez, com mais ênfase, sobre a vaidade, nas suas duas vertentes, a forma como se apresenta aos meus olhos: a benfazeja, ou seja, aquela que, de rigor, todos temos, e que é até certo ponto necessária, já que todas as pessoas gostam de ser reconhecidas, elogiadas, respeitadas; e a dita malfazeja, aquela que leva os homens a fazerem loucuras, a perderem a noção do ridículo, a se comportarem como se as relações pessoais exigissem uma grife para fazer sentido, que têm sede de poder e de dinheiro, pouco se importando com a sujeira que deixam pelo caminho e os reflexos de suas condutas junto às próprias famílias, como temos visto no caso do “petrolão” e, antes, do “mensalão”.

Enquanto a vaidade benfazeja nos impõe a obrigação de fazer sempre o melhor, para corresponder às expectativas do semelhante e às nossas próprias expectativas, a malfazeja, de seu lado, é cruel, daninha, esquizofrênica, perversa, corrosiva, destruidora, danosa, esnobe, ridícula, digna de reproche, podendo, em face de todos esses predicados, levar à perda do sentido do que seja imoral ou inescrupuloso.

A reafirmar as nossas eternas contradições, a exigir de todos uma intensa reflexão, todos nós testemunhamos, nos dias presentes, com a dimensão que o mais pessimista não seria capaz de imaginar, a sedimentação, a carnavalização, a proliferação, em escala industrial, do malfeito, como se fosse uma regra.

O grave é que, para o meu, para o nosso desalento, há os que se orgulham, que se ufanam, sem disfarce, do mal que fazem às pessoas, quando, por exemplo, subtraem o dinheiro público. Esses, apesar do mal que fazem a todos nós, por vaidade (malfazeja, como mencionei acima), pelo apego danoso ao dinheiro, ainda se sentem no direito de esnobar, de promover festas grandiosas à custa do meu, do nosso dinheiro, como se fosse algo absolutamente natural.

Mas como cada um é cada um, cada um se orgulha ou se envaidece de acordo com os seus valores morais. Uns preferem se manter nos estreitos limites da ética, da honradez e da decência; outros, sem escrúpulos, se vendem por pouco, fazem qualquer negócio, se orgulham de, num mundo de otários, se destacarem por não sê-lo.

Eu, cá com os meus botões, vou levando a vida com as minhas “otarices”, na certeza de ter optado, diante de um leque de escolhas morais, pelas mais condizentes com a minha condição de cidadão, magistrado e pai de família, conquanto admita, com humildade, que possa, sim, em algum momento da minha vida e com considerável grau de certeza, não ter feito a melhor escolha.

Simplificar para desqualificar

Os iconoclastas (destruidores de imagens) costumam simplificar, ou seja,, sintetizar, num conceito menor, o que pensam dos que pretendem destruir a imagem, para, a partir de um rótulo, defini-los e marcá-los com cores vivas e chamativas, para que todos saibam, já a distância, de quem se trata, segundo a sua torpe visão..

Dois exemplos – um de ontem, e o outro, de hoje.

Mário de Andrade, cujos 70 anos de morte foram recentemente lembrados, e cuja construção literária todos reconhecem, tem sido muito mais lembrado pela sua não assumida condição de homossexual (?) do que em face de sua monumental obra.

Todos querem saber. É uma curiosidade esquizofrênica. Afinal: era ou não era homossexual o autor de Macunaíma? Teria sido para não desvendar esse mistério, que tanta curiosidade desperta, que, por tantos anos, os seus descendentes proibiram que a sua biografia fosse lançada?

Finalmente, a biografia de Mário de Andrade vai sair. E, para satisfação dos curiosos, o biógrafo Jason Tércio, autor de Órfão da Tempestade, biografia de José Carlos de Oliveira, vai desvendar o mistério: seria ele, segundo dados antecipados da biografia em comento, bissexual. Nessa revelação vem embutida a seguinte, pergunta: Qual a importância dessa informação para a literatura brasileira? Decerto que ninguém sabe responder, mas os curiosos, ou iconoclastas, finalmente saciarão a sede.

Luis Felipe Scolari, alcunhado Felipão, é um técnico vitorioso. Campeão do mundo pelo Brasil e com trabalho destacado pela sua qualidade, por muitos analistas mundo a fora. Todavia, é lembrado, sempre, como o técnico que levou o Brasil à sua segunda maior humilhação em Copas do Mundo.

 Pronto! Esse está ferrado, marcado como gado, para o resto da vida. Desse estigma, dessa mácula nunca mais se livrará. Faça o que fizer, será sempre lembrado como o técnico protagonista dos 7 x 1 para a Alemanha.

Por instinto de preservação, falo de mim agora, sem, no entanto, esquecer a lição de Padre Antonio Vieira, segundo o qual melhor que luzir em todo o tempo, é luzir somente a tempo, pois, assim, se enganam os olhos da inveja, assim se concilia nos ânimos a estimação.

Durante muitos anos, quando as pessoas queriam me desqualificar, simplificavam a minha história com uma única e mágica palavra: arrogante. A ideia era que, a partir desse rótulo, as portas não se abrissem para mim:

Simples assim. Tudo o mais que eu fizesse seria debalde em face da minha condição de arrogante, adjetivo que, atualmente, parece ter esmaecido, mas que, aqui e acolá, ainda é lembrado, quando pretendem me desmerecer.

Nos dias presentes, quando querem simplificar a minha ação enquanto magistrado criminal, me rotulam (alguns, claro) de garantista, no seu sentido mais perverso e deturpado, ou seja, aquele que, em nome da lei, passa a mão na cabeça de meliantes.

Entrementes, devo lembrar aos que fazem uso da etiqueta por maldade, que já não me incomodo com os rótulos, motivo pelo qual não tergiversarei quando tiver que decidir para reparar uma arbitrariedade.

Definitivamente, me recuso a ser um juiz positivista, segundo o qual lei é lei, e ao juiz só resta cumpri-la cegamente. Nesse sentido, serei sempre um intransigente defensor do Estado Democrático de Direito, ainda que, por pensar e agir assim, tenha que, aqui e acolá, decidir de forma contramajoritária.

Garantismo, para mim, é algo muito caro, conquanto reconheça que, no meu caso, o rótulo objetiva mesmo – pelo menos por parte de alguns críticos mais radicais, pois há quem o faça respeitosamente por compreender as minhas posições – é a simplificação malsã, numa palavra, num epíteto, da minha vocação para respeitar as leis do meu país, ainda que o seja para favorecer a um recalcitrante meliante.

A minha história, definitivamente, se contrapõe a essa simplificação, pois, durante a minha vida inteira, nunca tergiversei no combate à criminalidade, ainda que o tenha feito somente em relação ao pequeno delinquente, sabido que, no Brasil, salvo algumas exceções, a ação das agências de controle sempre esteve a serviço do criminoso egresso das classes menos favorecidas.

Portanto, que fique claro que, pelo menos no meu caso, garantismo não se confunde com impunidade, tibieza, leniência ou falta de compromisso, pois os que trabalham comigo sabem que costumo agir com sentimento voltado para bem servir a coletividade, e que, ademais, só mesmo  um flagrante e inequívoco desrespeito ao Estado Democrático de Direito me conduz à concessão de liberdade a um meliante violento e/ou recalcitrante.

É sempre bom reiterar que o meu compromisso com a Justiça é permanente, ainda que, por desídia de alguns, seja compelido, na condição de juiz de segundo grau,  a reparar uma injustiça ou um erro judiciário.

O bom juiz, o juiz rigoroso não é o justiceiro, o que pensa que, com sua ação isolada, pode mudar o mundo. Juiz bom é aquele que, sem temer pela incompreensão, é capaz de reparar uma injustiça, ainda que o faça contramajoritariamente ou em desacordo com o que quer e pensa a maioria.

A propósito, é sempre oportuno lembrar as reflexivas palavras de Aury Lopes Junior, segundo o qual o juiz imparcial e que verdadeiramente desempenha sua função (de garantidor), deve estar acima de qualquer pressão ou manipulação política. Não que com isso, prossegue o jovem jurista, estejamos querendo o impossível – um juiz neutro – senão um juiz independente, alguém que realmente possua condições de formar a sua livre convicção, pois, afinal, o juiz, num Estado Democrático de Direito, tem uma nova posição e a legitimidade de sua ação não é política, mas constitucional, e seu fundamento é unicamente a intangibilidade dos direitos fundamentais.

Digo mais, na esteira do mesmo doutrinador. A função do juiz não é política, mas constitucional, consubstanciada na função de proteção dos direitos fundamentais, ainda que para isso tenha de adotar, como consignei acima, uma posição contraria à opinião da maioria, afinal, como lembra Luig Ferrajoli, o objetivo justificador do processo penal é a garantia das liberdades do cidadão, razão pela qual, digo eu,  nenhum magistrado, num Estado Democrático de Direito,  pode ficar inerte diante de violações ou ameaças de lesão aos direitos fundamentais, pouco importando quem seja a vítima da violação, se um réu primário ou recalcitrante..

Cumpre registrar, finalmente, forte no escólio de Gilmar Mendes, que a lei cumpre uma função de proteção contra o arbítrio, ao vincular os órgãos do Estado. Importa reafirmar, ademais, que a principal finalidade dos direitos fundamentais (Ana Paula de Barcellos), é conferir aos indivíduos uma posição jurídica de direito subjetivo, a limitar a liberdade de ação dos órgãos do Estado, pois, afinal, como lembra a mesma professora Ana Paula de Barcellos, a Constituição tem a forma de um repositório geral de esperança, cujos direitos fundamentais nela inseridos, digo eu, devem assegurar a esfera de liberdade individual contra as interferências ilegítimas e/ou arbitrárias das agências de controle.

É isso.           ‘

O que nos enlouquecem são as nossas certezas

Muitas vezes, pensamos de nós e concluímos sobre nós o que nem sempre é a percepção dos outros. Ao constar essa realidade, nos flagramos, de regra, decepcionados e tristes – quando não deprimidos. Assim como qualquer outra pessoa, também, às vezes, faço de mim o juízo que não corresponde à avaliação dos meus congêneres.

Nesse sentido, lembro-me de que, certa feita, estando com a minha família em viagem de férias, procurei, como sempre, servir e agradar, de todas as formas, aos meus filhos e à minha mulher, o que é próprio da minha personalidade.

Não sei e não gosto de infelicitar as pessoas; se eu não tiver condições de estabelecer uma relação prazerosa com os que estão em volta de mim, seja no trabalho, seja na minha família, eu não fico bem comigo mesmo.

Conforme eu dizia, nessa viagem de férias procurei fazer de tudo que estivesse ao meu alcance para que todos ficassem numa boa, para que as férias fossem prazerosas e, se possível, inesquecíveis, por tudo o que de bom fosse desfrutado por nós.

Determinado dia, depois de muitas concessões a todos e bem poucas a mim, sem nada reclamar, para não ser desagradável, mesmo em face do brusco rompimento da minha rotina, resolvi bater o martelo e decidi que naquele dia eu voltaria para o hotel a fim de almoçar no meu horário (meio-dia) e para tirar uma sesta, já que estava com saudade da minha rotina. Isso foi o bastante para que me elegessem, em votação aberta e por unanimidade, o, digamos, menos simpático da viagem, – sem nenhuma concessão, sem apelo.

O mais grave é que eu, na minha (falsa) percepção – e aqui está o ponto principal dessas reflexões – imaginava exatamente o contrário, a reafirmar, mais uma vez, como diz o título desse artigo, que somos enlouquecidos pelas nossas certezas, daí o perigo de uma falsa percepção de nós mesmos, como é comum ocorrer, sobretudo com os que têm a vaidade desmedida e que consideram seu umbigo como o centro do universo.

Não preciso dizer da minha inquietação, da minha frustração, do meu desapontamento com a minha “eleição”, muito embora, depois, tudo tenha se transformado em uma grande gozação, o que, afinal, era mesmo o que pretendiam os meus filhos e minha mulher, competentes e fiéis administradores das minhas manias.

Mas, ainda assim, fiquei com uma pontinha decepção, porque vi nessa manifestação a constatação de um fato, que eu, com as minhas equivocadas certezas, não tinha conseguido perceber. Ainda tentei argumentar em minha defesa, mas não fui nem um pouco convincente, pois, quanto mais eu tentava argumentar, mais eles reafirmavam que eu tinha sido pouco simpático, cheio de manias, cheio de rotinas, e que as rotinas, em viagem,  eram para ser quebradas, o que, de rigor, estou de acordo, tanto que só pedi um dia de concessão, o que me foi terminantemente negado.

Mas o que importa mesmo é a constatação de que os loucos iguais a mim vivem os seus delírios, creem nos seus sonhos, se equivocam nas suas certezas e sofrem por isso.

Quanto ao incidente aqui relatado, posso afirmar com alegria que no final tudo se transformou em uma grande festa, daquelas que ocorrem, naturalmente, numa família unida e que se ama verdadeiramente

A certeza que eu tinha de ter me doado ao máximo aos meus filhos para lhes proporcionar as férias dos sonhos, quase me “enlouquece”, ao constatar que, diferente do que eu pensava, eu apenas delirava.

Mas o que importa mesmo é que, ao fim e ao cabo, depois de tudo, vivemos e vivenciamos  momentos inesquecíveis na companhia um do outro. É que a “eleição” foi apenas um detalhe, uma grande gozação, que nos divertiu e nos uniu ainda mais, pois, afinal, o que sobreleva, o que assoma, o que se consolida mesmo, com força voraz e incontrolável, em torno dessas e de outras questões, é o amor que nos une e a necessidade que temos de estar juntos, respeitando sempre a individualidade de cada um, entendendo que se deve ceder, sempre que for necessário, em nome do amor e da união que devem prevalecer nas relações familiares.

Ganância predadora da miséria humana

A ganância é defeito moral que precisa ser desencorajado. A ganância do homem tem sobrepujado os valores mais comezinhos. É por conta dessa ambição desmedida que temos sido vítimas dos que, no poder, não se impõem limites morais.  Agem como agem os meliantes, aproveitando-se das facilidades do cargo para satisfazer as suas ambições matérias, que só seriam compreensíveis se não extrapolassem os limites dos que nos permitem os ganhos lícitos.

O assalto à Petrobras, que está longe de ser um caso isolado, decorre dessa ganância, que é predado da miséria humana.

A ganância pelo poder e pelo dinheiro, nos tem infelicitado, tem infelicitado a sociedade, tem feito mal às nossas instituições, pois tem nos privado, por exemplo, de serviços de saúde e de educação de qualidade,  em detrimento, sobretudo dos mais carentes, daqueles que precisam das ações do estado.

 As pessoas parecem exercer o poder exclusivamente para tirarem proveito dessa situação, sem controle, numa ganância desenfreada, capaz de passar por cima de tudo que for considerado obstáculo.

Nessa volúpia, levam de roldão a própria família,  jogando o seu nome na lama, expondo-a à execração pública.

O grave é que, quando se está usufruindo das facilidades proporcionadas pelo poder, não há um só membro da própria família capaz de chamar a atenção para as consequências desse tipo de conduta. É como se todos apostassem na impunidade,  na inviabilidade de vir a ser descoberta a falcatrua, até que um dia a casa cai.

É preciso, urgentemente, dar um basta nessa ganância desenfreada. O homem não pode viver apenas para ambicionar a matéria. Há outros valores mais relevantes.

No mesmo passo, se não for possível coibir as ações gananciosas, é preciso que, ao lado das instâncias persecutórias, que a própria sociedade, ao invés de abrir as portar, valorizar as conquistas do malfeitor, que seja capaz de puni-lo socialmente, com o que reafirmará a sua virtude cívica.

Pantaleão, personagem central do romance Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vagas Llosa, numa espontânea e realista confissão, admitiu ter traído a esposa por estar próximo da tentação.

Digo que, da mesma forma, estar no poder, lidar com as tentações do cargo, requer muita força moral;força moral que, infelizmente, poucos têm.

Para encerrar, lembro Tolstoi, segundo o qual todos querem mudar o mundo, mas ninguém quer mudar a si mesmo.

Nos momentos difíceis

Nos momentos difíceis da vida, somos obrigados a testar a nossa força, placidez e equilíbrio, para enfrentar as adversidades. Todavia, imagino que poucos conseguem, diante de uma grande adversidade, manter o equilíbrio, a sensatez e o bom senso. Ninguém pode, de rigor, dizer como agiria diante de uma intempérie, pois tudo vai depender do estado emocional, do preparo psicológico, da intensidade do momento adverso.

Para ilustrar essa realidade, vou me reportar ao seguinte fato: Luís XVI, segundo registros históricos, ouviu, com raro sangue-frio, a leitura da sua sentença de morte. Consta que ouviu o veredicto com unção, dignidade, nobreza – e com postura, como se fosse um homem sobrenatural, sem que se saiba onde o rei encontrou forças para se manter equilibrado num momento tão difícil.

Dados históricos dão-nos conta, ademais, que Luiz XVI, dias antes de ser decapitado, ainda apelou para que o deixassem ver a sua família por três dias, sem vigilância, prazo que lhe teria sido negado, como uma espécie de provação, no intuito de testar os seus limites. Segundo o abade de Firmont, o rei, mesmo diante da negativa,  permaneceu calmo, gracioso e até tranquilo.

Para corroborar a placidez do rei, diante de uma situação em tudo adversa, está nos manuais que pouco depois, ao lhe serviram o último jantar de sua vida, como não lhe haviam levado nem faca e nem garfo, ele não conseguiu conter a irritação, pelo que teria dito: “Consideram-me covarde o suficiente para atentar contra a minha própria vida?”. E teria acrescentado, para estupefação dos presentes: “Eu morrerei sem medo. Gostaria que a minha morte fizesse a alegria dos franceses e pudesse afastar as desgraças que prevejo: o povo entregue à anarquia, vítima de todas as facções, crimes se sucedendo, grandes dissensões dilacerando a França”. (Luis XVI, Bernard Vicent)

Não sei quantos de nós, em circunstâncias semelhantes, sobretudo afastados da família, teriam equilíbrio para enfrentar, com tanto garbo e altivez, uma situação tão desalentadora, tão desesperadora. Quanto a mim, de rigor, posso dizer que nunca passei por uma experiência que me exigisse tanto, nem precisei testar, verdadeiramente, a minha capacidade de enfrentar uma grande adversidade, pois tenho a ventura de, quase sempre, estar em paz e com pouquíssimos problemas sérios para suplantar, o que não deixa de ser uma dádiva, razão pela qual só saberei se terei forças para enfrentar uma adversidade séria quando me vir diante dela.

Muitas vezes, pensando sobre o quanto tenho sido bafejado pela sorte, agradeço pelo pouco que tenho, o que para mim é tudo, porque o fato de eu ter um bom emprego, saúde e uma família já é o suficiente. Meu nível de ambição, portanto, esbarra aí, razão pela qual, também sob esse aspecto, não enfrento nenhuma dificuldade capaz de testar a minha paciência, a minha sobriedade, o meu permanente estado de felicidade.

Portanto, sou dos poucos que não têm do que reclamar da vida, já que ela não tem exigido muito de mim. Além disso, sou feliz, e tenho procurado fazer a felicidade dos que estão à minha volta, pois fazer a felicidade dos que me amam é a minha meta mais ambiciosa, é o meu primeiro e único objetivo. Daí por que, podendo fazê-lo – e fazendo -, recebo em contrapartida a dádiva de ser feliz, de viver em estado permanente de felicidade.

Vivendo num mundo tão controvertido e cada vez mais difícil de ser tolerado, de ser feliz, tenho tido essa ventura, talvez porque a minha ambição tem limite, por não ser do tipo insaciável, do tipo que quer mais, sempre mais, sejam quais forem as barreiras que precisem ser superadas.

Problemas? Tenho-os, mas eu os encaro, assimilo-os, absorvo-os como algo indissociável da vida, porque não sou do tipo que infla os problemas para se vitimizar, para tirar proveito da situação.

Poder? Não sei sequer a sua dimensão. Nesse sentido, sou um babaca. Não sei usá-lo em proveito próprio. Não sei exercê-lo plenamente, no sentido dos que dele fazem uso para fins inconfessáveis.  Nesse particular, sou um dileto representante da classe dos otários. O poder que a muitos fascina, para mim só serve para os seus próprios fins, razão pela qual não me vejo diante de nenhum desafio, a testar a minha tolerância.

Dinheiro? Dele não cuido. Não raro, o que coloco em minhas mãos decorrem de mera liberalidade de quem o controla. Enalteço-o apenas no exato limite do que seja suficiente para viver bem. Não sou capaz de qualquer coisa para amealhar além do que consta no meu holerite.

Bens materiais? Quero-os apenas para ter o mínimo de conforto. Não tenho nenhuma volúpia materialista. Não almejo amealhar nenhuma fortuna. Tudo que tenho é, para mim, suficiente, mais que suficiente. Não sou movido pelo quanto mais, melhor. O necessário me satisfaz. Sou um homem sem muita ambição material; tenho-a dentro dos limites da razoabilidade.

Realização profissional? Sim, sou realizado. Não posso querer mais do que tenho. Sou um privilegiado, pois sou pago para fazer o que gosto. E, no exercício do meu mister, tenho procurado servir à sociedade, com a necessária retidão, nos limites da minha competência, sem excessos, com os ímpetos controlados para não abusar do poder.

Todavia, tenho a clareza necessária de que chegará o dia em que terei que enfrentar uma grande adversidade, daquelas que testarão os meus limites, o meu equilíbrio, a minha sensatez, pois que delas nenhum de nós escapará. Nesse dia, espero ter forças para sobrepujá-la, com a necessária altivez, sem me autoflagelar.

Gentileza, um toque de classe

Sempre acreditei no amor, na tolerância, na gentileza e na justiça, mas tenho constatado que a gentileza, por exemplo, aos poucos vai se esvaindo das nossas relações com o semelhante. E para refletir sobre esses temas, decidi buscar inspiração no eminente professor Luis Roberto Barroso, renomado jurista brasileiro, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, que descreve a gentileza como algo imprescindível à vida humana. No discurso que fez na condição de paraninfo de uma turma da  UERJ, intitulado “O Mundo aos Seus Pés”,  ele diz que “ser gentil é como fazer a vida acontecer ao som de uma boa música”, e que, ademais, “a gentileza é um toque de classe em um mundo pragmático, apressado, indiferente”.

Assim como o ministro, também entendo que ser gentil, além de dar um toque de classe nas relações, faz bem à alma e apimenta as relações. Da mesma forma, estou convicto de que a prática do amor e da justiça  alimenta a vida de pessoas, que assim como eu, não a têm como um fardo, mas como algo para ser comemorado, todos os dias, a cada hora, a cada instante, sob quaisquer condições.

A propósito dessas reflexões, pergunta-se: Será que já paramos pra pensar que, em determinadas ocasiões, podendo ser gentil e elegante, optamos, por pressa, pragmatismo, indiferença ou abuso de poder (neste caso por quem tenha o poder para dele abusar), pela indelicadeza, grosseria ou arbitrariedade, e que, em face dessa conduta – reprovável e, algumas vezes, mesquinha -, podemos ter feito a infelicidade de uma pessoa?

Vale refletir sobre isso, porque é muito provável que tenhamos magoado alguém em face de uma indelicadeza, de uma atitude indiferente, de uma falta de reconhecimento, de uma palavra de carinho ou de incentivo, de um ato de gentileza ou de uma atitude de benemerência.

Sob uma singular perspectiva da questão, todos sabem que, nas relações que travamos com o nosso semelhante, precisamos ser sinceros e, muitas vezes, objetivos. Logo, não se pode admitir a dissimulação ou a falta de objetividade, num mundo que tem pressa, e por isso mesmo está mais propenso a jingles do que a sinfonia.

Todavia, conquanto açodado, premido pelo tempo e pelo pragmatismo que permeiam as nossas relações, é preciso ter cuidado com o excesso de sinceridade e de objetividade, porque disso pode resultar uma desnecessária indelicadeza, uma falta de gentileza, uma deselegância, ciente de que sinceridade e objetividade não são, definitivamente, sinônimos de falta de educação, de incivilidade, de arrogância ou prepotência.

Podemos ser sinceros, sim; aliás, devemos ser sinceros sempre, sem fazer uso de rodeios, de dissimulações ou fugas.  Contudo, devemos tomar cuidado para não confundir sinceridade com grosseria, falta de educação, incivilidade, ainda que, circunstancialmente, entendamos ter tido um direito malbaratado ou que tenhamos recebido um tratamento descortês, sobretudo quando temos uma posição de destaque na sociedade, porque, nesse caso, a grosseria e a falta de educação chegam ao paroxismo, servem de crítica, expõem desnecessariamente até mesmo a instituição a que pertencem os que não são capazes de recolher as armas, de retroceder, de contar até dez.

Não é bom para nenhuma relação, ainda que seja uma relação de consumo, a postura excessiva, mal-educada, grosseira. A invocação do poder, a prática da “carteirada”, sobretudo, é abominável, a merecer o nosso mais veemente repúdio.

Essa história de que “não guardo almoço pra janta”, que “o que  tenho que dizer digo na cara”, que “não sou de levar desaforo para casa”, ou o famigerado e abominável “sabes com quem estás falando”, é própria de pessoas mal-educadas, grosseiras, incivilizadas e despreparadas para o exercício do poder, que em nada contribuem para as relações sociais, que, repito, devem ser estabelecidas à luz da gentileza e da tolerância, conquanto, muitas vezes, sejamos instados a sair da linha, a abandonar o prumo e a tolerância.

Mesmo diante de uma séria desinteligência, mesmo diante de eventual desrespeito a um direito, devemos conter o ímpeto, contar até dez, tentar resolver o desentendimento sob os auspícios da gentileza, da fraternidade  e da educação; e, para os que detém um naco do poder, é de bom alvitre que se abstenham das “carteiras”, que são próprias de pessoas despreparadas para o exercício do poder.

É preciso ter presente que ninguém sai diminuído de um desentendimento por ser gentil, por responder a uma agressão educada e civilizadamente.  Mesmo numa discussão na qual tenhamos sido agredidos desnecessariamente, podemos responder ao desafeto gentil e educadamente, como convém a uma pessoa equilibrada.

Numa desinteligência, todos podem constatar, quem grita mais alto é exatamente quem tem convicção de que está errado, por entender que, agindo assim, sobrepujará os argumentos de quem tem razão e, exatamente por isso, não precisa gritar, bastando apenas argumentar, civilizadamente, como há de se esperar de quem recebeu e assimilou bons ensinamentos.

Pratique a gentileza. A gentileza dá leveza às relações. Não use o poder de mando para desqualificar as pessoas, para ofender, macular, espezinhar; faça-o  para dar forças, estimular, levantar, valorizar. Dê, enfim, um toque de classe em suas relações, e verá que, como sentenciou Voltaire, quando não se busca magoar os corações, todos os corações estão a nosso favor.

Desalento

Aqui mesmo neste mesmo espaço, já registrei que tenho uma rotina quase espartana, e que por mais estranho que isso possa parecer, amo poder vivê-la. Por isso, todos os dias parecem iguais para mim; animadoramente iguais.  Mas sou feliz assim e não tenho nenhuma razão para mudar, principalmente pelo fato de já ter completado 61 anos. Afinal, o que me faz mal não é a rotina, mas a perspectiva de que ela venha a ser quebrada. Nesse sentido,  quando sou instado a fazer algo que possa me tirar o sossego, cuido de inventar uma desculpa, nem sempre razoável, para continuar na mesma, para viver igualmente os meus dias.

Acordo cedo – muito cedo, com o dia clareando ainda -, faço downloads dos principais jornais do Brasil, dos quais sou assinante, elejo as matérias que me interessam,  com destacada preferência para as matérias dos articulistas. É óbvio que, por curiosidade,  dou preferência, ademais, às notícias mais relevantes, aos temas mais picantes, deixando para ler as outras quando, por volta das 7h30, me dirijo ao Tribunal, aproveitando o tempo em que estou preso num engarrafamento. Afinal, sejam quais forem as circunstâncias, não existe nada mais prazeroso do que a leitura que, no meu caso, concorre, pari passu, com um bom filme ou uma boa prosa.

Durante o dia, nas minhas horas de folga, dedico-me especialmente à literatura, indo dos clássicos aos populares, sem nenhum pudor, sem nenhuma discriminação, conquanto, não raro, me decepcione com a leitura de algum best seller, como ocorreu agora mesmo com dois dos livros mais vendidos no momento (Se eu ficar, de Gayle Forman,  e a Culpa é das Estrelas, de  John Green), que não gostei, e com o novo livro de Chico Buarque (O irmão alemão), que também não gostei.

Aos sábados, a minha rotina de leitura diária é mais intensa, porque, além dos jornais, faço downloads das principais revistas semanais, cuja leitura elejo como obrigatórias, ainda que, algumas vezes, discorde da linha editorial da revista, por entender, por óbvias razões, que é sempre bom ter acesso a pontos de vista antagônicos.  Ademais, procuro, na medida do possível, assistir a algum filme, de preferência da minha própria cinemateca, onde guardo uma coleção de clássicos, oportunidade em que me deleito contemplando, dentre outras coisas, a beleza e o carisma  de renomadas atrizes: Shofia Loren, Romy Schneider, Brigitte Bardot, Ava Gardner, Ingrid Bergman, Catherine Deneuve, Katharine Hepburn, Lauren Bacall, Grace Kelly, Elizabeth Taylor, Rita Hayworth, Marilyn Monroe, etc,

Sábado, dia 29 de novembro, dia que elaborei este artigo, segui a minha rotina. São 8h53, e acabei de ler os dois principais jornais do país. Agora, depois de baixar as duas principais revistas semanais de informação, vou me dedicar a elas;  aguardando-me, certamente com alguma expectativa, estão os e-readers (kindle, da Amazon, e Lev, da Saraiva), com os quais aprendi a conviver prazerosamente, sem abstrair, de todo, o livro físico.

Não obstante, tenho notado, a cada dia mais intensamente, que sempre que termino de ler os diários e a revistas semanais, fico impregnado de uma curiosa sensação de desalento, como se alguma coisa estivesse fora da ordem, como se eu não estivesse bem, me sentindo desamparado. E apesar de eu ser sempre tão feliz, tão pra cima, tão de bem com a vida, depois da leitura fico com a sensação de estarmos todos órfãos, de não termos o que comemorar, a quem recorrer, sobretudo, em face da  nossa classe dirigente, que parece ter perdido a compostura, os escrúpulos, definitivamente.

Hoje, após a leitura dos jornais – desalentado e, algumas vezes, triste – resolvi  revisitar as matérias, para tentar compreender a razão da minha tristeza, da minha sensação de impotência diante da realidade. E assim, revisitando os jornais, pude entender, sem muitas dificuldades, a razão do meu desalento, pois, o que li, só poderia mesmo me inquietar, realmente. Muito do que li, além de inquietar-me, causou-me até revolta, sobretudo pelo fato de não ser novidade. É como se eu lesse a mesma obra ou assistisse ao mesmo filme.

As notícias veiculadas e que me tornaram macambúzio, algumas das quais faço menção a seguir, dão conta da má conduta de alguns dos nossos públicos brasileiros, o que já se tornou rotineiro. Com efeito, nos diários de hoje, li com desalento notícias sobre o superfaturamento no Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes-RJ); sobre  viagens de subalternos da Petrobras na primeira classe, com valores que variam entre US$ 7mil a US$ 22 mil cada; sobre a prisão do ex-diretor da Assembleia Legislativa do Paraná, sob a suspeita de ter desviado R$ 216 milhões por meio de esquema criminoso; sobre o envolvimento do ministro da Agricultura em esquema de grilagem destinada à reforma agrária; sobre a má gestão da futura ministra da Agricultura frente à Confederação Nacional da Agricultura; sobre o envolvimento de irmão de ministro em esquema criminoso liderado pelo doleiro Alberto Youssef;  sobre o  envolvimento de irmão do ministro Dias Toffoli, com desvio de verbas; sobre desvios na Petrobras e no Estado de Rondônia; e omissão da Casa Civil  da Presidência da República ante as informações de má gestão nesse órgão, etc.

Depois da leitura  dessas e de outras notícias veiculadas, sempre no mesmo diapasão, é impossível não baixar o astral, não se sentir desalentado, sobretudo ante a quase convicção de que está cada vez mais difícil controlar as ações dos brasileiros que têm acesso a res publica, os quais, no exercício do poder, parecem não vislumbrar outra alternativa que não seja se apropriar do que não lhes pertence.

Para subsidiar a reflexão, anoto que o personagem principal de O Complexo de Portnoy, de Philp Hoth, declara em determinado momento que, pela sua criação e formação moral, só lhe restava como alternativa ser um menino honesto, porque, afinal, a sua mãe adotava a honestidade como política de vida.

É de perquirir-se, ao ensejo da inspiração proporcionada  por Phillip Hoth, em sua monumental obra literária: Às pessoas – ressalvadas as exceções –  que exercem poder, diante das facilidades proporcionadas pelo exercício de determinado cargo, não existe outra alternativa que não ser desonestas? Será que não é possível servir ao país, aos Estados e aos Municípios sem se enriquecer, sem se corromper, sem desviar dinheiro público?