Pelo prazer de discordar

Na discussão de qualquer tema, durante um julgamento, está-se autorizado a discordar. É assim mesmo que deve ser num colegiado, conquanto existam julgadores para os quais discordar é o mesmo que uma ofensa de ordem pessoal.

Claro que não estou me referindo ao discordar pelo prazer de discordar. Não! Falo de discordar no sentido de trazer luz ao julgamento, de esclarecer algum equívoco, de reparar alguma omissão.

Mas, como gizado acima, existem julgadores para os quais discordar é uma afronta. Esses são, desde meu olhar, os prepotentes, os arrogantes, aqueles cuja vaidade chegou ao extremo.

Basta assistir a qualquer sessão colegiada – aqui e algures – que se verá assomar esse tipo prepotente, do tipo proprietário da verdade, aquele de quem não se pode dissentir, que entende que toda discordância é pessoal.

Esse tipo de julgador, despreparado, a mais não poder, para o mister, entende ser pecado discrepar. Discordância, para ele, é como uma tapa na cara, é uma afronta, um aleivosia, uma agressão à honra.

Tenho pena deles. São uns pobres coitados. São vítimas de suas próprias fraquezas, de suas mal resolvidas questões pessoais.

O mais grave é que quando desejam discordar de um colega, não sabem o que é cortesia, boas maneiras, fidalguia.

Tenho dito – e assim tenho agido – que, para discordar, não se tem que ser necessariamente descortês, deselegante, mal-educado, grosseiro ou incivil.

Eu tenho discordado, dado sugestão, feito reparos em alguns julgamentos, sem ser deselegante, sem ser descortês com o colega. A recíproca, inobstante, não tem sido verdadeira.

Anoto, todavia, que, como consignei no meu discurso de posse, não responderei a nenhuma provocação.

A mínima máxima, enquanto julgador , é a de que o magistrado deve ter equilíbrio, mesmo diante das provocações mais mesquinhas.

O magistrado, disse no meu discurso de posse, não pode agir como age um torcedor fanático.

Do magistrado exige-se, além de retidão, equilíbrio e respeito aos pontos de vista dos seus congêneres.

O magistrado precisa entender que não se deve divergir por razões pessoais.

Quando estou julgando, eu sou o Estado, eu represento o Estado. Eu não represento a mim mesmo.

Durante um julgamento deve-se ter a sobriedade de relevar as questões pessoais, as mágoas que eventualmente se tenha desde ou daquele colega.

Ou você tem a capacidade de abstrair as questões pessoais, ou nunca será um bom, um justo julgador – ainda que se imagine acima do bem e do mal.

Qualquer pessoa do povo que se aventurar a assistir a um julgamento de um colegiado dar-se-á conta de que há quem discorde apenas por espírito de emulação, pelo prazer de discordar, para tentar sobrepujar o colega, pouco lhe importando direito vindicado. O objeto do julgamento, para esses, é quase sempre levado a segundo plano, porque, para eles, para o seu ego, para o desafogo de sua babaquice, o que importa mesmo é discordar, afrontar, enfrentar, liquidar o oponente.

E que é o oponente? Qualquer um que ele suponha ter mais brilho que ele.

Pobre do jurisdicionado que tiver a infelicidade de ser julgado por esse tipo de gente.

Inquietação

É claro que em face da minha formação, dos meus valores culturais e morais, não desejo a morte de ninguém.

Não desejo, da mesma forma, que ninguém seja infeliz.

A infelicidade do ser humano, sobretudo dos que estão mais próximos de mim, também me torna infeliz – às vezes até com maior intensidade.

Por mim, pela minha vontade, todos seriam felizes como eu sou.

Pena que isso não seja possível.

A infelicidade, é de rigor que se reconheça, permeia a vida do ser humano.

E tem que ser assim. Não há como ser diferente.

É por isso que o poeta popular ensina, com sabedoria, que felicidade não existe ; o que existem são momentos felizes.

Sendo – ou estando – feliz, nada me impede de seguir refletindo acerca de temas inquietantes. Daqueles que possam conduzir à equivocada conclusão de que eu não seja esse ser feliz que suponho ser.

Pouco importa a imprenssão que tenham de mim, se a minha condição de ser racional me conduz a esses caminhos.

Assim sendo – e pensando – , vou prosseguir refletindo, ainda que de tais reflexões resultem mais inquietações – moral e intelectual, tanto faz.

Pois bem. Pensando sobre o tempo de permanência do homem na terra, fico me perguntando por que há pessoas que só fazem o mal e são tão longevas, e por que, da mesma forma, pessoas tão boas são retiradas tão precocemente do nosso convívio.

Claro que isso não é uma regra.

Mas é claro que isso intriga.

Claro que há pessoas boníssimas que alcançam grande longevidade.

Mas é claro, também, que não estou obrigado a me guiar pela regra geral ou pela exceção, pois o que mais importa mesmo é dar vazão ao meu pensamento, às minhas conhecidas inquietações.

O que importa mesmo para essas reflexões é questionar por que tanta gente má vive tanto. Nada mais que isso!

Claro que ninguém tem resposta para essa indagação.

Mas ela, às vezes, inquieta, sim.

Claro, também, que se a resposta para essa indagação for buscada nos livros sagrados, na fé de cada um, a explicação é mais do que óbvia.

Mas eu não estou em busca do óbvio. Eu queria mesmo era refletir como se reflete no mundo profano, numa sociedade laica.

Por isso, volto à indagação:

Por que tanta gente ruim vive tanto?

Não seria mais justo se o seu encontro com Deus, para prestar contas do malfeito, fosse abreviado?

Sobre mim

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e-mail: jose.luiz.almeida@globo.com

Sinto necessidade de, muitas vezes, refletir sobre mim; e de dizer sobre mim.

É que as pessoas muitas vezes só conhecem o julgador sob a toga. Muitos pensam, até, em face de algumas decisões, que se trata de uma pessoa destituida de sentimento. É como se, para alguns, fôssemos apenas uma máquina produtora de decisões. Mas não é assim, inobstante.

Com essas notas introdutórias, vou às reflexões, que tratam hoje especificamente da minha incapacidade para o conflito.

Digo logo, por óbvio, que não gosto de viver em conflito comigo e muito menos com as pessoas que amo – e, até, com as que não amo.

Os conflitos que travo comigo mesmo só a mim interessam, claro. Eu os resolvo, com algum sofrimento, mas os resolvo; e nem sofro tão intensamente, pois o tempo me ensinou a resolvê-los sem traumas.

O que pega mesmo, para mim, são os conflitos que travo com o semelhante. Esses me agastam sobremodo.

Não sou do tipo que, diante de um desentendimento banal, abre a boca e diz não estar nem aí.

Eu estou aí, sim. Eu me importo, sim, com as desavenças que eventualmente travo com o meu semelhante.

A verdade é que, diante do mais corriqueiro desentendimento, sou candidato ao sofrimento, ao abalo emocional.

Claro que é um erro ser assim, afinal, ninguém vive sem conflito, sem bater de frente com o semelhante.

Eu não gosto, todavia – antes, tenho pavor – , de litigar (sentido amplo) com o semelhante, máxime se o semelhante está dentro da mesma corporação, se vive no mesmo ambiente que vivo.

Mas, que fique claro, eu não estou refletindo sobre conflitos de ponto de vista, de posições acerca de determinadas questões. Não! Eu falo mesmo é de discórdia, desavença, desinteligência, daquelas que afastam as pessoas umas das outras, que faz nascer um sentimento de vendeta.

Sou assim porque eu preciso de paz para viver.

Uma desavença, por mais banal que seja, tem reflexo imediato no meu emocional; fico inquieto, irratadiço, com os pés e as mãos gelados, sintomas de que não estou bem.

É que sou da paz, da harmonia, da convivência pacífica.

Já fui belicoso, importa reconhecer, mas sem nenhuma convicção.

As contendas nas quais me envolvi serviram apenas para provar que não faço proselitismo da altercação.

Sou do tipo tão sem convicção para a malquerença, que, em pouco tempo, sou instado a procurar a paz; se não o faço, sou tomado de intenso sofrimento.

Nessas pelejas feitas para medir forças, para sustentar uma discórdia, eu já entro derrotado.

Não sou capaz de um jeb de direita – ou de esquerda, tanto faz – no meu oponente, se o assunto é discórdia.

Eu não sei me proteger nessas questões. Eu dou a minha cara de bandeja ao “oponente”.

Eu sempre fui assim.

Quando o assunto é dissensão, desinteligência, pode parecer irreal, mas eu não sou de nada.

Aliás, nessa questão eu sou uma farsa.

Diante de uma desavença, sou levado ao autoflagelo, me imponho um sofrimento que, muitas vezes, não sei se posso suportar.

Nunca levei o opositor a nocaute, quando tentei partir para o confronto.

Nessa seara sou sempre quem sucumbe, pois, se é verdadeque não sei atacar, é muito mais verdadeiro ainda que não sei sequer me defender.

E eu que pareço, para quem não me conhece, tão decidido, tão desabrido, tão corajoso.

A verdade é que sou um péssimo protagonista, se o assunto é discórdia; atuo sem a mais mínima convicção, reafirmo.

Mas atenção: não ouse interpretar essas reflexões como uma fraqueza em sentido amplo.

Não ouse, pois, dar às minhas palavras a dimensão que elas não têm, pois se a questão for a defesa das minhas convicções e das coisas que acredito, não sou de recuar, pusilânime não sou ; por elas luto como um gigante, me transformo, multiplico as minhas forças. E se o contendor vier desprevenido, jogo-o na lona, com o simples jeb de direito – ou de esquerda, tanto faz.

Miséria e cidadania

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Mais uma eleição se encerra, exceto, claro, a de Presidente da República, levada ao segundo turno.

Qual a lição que fica?

Para mim não fica uma lição; fica uma constatação, qual seja, a de que a liberdade de escolha de grande parte de nossa população, máxime do Maranhão, ainda é uma quimera, pois que obliterada, vilipendiada, desrespeitada, afrontada, desde as mais priscas eras, pelo abuso do poder econômico e pelo discurso de ocasião (rectius: demagogia), decorrência lógica do grau de miserabilidade e da ignorância do povo.

Quem foi juiz eleitoral por tantos anos, morando nas comarcas e vivendo próximo dessa realidade como eu, pode afirmar, como o faço agora, que a vontade do eleitor que vive nos rincões de miséria do Maranhão, em face das eleições, é nenhuma, não passa de uma falácia; é uma quimera, posso dizer.

Só pensa diferente que não vive – ou viveu – essa realidade, quem prefere dourar a pílula, quem, para se enganar, prefere crer que o resultado de uma eleição é a tradução da vontade e da consciência do eleitor.

A verdade é que a situação de miséria de um povo mascara, sim, a resultado de uma pugna eleitoral. Só não vê quem não quer, pois está diante dos olhos. É só abrir os olhos, ou melhor, a mente, pois os olhos não visualizam o que a mente não quer ver.

Do que afirmo só discordará quem, vivendo no mundo de fantasia, desconhece o verdadeiro sentido da palavra necessidade, em face das coisas mais simples, como um pão sobre a mesa para o desjejum ou um simples analgésico, para aliviar uma cefaléia.

A constatação a que chego, depois de tudo o que vi e vivi, na condição de magistrado e promotor de justiça, depois de ter trabalhado em tantas eleições, é que a vontade (?) do eleitor que sobrevive nos bolsões de miséria é nenhuma, pois que está sob o determinismo, sob o comando, sob a vontade, enfim, dos cabos eleitorais, os quais, inescrupulosos, sem pejo e sem pudor, negociam, em seu nome, o valor do voto que supõe lhe pertencer – e que, afinal, lhes pertence mesmo.

Nesse condição , sem horizonte, envolto em miséria, soçobrando diante de tantos infortúnios, com a barriga vazia, com os filhos implorando por um pedaço de pão para saciar a fome, vivendo em condições subumanas, sem perspectiva de futuro, com a consciência manipulada por um espertalhão, o eleitor(?) dirige-se à cabina indevassável, para, suprema ironia, exercer a sua cidadania, já com a vontade eleitoral viciada.

Com a consciência manipulada, sem ter noção da importância do voto, o eleitor miserável sai de casa, com a sua melhor vestimenta ( quando a possui), sem se dar conta de que, rigorosamente, compõe apenas um dado estatístico, para, em nome do espertalhão, depositar na urna o voto que não traduz a sua vontade, contribuindo, tão-somente, para o quociente eleitoral que levará ao poder um candidato – ou canditados – que nem mesmo conhece – e jamais conhecerá – , de quem sequer teve a chance de ouvir as propostas – ou as falsas promessas – , mesmo porque, se as ouvisse, é provável que sequer as assimilasse – ou as levasse na devida conta – , em face do “compromisso” já assumido com o líder político, esse, sim, o verdadeiro “proprietário” de sua “vontade”.

É nesse mundo de desventuras e infelicidades, nesse cenário de miséria, diante desse caos e de tantas adversidades e ignomínias – que, não se há de negar, desvirtua o conceito de cidadania – que encontra campo fértil para agir, para pôr em prática as suas maquinações, o todo poderoso alcaide municipal ( o cabo eleitoral ao qual fiz menção acima), o qual, não raro, usa o dinheiro público como se fosse propriedade particular, para, com ele, fazer mesuras, amealhar adesões, comprar consciências, e delas fazer uso em benefício próprio ou de outro líder político qualquer.

É ele, sim, o prefeito municipal – ressalvadas as exceções -, quem mais tem condições de corromper as consciências miseráveis e degradadas pelas adversidades. Nesse contexto, não se há de negar, é quem, com singular esperteza, paga, por exemplo, as contas de luz e água, uma dose de cachaça ou fornece um remédio para aliviar uma dor de cabeça, dentre outras gentilezas feitas com o dinheiro público, para, sem pudor, cobrar a conta, na primeira oportunidade; e a oportunidade é, sempre, a próxima eleção – e a contraprestação é, sempre, o voto, que é, afinal, o que interesse mesmo.

Por tudo isso – e mais alguma coisa – é que é ele, sim, o chefe do executivo municipal – e outras lideranças menos expressivas -, sobretudo nos municípios mais pobres, o proprietário absoluto dos votos dos miseráveis, dos incautos, dos que sobrevivem enfrentando toda sorte de intempéries, nos grotões miseráveis que têm servido apenas para essas finalidades.

Diante desse quadro, não se pode mesmo esperar liberdade de escolha e idealismo. Nesse contexto, falar-se que o pleito eleitoral é resultado da vontade do eleitor, é, para dizer o mínimo, um escárnio.

Passado

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Para viver – e conviver – bem com o presente é preciso ter vivido prazerosamente o passado.

Eu vivi e convivi – e convivo – bem com o passado.

Por isso, aconchego em meu peito uma incontrolável e benfazeja saudade.

A saudade que dói em ti, a mim me corteja, me acaricia, me bajula e me afaga, porque sabe que eu cuido bem dela, que lhe dou abrigo, que lhe empresto o conforto da minha mente sã, que a trago nos meus sonhos e nas minhas horas de reflexão.

Bendita saudade!

Bem-vinda saudade!

Direis: o passado é passado. O que passou, passou. O que se foi, o que se viveu, o que se sentiu, com o tempo esmaeceu, perdeu a razão de ser – foi-se!

Direis: agora é viver o presente.

Direi: esmaeceu em ti. Em mim o passado é presente.

Direi mais: o passado que passa – e que passou – para ti, para mim é presente, é energia, é força, é vibração.

Direis: lembrar do passado pode fazer sofrer.

Direi: sofres tu.

Direi mais: o meu passado, a minha história, o que vivi e vivenciei não vem em holocausto da minha felicidade. Ao reverso, conspira a favor dela.

Direi, também: o meu passado e o meu presente se completam, e deles decorre uma simbiose que me fortalece, que me dá forças, sobretudo em face das incertezas do futuro.

Direis: só um saudosista empedernido pensa assim.

Direi: sou mais que um saudosista enrijecido: sou um incontrolável, irrecuperável saudosista.

Direi, outrossim: com a saudade impregnando a alma, vou ao passado com a mesma volúpia, com a mesma tenacidade com que vivo o meu presente.

Direi, ademais: se o passado, por óbvias razões, não pode vir a mim, eu, embirrado, incontrolável, sôfrego, vou aonde ele está.

Direi, finalmente: é lá, no passado, que me reencontro comigo, pois o muito do que sou é resultado inexorável do que vivi , das coisas que vivenciei e aprendi, das alegrias, das dores e das tristezas que fui compelido a experimentar.

Triste de quem não tem passado,

Triste de quem só vive o presente, pois o presente que hoje vive, será, inapelavelmente, o passado que não viverá.

É dizer: se o passado não importa, se o passado nada significou, o que se vive agora é um nada, é coisa nenhuma.

O nosso pior inimigo pode estar dentro de nós

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Nós, de regra, não estamos preparados para derrota. Muito cedo aprendemos, por exemplo, que, numa disputa qualquer, é preciso ganhar.

Ouvi – e ainda ouço – de muitas pessoas a seguinte recomendação aos filhos: se apanhar na rua, apanha em casa também.

É dizer: a sociedade nos condiciona para a vitória. É feio perder. Tem que ser vencedor, nem que seja numa rinha de galo, onde os protagonistas não são os que amealham os louros da vitória.

Ninguém quer ser apontado como perdedor. Todos almejamos vencer. É assim na vida pessoal. É assim na vida proifissional.

Mas a vida não se constrói apenas vencendo. Na vida real é diferente: perde-se aqui; ganha-se acolá. É preciso, pois, saber perder.

Essa máxima da vida, no entanto, não se aceita com naturalidade, daí a razão pela qual há pessoas que, diante da derrota, seja ela de qual dimensão for, se descabela, praqueja, agride, perde o controle – perde os amigos e, até, os parentes mais queridos.

Quando se entra no disputa, seja ela de que nível for, tem-se que saber que pode-se, sim, perder ou ganhar.

Ser vencedor, sair vitorioso de uma contenda, sobrepujar o adversário faz bem à mente – e é o que todos almejamos, enfim.

Quem não quer ganhar? Claro que todos queremos.

Mas é preciso ter em mente que numa disputa também se perde. E ao perder, recomenda o bom senso que se analise as razões da derrota para, nos novos embates, tentar sobrepujar o adversário.

Essas questões são de fácil compreensão.

Eu já perdi incontáveis vezes. Mas, noutra banda, também venci muito.

Com as derrotas aprendi, mas não deixei que a vaidade me levasse a caminhos tortuosos, em face das vitórias que alcancei.

Até aqui, nada demais. Só o óbvio.

O bicho pega mesmo é quando nós perdemos a batalha para nós mesmos. É quando somos derrotados pelas nossas próprias fraquezas. É quando deixamos que a nossa mente nos leve à lona, quando somos nocauteados pelas nossas próprias indiossincrasias.

O conflito que travamos com nós mesmos é o conflito mais difícil de administrar.

Mas nós temos que ter força interior para enfrentar os nossos medos, as nossas angústias, as nossas fraquezas.

Eu, muitas vezes, não soube enfrentar essas questões. Sucumbi, muitas vezes, como um gladiador numa arena.

Algumas vezes. apresentei-me para mim mesmo como um forte contendor, mas o que vi foi eu sendo adversário de mim mesmo. E perdi. Saí da pugna machucado, sofrido, vilipendiado, arrasado, um trapo, um resto de gente.

Foi aí que decidi que, para enfrentar o mundo exterior, para enfrentar o inimigo, eu precisava primeiro vencer os meus medos, as minhas angústias, o meu açodamento, a minha ansiedade. Só depois que venci essas batalhas interiores foi que pude sobrepujar os inimigos externos.

A minha maior batalha, pois, foi travada comigo mesmo; a minha maior vitória,importa consignar, foi contra mim mesmo.

Assim é a vida. É assim que tem que ser.

Sim, assim é a vida e assim que deveria ser.

Mas eu não fui sempre assim. A vida para mim, ao reverso, era algo muito mais complexo, porque eu me autoflagelava diante de questões que hoje tiro de letra.

A verdade é que só passei a entender a beleza e a simplicidade da vida quando superei os meus medos, as minhas fraquezas, as minhas angústias.

Eu só passei a entender e viver bem comigo mesmo e com o meu semelhante, quando passei a entender que eu, como todo ser humano, tinha inúmeras virtudes e incontáveis defeitos.

Agora eu sei que a vida é assim.

Viver pode não ser algo terrível, se nos damos conta de que, a cada desafio e diante de uma derrota, temos que nos fortalecer interiormente, ao inviés de simplesmente sucumbir e chorar o leite derramado.

Não adiante a armadura de um gladiador, o revólver do Zorro, as mágicas do Mandrake, a ambição do Tio Patinhas, os cabelos de Sansão, o estinligue de David, a perspicácia do Mickey, a destreza do Super-homem, as teias do Homem Aranha e a força do Hulk, se não tivermos a capacidade de enfrentar o inimigo que, inclemente, abrigamos dentro de nós mesmos.

Desvendando os mistérios da toga

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Tenho refletido – e tenho registrado, em crônicas, o resultado dessas reflexões – acerca dos mistérios que envolvem os homens togados. Foi por isso que, inquieto, escrevi a crônica OS MISTÉRIOS DA TOGA, de grande repercussão.

Causa-me inquietação a mudança que se opera em de terminados julgadores, quando colocam a toga sobre os ombros.

Eu não consigo compreender, sinceramente, por que determinadas pessoas, que convivem com os demais congêneres – no dia a dia, nas reuniões sociais, nos bate-papos informais – com fidalguia e afabilidade, transmudam-se, de forma supreende, quando adentram numa sala de julgamento.

Essas reflexões, essa minha inquietação em face desses transtornos da personalidade, e a busca de respostas para essas mudanças bruscas de comportamento, me levaram aos meus primeiros anos como magistrado, na Comarca de Presidente Dutra.

Lá chegando, nos idos de 1986, pude constatar, ainda com a personalidade em formação, a importância que o povo dava ( e dá) a um magistrado. Não raro eu ouvia as pessoas se dirigirem a mim e dizerem, quase em uníssono, que eu era a autoridade máxima do município.

É claro que ser colocado na condição de autoridade máxima de um município mexeu com a minha vaidade. E mexe, sim, com a vaidade de todos, máxime se se tratar de um tolo.

Diante de tantos obséquios, de tanta sabujice, de tantas lisonjas, de tantas honrarias, não há quem resista.

A vaidade, essa é a verdade, vai impregnando, contaminando a alma.

Da vaidade para a arrogância e a prepoetência é um passo.

Nessa condição, de autoridade máxima do município, eu também fui arrogante e prepotente. Cometi erros, em face do poder, que não cometeria nos dias atuais.

Deixei-me levar, como muitos, pela vaidade e, algumas vezes, me excedi, sem, no entanto, cometer nenhum ignomínia no exercício do cargo.

Mas, com poucos dias, dei-me conta de que a toga pesava sobre os meus ombros e me fazia uma pessoa diferente do que sou.

Diante dessa constatação, procurei mudar – e mudei! Mudei muito! – , conquanto tenha permanecido, como sou até hoje, intenso, visceral, quase intransigente, na defesa dos meus pontos de vistas, sem, no entanto, ser radical, inconsequente ou obtuso.

Não deixo, como deixei no passado, que a toga mude a minha personalidade, conquanto, repito, exerça o poder intensamente.

Só os tolos, os babacas não mudam.

Eis alguns dos mistérios da toga que só agora revelo.

É por isso que, na crônica intitulada EU (NÃO) FARIA TUDO OUTRA VEZ, tive a oportunidade de dizer:

“[…]” Confesso que quando ouço alguém dizer que faria tudo outra vez ou que não se arrepende de nada que fez, fico achando que nasci, cresci – e vivo – num mundo muito, muito diferente e que, dos homens, estou entre os mais falíveis, entre os que mais erram, os que mais tropeçam, pois muitas das minhas ações do passado, muitas coisas que fiz eu não faria outra vez – nem sob tortura.

Para mim – cá com os meus botões, cá com as minhas imperfeições, com a minha assumida falibilidade – é uma arrogância, uma prepotência sem par, concluir que, diante da mesma situação – ou se pudesse voltar no tempo – , faria tudo exatamente como fizera antes, ainda que tenha tropeçado, que tenha sucumbido, que tenha dado com a cara na parede. Quem pensa e age assim se imagina muito próximo da perfeição, da infalibilidade. Não passa, todavia, de um tolo, de um bem acabado imbecil, pois que, tendo a oportunidade de aprender, não o fez, preferindo, ao reverso, continuar trilhando pelo mesmo caminho, navegando nas mesmas águas turvas nas quais soçobrou.

Diferente dos que pensam – e agem – assim, eu já me arrependi, incontáveis vezes, de muitas coisas que fiz e, até, das que deixei de fazer. Confesso, com humildade, que não faria tudo outra vez. Admito, hoje, mais maduro, ter cometido muitos erros que não cometeria com a experiência que acumulei ao longo dos anos.

Como eu gostaria de poder voltar no tempo para não ter que cometer os mesmos erros! Se a mim me fossem dadas as mesmas oportunidades que tive e que perdi, trilharia noutra direção, noutro rumo, noutro sentido.

Se a mim me fosse permitido voltar no tempo, eu jamais, sob quaisquer circunstâncias, postularia, uma promoção por merecimento, como fiz no passado – sem pensar nas conseqüências. Esse foi o maior erro que cometi na minha vida profissional – e pessoal, pois não posso dissociar, nessas circunstâncias, o pessoal do profissional.

Se eu pudesse voltar no tempo moldaria a minha personalidade para, jamais, sob qualquer pretexto, abrir mão das horas de lazer que me furtei – e, incorrigível, me furto, até hoje – para trabalhar. O ser humano não tem o direito de se auto-impor um jornada tríplice de trabalho.

Se eu pudesse voltar no tempo, me faria concessões, seria menos rigoroso comigo mesmo. É preciso saber se fazer concessões. E isso eu, aos cinqüenta e quatro anos, ainda não aprendi; continuo me imolando com trabalho, me imolando nas minhas empedernidas convicções. E como tenho padecido por causa delas.

Se pudesse voltar no tempo para traçar o meu rumo, a minha vereda, o meu norte, o caminho a seguir, jamais confiaria nalgumas pessoas que confiei e que – hoje sei que era inevitável – me traíram.

Se eu pudesse voltar no tempo, seria mais tolerante com quem não cumpre horário. Eu sempre desprezei – e ainda desprezo – o profissional que não cumpre horário. Muito da minha fama de arrogante decorre dessa minha intolerância com o profissional que descuida do hora aprazada, que não honra a palavra assumida, que não se esmera no trabalho.

Se pudesse voltar no tempo, seria responsável na medida certa, investiria mais em mim e menos no trabalho.

Se eu pudesse fazer retroceder o tempo, eu jamais teria me envolvido emocionalmente com algumas pessoas que, só depois, me dei conta de que não mereciam de mim nada mais que desprezo.

Se pudesse voltar no tempo, eu veria um pouco mais o por do sol, teria chegado um pouco mais cedo – espiritualmente – em casa.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu não sairia mais, como o fiz tolamente no passado, prendendo que fazia boca de urna.

Com eu fui idiota! Com eu fui tolo! Hoje sei que tudo foi embalde! Nenhum cabo eleitoral recebeu qualquer reprimenda e nenhum candidato teve a candidatura impugnada.

Eles, certamente, devem ter rido de minha ingenuidade.

Se eu pudesse voltar no tempo, não passaria mais noites insones – como ainda passo – tentando combater a criminalidade miúda, enquanto que os colarinhos engomados seguem saqueando os cofres públicos.

Se eu pudesse voltar no tempo, eu jamais me afastaria de algumas pessoas que amo e das quais me afastei por causa do trabalho.

A ilusão dos tolos

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Só um tolo se ilude com o poder. O que se vive e vivencia no poder é absolutamente efêmero. Tudo passa com uma rapidez de impressionar.

A verdade é que, depois do exercício do poder, vêm, necessariamente, o ostracismo, o andar sozinho, a solidão, a tristeza, enfim ( para os que não se preparam para essa realidade), ante a constatação de que os “amigos” de ocasião, de conveniência, debandaram, foram cantar em outra freguesia; quiçá, já podem estar, convenientemente, exercendo a sabujice em torno de outras figuras circunstancialmente poderosas.

Dirão: É a vida! Direi: É a vida, sim!

Pena que muitos não se dão conta de que a vaidade e a prepotência, no exercício do poder, lhes remetarão, mais intensamente, mais rapidamente, enfim, à solidão, quando desse mesmo poder forem apeados- pelo tempo ou pelas circunstâncias.

Dirão: Fora do poder não há salvação! Direi: Fora do poder há, sim, salvação!

Mas salvação só haverá, se, ao invés do poder, sublimares, valorizares, enalteceres, sem enleio, a família e os verdadeiros amigos, que são aqueles que não estão ao teu lado em razão do cargo que eventualmente exerças.

Quem tem família e amigos verdadeiros, nunca estará – nem se sentirá – sozinho; não sofrerá em face do poder que já não tem.

Ontem, por acaso, recebi a visita de um colega, que veio me dar as boas vindas pelo meu retorno ao trabalho, depois do acidente que sofri.

Conversa vai, conversa vem, chegamos à lembrança dos nossos colegas que passaram pelo poder.

Nessas reminiscências, disse ao colega que, no domingo próximo passado, num determinado restaurante da cidade, vi um colega aposentado, já muito idoso e, até, com dificuldades para se locomover.

Diante dessa minha informação, o colega, estupefato, indagou:

– Fulano ainda está vivo?

Seguimos adiante,cuidando, ainda, de recordações.

Num determinado momento, ele disse para mim:

– Sabes quem está muito doente?

Ele mesmo, sem que eu respondesse, disse:

– Fulano de tal.

Fiquei chocado – e triste. Confesso que não sabia do delicado estado de saúde desse ilustrado colega.

Na mesma hora acertamos uma visita para a próxima segunda-feira.

Esses dois exemplos demonstram, com eloquência, o que seremos, depois do exercício do poder: pessoas esquecidas. Nada mais que isso. Quando muito, no caso específico do Tribunal de Justiça, pessoas que não representam mais que um retrato na parede, se tiverem exercido algum cargo de direção.

Como abdiquei, de logo, de qualquer cargo de direção ( a menos que fosse escolhido por consenso, para não dividir mais ainda o Tribunal, o que, é bem de ver-se, jamais ocorrerá), está claro que, no meu caso, nem mesmo o retrato na parede existirá, para que se lembrem de mim.

Essas reflexões me levam, mais uma vez, a uma óbvia conclusão: é preciso sublimar a família e os amigos verdadeiros, pois que somente por eles jamais seremos esquecidos, tendo em vista que por eles – amigos e família – não somos gostados – e, até, amados – pelo estar, mas pelo ser.

É muito provável que esses dois colegas a que me referi, que foram esquecidos em face do poder que exerceram, tenham, nos dias atuais, apenas o conforto do lar e a atenção dos amigos verdadeiros, que é, de rigor, o quanto basta.

Tenho dito, nessa linha de pensar, que os que se embriagaram com o poder , que não se preparam para o porvir, e que não foram capazes de preservar as amizades verdadeiras, viverão, até os dias finais, uma amarga solidão, exatamente quando mais precisam do conforto e de assistência.

É assim mesmo, sem tirar nem pôr. Triste dos que não vislumbram esse porvir.

Essas reflexões me fazem lembrar, outra vez, de Sébastian Roch Nicolas Chamfort, que viveu no século XIX e que foi um dos mais brilhantes satíricos de sua época.

As máximas de Sébastian, publicadas depois da sua morte, revelaram-no um mestre do aforismo e um crítico voraz e impiedoso.

Nicolas Chamfort tinha intensa aversão aos tolos, sobre os quais definia, depois de indagar:

– O que é um tolo?

Para, impiedosamente, responder:

– Alguém que confunde seu cargo com sua pessoa, seu status com seu talento e sua posição com uma virtude.

Depois, diagnosticava, com a mesma acidez:

– Um tolo, ansiando com orgulho por alguma condecoração, parece-me inferior a esse homem ridículo que, para se estimular, fazia com que suas amantes pusessem penas de pavão em seu traseiro.