Enquanto isso, nas confrarias…

Tem-se tornado muito comum desentendimentos entre os membros de confrarias. Nos dias atuais, em face da transmissão das sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas pelos veículos de comunicação, todos nós temos acesso a esses desentendimentos.

Importa refletir que se essas discordâncias frutificassem apenas no campo das idéias, nada seria mais natural. Todavia, não é o que ocorre, muitas vezes –  infelizmente. O lamentável nisso tudo é termos que admitir, porque a olhos vistos, que a muitas dessas divergências são de cunho pessoal, de ego, de pura vaidade – de arrogância,  de prepotência, muitas vezes.

Nas sessões dos Tribunais e das Casas Legislativas – todos nós sabemos, todos já assistimos, todos já testemunhamos, incontáveis vezes, iterativamente, não há o que contestar – os   desentendimentos  vão, repito, além do campo das idéias. Muitas vezes, importa redizer, são divergências pessoais mesmo, que regam e fazem vicejar inimizades hepáticas, encarniçadas, daquelas que não permitem uma reaproximação, um bom dia, um até logo –  uma convivência pacífica e cordial, enfim.

É necessário que se compreenda que, se essas divergências afloram especificamente nas casas judiciais, se alcançam o paroxismo, se chegam à intensidade de um vulcão em erupção, delas decorrem, inelutavelmente, graves e, muitas vezes, irreparáveis prejuízos aos litigantes e à própria coletividade – dependendo, claro,  do grau de interesse colocado em jogo.

Há, sim, não se pode negar, confrades que divergem por espírito de emulação e são capazes, até, de votar em desacordo com o desafeiçoado, só para não dar a ele o gostinho de estar na balada certa, ainda que terceiros sejam prejudicados em face dessa ou daquela deliberação. Isso se chama falta de espírito público, falta de humildade; insolência, coisa vã, prepotência –  também.

Na política, costuma-se ver, com certa freqüência, o poderoso de plantão desconstruir a obra do adversário. Nas corporações, não é diferente e, sejam elas quais forem, também vicejam as mesmas condutas equivocadas,  em face das idiossincrasias de alguns dos seus membros, despreparados para decidir coletivamente.

Lembro ter lido, num desses sítios que fazem menção às chamadas pérolas jurídicas, que, numa determinada Comarca, com duas varas, vários processos foram chamados à ordem, desnecessariamente, por um magistrado que substituiu o colega que estava em gozo de férias. A notícia dava conta de que os dois magistrados tinham sérias divergências pessoais; divergências, portanto, que iam muito além do campo das idéias, da interpretação dos textos legais. Por isso, sempre que um podia, tentava macular a imagem do outro, razão pela qual, nesse caso específico, o magistrado substituto danou-se a chamar os feitos do magistrado substituído à ordem, sem nenhuma mácula a contaminá-los, só para demonstrar, a quem pudesse interessar que, diferente do que parecia, o magistrado substituído não era tão esmerado assim, não era tão competente como fazia questão de apregoar nas rodas de bate-papos.

Claro que essa atitude se traduziu em perdas para a população – e para o erário – vez que foram refeitos, reproduzidos atos que, de rigor, não precisavam ser refeitos; e, depois, outra vez refeitos, com o retorno do titular. É que, ao retornar das férias, o juiz titular da vara, sem pensar duas vezes, tornou sem efeito todos os despachos esquisitos do colega que o substituiu – sem perder a oportunidade de consignar nos autos o erro do colega, objetivando, da mesma forma, menoscabar, depreciar a sua imagem.

Essas divergências, que encontram terreno fértil nas corporações, beneficiam, no caso específico do Poder Judiciário, os infratores, os malfeitores, os litigantes de má-fé, os que fazem apologia da alicantina, quase sempre em detrimento do interesse público.

Juiz que diverge de promotor por questões menores, promotores que discrepam de juízes em benefício do próprio ego, integrantes de uma Corte de Justiça que se digladiam por questões de somenos, contribuem, sem dúvidas, para o descrédito das instituições e fazem a festa dos calhordas, dos que não querem que as instituições se fortalecem, que funcionem a contento. Para esses, quanto mais as autoridades divergem, quanto mais os egos se inflamem, mais pavimentado fica o caminho para que passem à ilharga das dos órgãos persecutórios.

É sempre assim mesmo: quando os gafanhotos brigam, os corvos fazem o banquete.

Eu não faria tudo outra vez

Já ouvi de muitas pessoas a afirmação que encima estas reflexões. Para mim, quem faz esse tipo de afirmação se imagina acima do bem e do mal. É daquele tipo que acha que só os outros erram. Na concepção (equivocada) desse tipo, só os outros têm mau cheiro, só o vizinho precisa corrigir a sua direção, só o inimigo tem defeitos – e só ele é belo, e a verdade só é companheira dele.

O mundo todo está errado na concepção desse tipo; e só ele, claro, está correto. Só as suas ações são dignas de elogio. O seu espelho só reflete o super-homem que ele pensa que é; um ser superior, a quase perfeição.

Confesso que quando ouço alguém dizer que faria tudo outra vez ou que não se arrepende de nada que fez, fico achando que nasci, cresci – e vivo – num mundo muito, muito diferente e que, dos homens, estou entre os mais falíveis, entre os que mais erram, os que mais tropeçam, pois muitas das minhas ações do passado, muitas coisas que fiz, eu não as faria outra vez – nem sob tortura.

Para mim – cá com os meus botões, cá com as minhas imperfeições, com a minha assumida falibilidade – é uma arrogância, uma prepotência sem par, concluir que, diante da mesma situação – ou se pudesse voltar no tempo – faria tudo exatamente como fizera antes, ainda que tenha tropeçado, que tenha sucumbido, que tenha dado com a cara na parede. Quem pensa e age assim se imagina muito próximo da perfeição, da infalibilidade. Todavia, não passa de um tolo, de um bem acabado imbecil, pois que, tendo a oportunidade de aprender, não o fez, preferindo, ao reverso, continuar trilhando pelo mesmo caminho, navegando nas mesmas águas turvas nas quais soçobrou.

Diferente dos que pensam – e agem – assim, eu já me arrependi, incontáveis vezes, de muitas coisas que fiz e, até, das que deixei de fazer. Confesso, com humildade, que não faria tudo outra vez. Admito, hoje, mais maduro, ter cometido muitos erros que não mais cometeria, em face da experiência que acumulei ao longo dos anos.

Como eu gostaria de poder voltar no tempo! Se a mim me fossem dadas as mesmas oportunidades que tive e que perdi, trilharia noutra direção, noutro rumo, noutro sentido.

Se eu pudesse voltar no tempo, moldaria a minha personalidade para, jamais, sob qualquer pretexto, abrir mão das horas de lazer que me furtei para trabalhar. É preciso saber fazer concessões. E isso eu, aos cinqüenta e nove anos, ainda não aprendi e continuo me imolando com o trabalho.

Se pudesse voltar no tempo para traçar o meu rumo, a minha vereda, o meu norte, o caminho a seguir, jamais confiaria nalgumas pessoas em quem confiei e que – hoje sei que era inevitável – me traíram.

Se eu pudesse voltar no tempo, seria mais tolerante com quem não cumpre horário, visto que sempre desprezei – e ainda desprezo – o profissional que não cumpre horário. Muito da minha fama de arrogante decorre dessa minha intolerância com o profissional que descuida da hora aprazada, que não honra a palavra assumida, que não se esmera no trabalho.

Se pudesse voltar no tempo, seria menos responsável, investiria mais em mim e menos no trabalho. Se eu pudesse fazer retroceder o tempo, eu jamais teria me envolvido emocionalmente com algumas pessoas que, só depois, me dei conta de que não mereciam de mim nada mais que desprezo. Se pudesse voltar no tempo, eu veria um pouco mais o pôr do sol, teria chegado um pouco mais tarde em casa, determinava, com destemor, os rumos do meu coração, não sentiria tanta saudade.

Se eu pudesse voltar no tempo, não passaria as noites insones que passei enfrentando apenas a criminalidade miúda, enquanto que os colarinhos engomados seguiram saqueando os cofres públicos.

Se eu pudesse voltar no tempo, jamais me afastaria de algumas pessoas que amo e das quais me afastei, burramente, por causa do trabalho.

Definitivamente, se eu pudesse voltar no tempo, não faria tudo outra vez.

Não sei escrever

Não sei escrever. Como Rubem Alves, admito que não sei gramática, que erro a acentuação, que me enrolo na colocação de hifem, que não sei usar crase. Mas me esforço. Trabalho e escrevo com o dicionário ao meu lado. Me esforço muito! Tento escrever bem. E como tento!  Não o faço, no entanto.  Não por preguiça, mas por pura incompetência.

Escrevo mal mas escrevo o que penso e o que sinto. Escrevo com alma na ponta dos dedos, com o coração pulsando.

Inspirado em Patativa do Assaré, registro que “é melhor escrever errado a coisa certa do que escrever certo a coisa errada…”

Tenho tentado, neste espaço, puramente reflexivo, escrever a coisa certa, “vender” a minha mensagem, expor as minhas inquietações, compartilhar as minhas angústias, dizer do meu estado quase permanente de felicidade.

O que importa mesmo, para mim, é que me mostro por inteiro.  Sem receio, sem enleio, sem escamoteação.Nesse sentido, não saber escrever é apenas um detalhe.

Aqui exponho as minhas ideias, desnudo a minha alma,  confindencio os meus sonhos, digo dos meus amores, falo das minhas paixões – revelo-me por inteiro, enfim,  afinal eu sou, em grande parte, aquilo que escrevo. O que não revelo é porque não tenho convicção de sê-lo.

A vida não desacelera

Só um tolo se ilude com o poder. O que se vive e vivencia no poder é absolutamente efêmero. Tenho dito isso repetidas vezes,  a reafirmar a minha convicção de que a salvação da alma está fora do poder.

A vida acelera. O tempo passa com uma rapidez de impressionar. E nós vamos juntos – sem opção, pois não se desacelera a vida.

A vida se esvai, o tempo a leva consigo. É preciso, pois, estar preparado para deixar a ribalta para os novos atores.

Num determinado dia, quando a embriaguez do poder passar, somos surpreendidos com a constatação de que só nos restou a ressaca para ser curada; e  concluiremos, estupefatos, o óbvio:é chegada a hora de voltar – por inteiro – para casa, para os braços de quem nos ama verdadeiramente, para o conforto que só um lar proporciona nas situações extremas da vida.

O tempo, inclemente, (quase) tudo destrói; só não destrói a nossa história, o que edifcamos – de bom ou de ruim.

O que valerá mesmo, alfim e ao cabo, é aquilo que construímos, que deixamos para as gerações futuras.

A cada dia, a cada  momento, aqueles que exercem o poder com aptidão, vão construindo a sua história, sedimentando o seu legado para as gerações futuras.

A história que cada um de nós constrói pode ser uma boa ou má história. Tudo depende da maneira como exercemos o poder.

Quero, sim, ser lembrado, no futuro, como um magistrado que ousou tentar romper os paradigmas, que não se intimidou com a arrogância dos que, podendo, preferiram a acomodação, a  deixar como está, para ver como é que fica.

Tenho repetido, reiteradas vezes, que cada um constrói a sua história – e é responsável pelo legado que deixar para as gerações futuras.

Eu faço a minha história. Cada um faz a sua. Umas mais e outras menos relevantes. Mas, ainda assim, história.

Triste daquele que passa pelo poder e não constrói.

Triste do que pensa que o poder é apenas um instrumento de satisfação e realização pessoal.

O poder passa; a nossa história fica. Mesmo os ditadores um dia deixam o poder – ou pela morte ou pelo golpe.

Por tudo que acima expus é que reafirmo que o poder é a ilusão dos tolos.

Tenho dó dos que exercem o poder com os pés na cabeça, cultivando apenas o seu ego e galvanizando inimizades; tende a ficar sozinho, num ostracismo que já matou de tédio muitos daquele que, no poder, imaginavam-se super-homens, com superpoderes.

Gentileza, um toque de classe

Creio no amor, na tolerância, na gentileza  e na justiça. Com essa afirmação, inspirado em Luis Roberto Barroso, pensei em fazer essas reflexões; e assim vou fazê-lo, especialmente acerca da gentileza, que aos poucos está se esvaindo das nossas relações.

Pois bem. Ser educado e gentil faz bem a alma. Da mesma forma, tentar ser justo e amar o semelhante  alimenta a vida. Pelo menos a minha vida; e a vida de quem não tem a vida como um fardo, mas algo para ser comemorado.

Mas eu quero me fixar, especificamente, na questão da gentileza. Nesse sentido, recordo da frase do professor Luis Roberto Barroso, no discurso que fez na condição de paraninfo de uma turma da  UERJ, intitulado “O Mundo aos Seus Pés”,  segundo a qual “ser gentil é como fazer a vida acontecer ao som de uma boa música”. Diz mais: A gentileza é um toque de classe em um mundo pragmático, apressado, indiferente”

Você já parou pra pensar que, em determinadas ocasiões, você, podendo ser gentil, preferiu outra opção, e que, em face dessa opção, você pode ter feito uma pessoa infeliz?

Pois reflita bem porque é muito provável que você tenha magoado alguém em face de uma indelicadeza.

Na vida precisamos ser sinceros. Mas cuidado: do excesso de sinceridade pode resultar uma desnecessária indelicadeza.

Não é bom para relação nenhuma postura excessiva. Essa história de não-guardo-almoço-pra-janta, que quando-tenho-que-dizer-digo-na-cara ou que não-levo-desaforo-pra-casa, já destruiu muitas relações. E continuará destruindo se não formos capazes de conter o ímpeto, de dizer as coisas na medida certa, na hora certa, no lugar apropriado.

Aliás, você se lembra da última fez que fez uma gentileza? E grosserias: você tem ideia de quantas faz  durante o dia, às vezes exatamente em relação às pessoas que ama e que lhe amam?

Ninguém sai diminuído de uma desinteligência por ser gentil. Até numa discussão séria você pode enfrentar o desafeto gentilmente, educadamente, equilibradamente.

É preciso convir que, numa discussão, quem grita mais alto é exatamente quem tem convicção de que está errado; pensa que, gritando, sobrepujará os argumentos de quem tem razão; quem tem razão, exatamente por ter razão, não precisa gritar: basta parlamentar, argumentar, civilizadamente, como se deve esperar de quem recebeu e assimilou bons ensinamentos.

Experimente ser gentil, experimente não usar o poder de mando para desqualificar as pessoas, para ofender, macular, espezinhar; faça-o para dar forças, para estimular, para levantá-las, para que elas se sintam valorizadas.

É uma excelente prática de vida estabelecer uma relação à base de gentileza.

Ha maneiras e maneiras de dizer as coisas; faça-o sem ofender, sem magoar, sem criar obstáculos à relação.

Para não ser indelicado, você deve escolher bem as palavras quando pretender dizer algo a alguém, ainda que esse alguém seja um desafeto.

Com que roupa eu vou

O cronista é insaciável, por isso tudo que vê e sente cuida de traduzir em palavras, com um pitada, quando  necessário, de ficção e humor. Ocorrências que não despertam em muitos qualquer tipo de sentimento ou reação,  no cronista é razão  para reflexões, por isso a sua quase incontrolável inspiração; por isso se diz que o cronista é  o poeta dos acontecimentos do dia-a-dia.

Hoje, pela manhã, por exemplo, ao tempo em que me vestia e percebia a transformação (positiva, pelo menos na minha avaliação) que as vestes produziam em mim, fiquei a pensar na importância das roupas para nossa autoestima, tendo em vista que elas, quando  bem concebidas, fazem milagres. Um terno bem cortado, por exemplo, faz desaparecer(ou, pelo menos, miniminiza) as protuberâncias indesejáveis do corpo (barriga, sobretudo), oferecendo à pessoa uma aparência que lhe conforta, fazendo-a até esquecer, por momentos, da ingratidão da natureza, que, afinal, escolhe, não sei bem por que, uns para serem  belos, e outros, como eu,  para conviverem com as suas dificuldades estéticas.

A propósito do que acabo de expor, indago: você já havia parado  para pensar ( e expor)  sobre  importância da roupa que você – ou qualquer outra pessoa –  usa?

Não!?

Então, vamos continuar refletindo sobre o tema.

Reafirmo, como antecipei acima, que a roupa é especialmente relevante em face da nossa autoestima. Todos gostamos – uns mais, outros menos – de estar bem vestidos, da boa aparência que só as roupas podem proporcionar – ou não, mas essa é outra questão.

Quando nos sentimos bem  com a roupa que usamos, ficamos mais à vontade nos ambientes que frequentamos. É sempre assim – ou quase sempre assim.

É fato que poucos – pelo menos no mundo masculino – se importam com as roupas que os outros vestem. Todavia, ainda assim, bem vestidos, pensamos estar podendo, ainda que poucos se deem conta desse que parece um detalhe irrelevante, ainda que ninguém faça  comentários.

O contrário é rigorosamente verdadeiro. Basta um pequeno desconforto, em face da roupa que usamos, para que, algumas vezes, nos arrependamos até mesmo de ter saído de casa. Ficamos logo de mau humor. Tentamos disfarçar o desconforto. Ou não é assim?

Devo dizer, ademais, que as roupas que usamos são, também, reveladoras  da nossa personalidade.

Observe que quanto maiores forem os atributos físicos da pessoa, menos roupas são usadas, exatamente para chamar a atenção, para expor aquilo que imagina ser objeto de sedução e de desejo.  A contrario sensu, quanto mais fora do padrão forem os  dotes físicos, mais roupas são usadas, exatamente  para dar uma disfarçada, para  que nos sintamos bem, afinal todos queremos estar bem na fita –e, principalmente, com nós mesmos, que o que mais importa.

Claro  que o que acabo de afirmar acima não é uma regra absoluta. Tudo depende de cada um. Cada um, enfim, com suas idiossincrasias. Há os que, naturalmente, gostem de exibir o corpo, mesmo sem atributos que justifiquem  a exposição; no mesmo passo, há os que, reservados e  discretos,  mesmo tendo dotes físicos privilegiados, preferem mantê-los às escondidas, deixando a sua exibição para momentos especiais, guardando sob as vestes os dotes físicos que a natureza lhes deu para sedução na alcova.

Importa consignar, noutro giro,  que a roupa  é de fundamental importância nas  relações sociais que somos obrigados a estabelecer.

Um homem vestido de terno,  é, sim, queiramos ou não, muito diferente, aos olhos dos seus iguais – nem sempre tão iguais assim –  daquele de vestimentas, digamos,  despojadas.

Experimente se dirigir a uma repartição pública – ou privada, pouco importa – com ou  sem terno. Você sentirá logo a diferença de tratamento. Quem já passou pela experiência decerto sabe do que estou falando.

De terno, fique certo  que  alguém logo se  aproximará e indagará, mesmo sem ser instado a fazê-lo:

– O senhor já foi atendido?

Ao reverso, mendigarás atenção –  e ela  faltará, certamente -,  se as  roupas com as quais te apresentares não forem daquelas que deixem transparecer, logo à primeira vista,  que tens alguma importância – na visão do interlocutor, claro.

A importância, portanto, está, aos olhos dos interlocutores, na roupa que usamos e não em face do que somos.

É lamentável,  mas é real.

As pessoas de indumentárias simples, importa reafirmar, quando  buscam atendimento, seja aonde for, tendem a  espernear, gritar, arrancar os cabelos na busca de atenção;atenção que quase sempre tarda, quando não falha.

É assim mesmo, sem tirar nem pôr.

Mas a indumentária que alimenta a discriminação, como disse acima, funciona, também, como um lenitivo para alma, porque, com ela, se esse for o desejo, escondemos as nossas imperfeições físicas, disfarçamos, por exemplo,  a proeminência da  barriga ( o flagelo da elegância) ; disfarce que, algumas vezes, de tão bem engendrados, nos permite ouvir elogios do tipo “o senhor está tão bem”, sem que, na verdade, pelo menos fisicamente, estejamos tão bem assim.

Como qualquer pessoa que sofreu profundas  alterações físicas em face da aceleração da vida, vou, a meu modo, disfarçando, com as minhas roupas, o estrago que a passagem inclemente do tempo produziu  em mim,  convindo anotar que tento lidar, com a necessária altivez,  com essa  realidade,  todavia não me atrevo a expor  aquilo que,  sei,  não deva fazê-lo.

A propósito, já estou pensando no que vestirei amanhã. Espero fazer um boa escolha, na esperança de que os que ousarem pousar os olhos sobre mim imaginem que esteja mesmo podendo.

“Fracasso é não saber partir”

É claro que muitas das minhas reflexões não são palatáveis.

Sei, portanto, que o  que escrevo não é bem recebido por muitos. Só uns poucos, posso dizer, assinariam os meus textos.

Todavia, isso não me preocupa, pois, como dizia Sócrates, uma vida sem exame, ou seja, sem reflexão, sem indagações, sem que se busque novos ideais, novos caminhos, nova direção, não merece ser vivida.

Bem sei que, sobretudo numa corporação, o ideal mesmo é guardar as nossas inquietações no mais profundo recôndito da alma. O ideal mesmo é não falar, não dizer o que pensa – calar, enfim; deixar as coisas fluírem.

Não sei ser assim, contudo. Por isso, vou continuar dizendo o que penso, com a necessária responsabilidade, para não ferir.

Padre Antonio Vieira dizia que melhor que luzir todo tempo, é luzir somente a tempo, pois que, assim agindo, prossegue o santo padre, se enganam os olhos da inveja,  se concilia nos ânimos a estimação.

Deixar de luzir, ao que interpreto, é sair do proscênio, deixar a ribalta, para ser esquecido, para não ser lembrado, para espantar a inveja do semelhante.

Essa questão, inobstante, passa ao largo das minhas preocupações.

Sei que não sou digno da inveja de ninguém, pois custo muito a acreditar que alguém quisesse ser o que sou: um tipo enfadonho, incapaz de despertar qualquer sentimento que não seja da mais absoluta indiferença.

A minha hora de ser esquecido virá inevitavelmente. Enquanto esse dia não vem, não deixo  a ribalta.

Eu vou, sim, continuar pensando e consignando, em artigos, as minhas inquietações, as minhas reflexões, ainda que, assim o fazendo, corra o risco de ser mal interpretado.

Repito, com Amir Klink: na vida o maior fracasso é não partir.

O meu ofício é amar

Ninguém deve  ser penalizado por amar ( ainda que se trate de um amor  proibido) e  por viver intensas emoções ( ainda que não as possa revelar)

A vida sem amor e sem emoção não  merece ser vivida – pelo menos para mim

Amar, de todos as formas, me apraz: o  amor da minha família, dos meus amigos e de quem mais se habilite.

A emoção, mesmo aquela que somos compelidos a conter, mesmo aquela que, aparentemente, dilacera a alma,  para mim –  diferente de você, talvez – , renova as minhas energias, dá-me força e me leva por caminhos que sequer imaginei  trilhar.

Eu sou do tipo que precisa de emoção e amor para viver, ainda que numa ou noutra situação me sinta desprotegido.

Gosto do desafio que algumas emoções proporcionam.

Gosto da paz que só o amor – sobretudo o correspondido –  é capaz de propiciar.

Nos dias presentes,   mesmo já tendo vivido incontáveis emoções,  ainda sou capaz  de, em face de certas experiências,  deixar, sem receio, que as emoções floresçam, sem me preocupar  em  arredá-las, por escrúpulos ou por fraqueza.

Não sou do tipo que tenha medo de sentimentos e sensações fortes.

É por isso que, tenho dito, amar é, também, o meu ofício.

Amo quase tudo que está em volta de mim –  por isso sou  feliz.

Engana-se quem pensa que eu, por ser  um   misantropo assumido, não viva a vida intensamente – amando e me  emocionando.

Eu, como você, também tenho as minhas paixões, os meus desejos…

Só que eu, paradoxalmente,  não sou capaz de qualquer ação para realizar um desejo.

Vou até onde for possível.

Quando tenho que retroceder, o faço, sem acanhamento.

As manifestações de carinho (ainda quando acanhadas),  o abraço despretensioso (mas fraternal) ,  o sorriso compartido  e tantas outras  demonstrações de carinho, afeto e solidariedade, sempre provocam em mim fortes emoções, ainda que, contido,  não as demonstre.

A verdade é que  eu, também contraditoriamente,  nem sempre sou capaz de demonstrar  o que sinto, por razões que  eu e poucos sabemos.

Todavia, o mais importante é que eu sinto – e como sinto!

Muitas e muitas vezes, em silêncio, sinto bater forte no meu peito a emoção que às vezes me  domina, sem que nem mesmo quem esteja  fisicamente próximo de mim se dê conta.

Hoje mesmo, agora mesmo, no instante que escrevo estas reflexões, assistindo ao Jornal Nacional, senti a forte  emoção de ver pessoas sofrendo e chorando a dor da perda,   em face assassinato de  seis jovens,  na baixada fluminense.

É impossível, diante de quadro tão atroz, não se emocionar -e  deixar chorar.

Eu me emocionei e chorei, para, em seguida, cuidar de transformar a emoção sentida  e  a lágrima vertida nessas reflexões.

São palavras despretensiosas e sem harmonia, como se pode constatar.

O mais importante, entrementes, é deixar o coração falar, deixar a emoção fluir.

O coração, quando quer falar, não se preocupa com a forma.

O importante mesmo é o conteúdo, é ser capaz de dizer o que sente.