Fragmentos do meu pensamento

“[…]Ao magistrado não basta ser. É preciso, repito, parecer honesto. A meu aviso, não parece pundonoroso o magistrado que ostenta vida social além de suas poses.
Não parece decoroso o magistrado que ostenta padrão de vida superior ao que lhe podem proporcionar os seus ganhos mensais.
Não parece honrado quem, tendo assumido o cargo pobre, exibi patrimônio incompatível com a sua renda mensal, sem ter como explicar a origem de sua fortuna[…]”

(Excertos da crônica “A necessidade de ser e parecer correto”, publicada neste blog)

A culpa é só deles

Mais uma vez movido pelas notícias acerca da malversação do dinheiro público, fui estimulado a refletir acerca da ação nefasta dos maus políticos. Como já tive a oportunidade de, neste mesmo blog, expender as minhas impressões sobre eles – os maus políticos -, acho de bom tom apenas republicar crônica de minha autoria, publicada no dia 10 de março de 2006.

Eis a crônica.

Tenho dito, nas conversas coloquiais, que quase tudo de ruim que circunda a nossa vida é da responsabilidade dos políticos. Eles – salvo honrosas exceções, cada dia mais raras – não têm sentimento. Eles, definitivamente, não têm sequer compaixão das pessoas que estão muito próximas deles. São insensíveis. Até parece que não têm famílias, não têm amigos, parentes…Nada! Nada! Nada mais tem importância que não seja o poder e as facilidades que ele proporciona.

O dinheiro público, para eles, se confunde com o privado. Eles não distinguem os bens públicos – veículos, casas, móveis, utensílios, tudo, enfim –dos privados.

Todos os dias, todas as horas se aponta uma malfeitoria de um político. Mas eles, desdenhando de todos, encaram as acusações como uma coisa natural. Eles não têm sensibilidade, repito. Eu, às vezes, me imagino sendo acusado de corrupção e não imagino qual seria minha reação. Não consigo dimensionar qual o tamanho da minha indignação, da minha revolta. Não sei como encararia a minha família, os meus amigos, os advogados, os colegas e promotores, se me apontassem qualquer ato de impropridade.

Os políticos – os maus políticos, repito -, no entanto, são alvos, todos os dias, das mais graves acusações e, de regra, nem reagem. Quando reagem, não o fazem nem com veemência. O fazem sem convicção, numa reação própria de quem não tem certeza de sua própria inocência. Estão calejados. Confiam na incapacidade de discernimento do eleitor.

Sempre que se imputa a um deles uma falcatrua, um ato de corrupção, eles se apressam em dizer que tudo é criação do adversário político. É a antecipação da campanha política, argumentam. E assim vão vivendo, escamoteando aqui, enganando ali, ludibriando acolá, aumentando o patrimônio, se apossando de um naco do poder, de um fragmento da coisa pública, dando maus exemplos, causando em todos nós desesperança, revolta, indignação e descrença.

No período eleitoral, as ignomínias perpetradas por eles se multiplicam. Eles vendem falsas esperanças, compram votos, loteiam o Estado, definem que vai ser eleito. Maquinam! Fazem manobras! Plantam notícias! Desdenham do eleitor! Procuram meios de destruir o adversário. Se tiver rabo preso, melhor. Se não tiver, cria-se um fato que o coloque mal diante dos seus leitores. A história registra incontáveis episódios nesse sentido.

É sempre assim. Faltam-lhes dignidade e honradez. Às favas as convicções, as promessas, a honra, a palavra empenhada.

O que vale mesmo é poder. Por ele vendem a honra, expõem a sua família, carregam dinheiro na cueca, assumem o uso de caixa dois, fraudam, lesam, ludibriam, mandam matar, plantam notícias, desrespeitam a família do adversário, achincalham, desonram, chafurdam na lama, vão à tribuna, choram, gesticulam, vendem a alma, juram pela mulher, pelos filhos, pela sogra – até a sogra! – , pela mãe, pela alma da mãe, em nome de Deus, de Jesus Cristo, de Madalena, de São Judas Tadeu…

E assim vão vivendo. E salve-se quem puder! E o eleitor? Que morra! Dele só querem o voto. Nada mais! Não sei aonde vamos parar.

Ao término do fraudulento, sórdido, oprobrioso processo eleitoral, onde a compra de votos se fez às escâncaras, a olhos vistos, às claras, à vista de todos,sem cerimônia, ainda dizem na imprensa, se “eleitos”, que foram julgados e absolvidos pelas urnas. Como se o eleitor,de barriga vazia, iletrado, inculto, sofrido, soubesse em quem e por que estava votando. Esse eleitor não atende sequer à sua consciência na hora de votar. Vota atendendo aos apelos do cabo eleitoral, que vende votos aos candidatos aos milhares, como se fosse dono – e o é – de um curral eleitoral.

O processo eleitoral, tenho ciência, é um mar de lamas. O poder econômico é uma praga. De nada adianta urna eletrônica se não se consegue coibir a compra de votos. Tenho dito e o dizia quando Juiz Eleitoral, que a pior praga a contaminar o processo eleitoral é o abuso do poder econômico. Se esse abuso não for coibido, de nada adianta a urna eletrônica e outras coisas que tais, pois a fraude se dá antes de o eleitor depositar o seu voto. A urna eletrônica é apenas um desaguadoro de um processo já fraudado em sua origem.

Não há eleição limpa se o eleitor, com fome e na ignorância, não tem a capacidade de discernir. Não há eleição democrática se eleitor não tem educação, o que comer e onde morar. Nesse contexto, ele vende o voto, troca-o por um favor, por uma esmola. E não pode ser acusado por isso. Ele é apenas mais uma vítima desse processo eleitoral ignóbil, abjeto, sórdido, vil.

A eleição, para o pobre, que vive só de favores, é uma oportunidade de conseguir cem telhas para cobrir o casebre, uma cadeira de rodas para um ente querido, dez reais, para pagar a quitanda da esquina, um saco de cimento, uma consulta, um dinheiro para comprar remédio, uma passagem para votar em sua terra e rever um semelhante.

Depois das eleições, viciada em todos os aspectos, onde o eleitor miserável votou como um autômato, sem consciência, vejo, estupefato, os analistas políticos dizerem que o eleitorado se inclinou para direito ou para esquerda, ou se manteve no centro, como se o eleitor de barriga vazia, ignorante, iletrado, soubesse o que é direita, esquerda, centro, centro-esquerda, etc.

Reafirmando o que disse acima: quase tudo de ruim que acontece em um estado, em um país ou em um município é culpa do mau político.

Claro, disse-o acima, que ainda há homens honrados – poucos, é verdade – dos quais pode-se discordar de suas idéias, mas não se pode qualificá-los de desonestos, desleais de mau caráter.

Os exemplos são poucos, raros. São espécimes raros, nesse mundo onde tudo vale. Onde só não vale ser leal, ser honrado ou perder a eleição para o adversário.

Se a saúde vai mal, a culpa é do político, que não hesita, se puder se beneficiar da verba a ela destinada, em benefício pessoal. Se não há estradas, a culpa também é deles, que pouco estão se importando com a insegurança e com as vidas dos miseráveis que trafegam nas estradas esburacadas, mesmo porque delas eles náo se utilizam.

Se nos falta segurança, a culpa só pode ser deles. Na visão deles segurança não rende votos.

Se a Universidade está sucateada, a quem se pode atribuir a culpa que não a eles? Universidade pra quê?

Na visão deles o povo deve ser mantido na ignorância.

Se não há rede de esgotos, a culpa, também, é deles. Afinal, obra subterrânea, segundo eles próprios, não lhes dá imagem para a propaganda política.

Se não se faz a reforma agrária, a culpa é só deles.

Se o crime organizado chegou ao limite de invadir um quartel, a responsabilidade é só deles, que deixaram o crime organizado sobrepujar o próprio Estado, afinal, onde falta o Estado oficial, o paralelo tende a se apossar.

O caixa II, se não é invenção deles, eles são os maiores protagonistas.

Se a agricultura está em frangalhos, não se pode imputar a culpa a outra classe, que não à política.

Eles – os maus políticos, que são muitos – são, definitivamente, uns delinqüentes.

Ainda bem que há exceções. Poucas, raras, mas há.

Pena que esses, logo, logo, desestimulados, deixam a vida pública. Ou porque desistem ou porque não são reeleitos, porque são incapazes de mentir, de escamotear a verdade. Para ser um político vencedor, tem que todos esses péssimos predicados.

Triste de nós outros que em tudo dependemos deles!

Num país como o nosso, onde grassa a impunidade, onde a corrupção flui solta, nas mais de cinco mil prefeituras e em outros órgãos da administração direta e indireta,  num país como nosso, cujo homem público em pouco tempo amealha uma grande fortuna e não se questiona a origem do dinheiro, num país como nosso, onde os políticos têm a capacidade divina de multiplicar os pães, eu só posso mesmo ter vergonha de manter um batedor de carteira preso.

Num país como o nosso, cujos tentáculos da persecução criminal só se destinam aos miseráveis, é preciso refletir quando nos decidimos pela condenação de um furtador. Afinal, eles são estimulados pela própria classe política. Eles vêem o crime, a delinqüência desfilar na tela de sua televisão, dentro de casa, na cara dos seus filhos. E, o que é mais grave, impunemente.

Os simples mortais, os éticos, os que não fazem falcatruas, que não usam o cargo para dele tirar proveito, ainda são obrigados – como eu – a descontar uma parcela significativa do salário, na forma de imposto, para regar as contas dos malfeitores que tomaram conta do Estado.

O pior, o mais grave, é que somos todos jogados, sem apelo, na mesma vala comum. A sensação que temos é que, para população, somos todos iguais. Não há honestidade que resista à sedução do poder, na visão de muitos.

Muitos, infelizmente, passam a vida apontando os erros dos outros, mas quando assumem o poder, procedem da mesma forma.

Tenho dito que só quem exerce o Poder e não se corrompe pode dizer que é honesto.

Quem nunca foi testado, não pode fazer essa afirmação, mesmo porque a impunidade é má conselheira.

Mas a grande maioria do povo, a absoluta maioria do povo, na minha visão, é honesto e tem bom caráter.

Não fosse assim, a sociedade não sobreviveria.

O nosso mundo, em face desses espertalhões, está contaminado.

Qual o mundo que vamos deixar para os nossos filhos?

Como convencê-los de que ser honesto ainda vale a pena? Como exigir deles retidão de caráter, se eles assistem, todos os dias, imperar a esperteza?

Como convencê-los que não podemos atender às suas demandas, se pessoas supostamente com os mesmos vencimentos tudo podem?

Mas eles não podem perder a esperança. É preciso, nesse sentido, todos os dias, todas as horas, mostrar-lhes que vale a pena ser honesto.

Viva a liberdade

De Shopenhauer:

“Se não conto o meu segredo, ele é meu prisioneiro. Se o deixo escapar, sou prisioneiro dele. A árvore do silêncio dá os frutos da paz”.

Eu já tinha refletido acerca dessa questão. O segredo compartilhado, não se há de negar, escraviza.

Tenho dito e repetido que quem age, na sua vida pessoal e profissional, sub-repticiamente, com subterfúgios, à calada da noite, fazendo negociações escusas, se corrompendo, vendendo a sua consciência, é escravo do segredo que partilhou.

O segredo compartido escraviza. Algum um dia, inevitavelmente, inapelavelmente, emergirá. Nesse dia, o proprietário do segredo deixará de ser mero escravo para ser, além do mais, desmoralizado. Pena que, às vezes, a desmoralização tarde.

Eu não tenho segredos profissionais partilhados com ninguém. Nem com a minha família. Nada tenho a esconder. Por isso mesmo, não corro o perigo de me escravizar, em face de um segredo.

Tenho dito, reiteradas vezes, que quem leva uma vida de fachada, dúbia, multifacetada, esvaecida e dissimulada, tem sempre muitos segredos guardados, muitos a serem compartilhados, muitos já compartidos com outras pessoas,  e muitos que, por isso mesmo, o escravizam.

O dono do segredo compartido viverá, sempre, sob o fio da navalha. Viverá, para sempre, escravizado pelo segredo que foi obrigado a comungar.
Por isso, é muito bom não ter compartilhado segredos com ninguém.

É muito bom ser livre. Livre para agir e dizer o que pensa, sem se preocupar em desagradar, em ser simpático.

Os sonhos e a história levados numa enxurrada

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“[…] O que todos testemunhamos, estarrecidos, a quase doer,  é que as pessoas morrem nas filas dos hospitais em busca de atendimento, como conseqüência do dinheiro desviado; dinheiro que faz a felicidade de uns poucos, em detrimento da maioria. Essas mesmas pessoas – que nomino vítimas do desprezo estatal – , quando, enfim, conseguem ser “atendidas”,  são jogadas nos corredores dos hospitais públicos,  como se fossem de uma sub-raça, uma subespécie,  como se pobre não tivesse sentimento, não sentisse dor, não chorasse a morte de um parente ou de um amigo, como se, enfim, não fosse digno  de respeito. Como não se revolta.[…]”

José Luiz Oliveira de Almeida

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Abaixo, a crônica encaminhada para publicação no Jornal Pequeno.

Eu nunca perdi a capacidade de me indignar diante de determinadas situações. Todavia, ainda assim, apesar de tudo que me causa estupor  e revolta, encontro tempo pra ser feliz, não obstante admita que, sobretudo nos dias atuais, com as informações batendo à  minha porta, não tem sido fácil, sobretudo as que envolvem os homens públicos do meu país.

É impossível, por exemplo, deixar de indignar-me com o mau uso do dinheiro público, sobretudo nas prefeituras municipais. O que temos testemunhado, desde sempre, é que o cidadão assume hoje os destinos de um município, para, amanhã, ostensivamente, esbanjar, ostentar,  sem pejo, sem o menor pudor, como se chamasse a todos nós de otários, ciente, tenho convicção, da impunidade. Um dado, para ilustrar: o procurador da República, Travavam Feitosa, disse que o Ministério Público apura desvios de recursos públicos federais em 122 das 244 prefeituras do Piauí. É de estarrecer!

Não posso, noutro giro, deixar de indignar-me com os gastos que são feitos nos pleitos eleitorais. É uma afronta, um desrespeito aos cidadãos que pagam impostos, sobretudo porque sei – sabemos todos, afinal –  de onde sairá o dinheiro para  cobrir os gastos de campanha, afinal, seria uma rematada tolice supor que alguém faça doações a troco de nada, por ideologia ou em face dos belos olhos ou do sorriso cativante do candidato, convindo consignar que há, sim, exceções, conquanto não sejam muitas.

Diante desse quadro  ninguém diz,  ninguém faz nada.  Parece até que tem que ser assim mesmo, que está tudo bem, que não há meios de se coibir esses abusos. E parece que não há mesmo.  Fico com a impressão, diante de tanta inércia, de tanta acomodação, que estamos todos anestesiados, que essas questões, de tão  banalizadas, já não afetam a mais ninguém. É de causar insônia!

E o dinheiro da saúde? O dinheiro da saúde se esvai, também, no ralo da corrupção (vide caso FUNASA) e nada acontece. Quando muito vem a público um ou outro político dizer que tudo será apurado e que os responsáveis serão punidos. Pura enganação, deboche, falta de respeito. Tudo ficará como está. Ninguém será punido. Como não se indignar?!

O que todos testemunhamos, estarrecidos, a quase doer,  é que as pessoas morrem nas filas dos hospitais em busca de atendimento, como conseqüência do dinheiro desviado; dinheiro que faz a felicidade de uns poucos, em detrimento da maioria. Essas mesmas pessoas – que nomino vítimas do desprezo estatal – , quando, enfim, conseguem ser “atendidas”,  são jogadas nos corredores dos hospitais públicos,  como se fossem de uma sub-raça, uma subespécie,  como se pobre não tivesse sentimento, não sentisse dor, não chorasse a morte de um parente ou de um amigo, como se, enfim, não fosse digno  de respeito. Como não se revoltar?!

As desditas, os desmandos não param por aí. Nesse sentido, importa  destacar o gravíssimo problema  habitacional, que favorece a ocorrência de tragédias como a que testemunhamos,  contristados e revoltados,  no Rio de Janeiro. Todos  os anos é assim, as pessoas humildes, sem onde morar,  por pura falta de vontade política( gasta-se mais com reconstrução que com prevenção), sobem os morros, constroem seus casebres, enfrentando toda sorte de dificuldade, para, depois, com as primeiras chuvas,  ver seu sonho, sua vida e sua história levados numa enxurrada.  É que, nesses casos, as enxurradas não se limitam a levar a casa, a moradia, o abrigo, fisicamente considerados. Elas  levam, também, toda uma história de vida, o resultado de muito labor, o suor derramado, as noites insones,  os calos nas mãos, os sonhos sonhados, os projetos de vida, as perspectivas e as expectativas de uma vida melhor e mais digna. Com as águas das chuvas de verão são levados, na mesma balada, as  fotografias da família, os(poucos)  brinquedos dos  filhos,  a muda de roupa e o sapato engraxado, guardados  para as ocasiões especiais. O sofá que reunia a família em torno da televisão, a carteira de trabalho com o registro  do primeiro emprego,  a mesa de jantar onde degustaram o que era possível num mundo tão desigual, as cartas recebidas dos parentes distantes, as lembranças do casamento e dos tempos de namoro, os presentes, a bandeira do time de coração, o troféu conquistado nos campos de várzea, as (poucas) economias sob o colchão da cama, a própria cama, que testemunhou momentos de entrega, os projetos de vida e a frustração de não poder realizá-los, também são levados pela inclemente enxurrada. Por culpa de quem?!

“Feliz” de quem, diante de uma tragédia como essa que se abateu sobre o Rio de Janeiro, testemunhou serem levados pelas águas da chuva “apenas” a casa, os utensílios domésticos e  parte da sua história, permanecendo vivo para tentar reconstruir a sua vida –  do zero, do nada, do que não restou, do pouco, do quase nada que ficou. E os responsáveis por essa situação, como ficam?!

Eu não sei encarar com indiferença esses fatos. Eu me entrego,  me indigno, me revolto, tomo as dores dessas pessoas, conquanto entenda que nada possa fazer, mesmo porque os que podem fazer nada fazem, cruzam os braços, agem sempre pensando no seu próprio futuro e no bem-estar dos seus e dos que estão muito próximos dos seus. É isso aí. É assim mesmo, sem tirar nem pôr. É assim mesmo que agem os nossos homens públicos, salvante, claro, a exceções que confirmam a regra.

E o amanhã, como vai ser? No próximo verão teremos a resposta.  Esperem pra ver.

Eu passaria um dia relatando as coisas que me causam indignação. Não vou fazê-lo agora, entretanto, porque preciso dar uma pausa para voltar a ser feliz, até a próxima notícia que me infelicitará outra vez.

Para   que não se dê a esta crônica a dimensão que não tem, anoto que o magistrado é, antes de tudo, um cidadão, e como cidadão tenho o direito de expor as minhas inquietações, com o que,  consigno, não afronto nenhuma  norma de conduta.

? É desembargador do Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão

Blog: WWW.joseluizalmeida.com

E-mail: jose.luiz.almeida@globo.com

Minha casa, minha história

Abaixo excertos da crônica que publicarei no próximo domingo, no Jornal Pequeno.

“[…]Todos os anos é a mesma coisa: as pessoas humildes, sem ter onde morar,  por pura falta de vontade política, sobem os morros, constroem seus casebres, enfrentando toda sorte de dificuldade, para, depois, com as primeiras chuvas,  ver seu sonho, sua vida e sua história levados numa enxurrada.  É que, nesses casos, as enxurradas não se limitam a levar a casa, a moradia, o abrigo (fisicamente considerados). Elas  levam, também, toda uma história de vida, o resultado de muito labor, o suor derramado, as noites insones,  os calos nas mãos, os sonhos sonhados, os projetos de vida, as perspectivas e as expectativas de uma vida melhor e mais digna no porvir.

Com as águas das chuvas de verão são levadas, na mesma balada, as  fotografias  que testemunharam os raros momentos de felicidade pelos quais passaram os que hoje choram a dor da perda, a roupa branca usada no casamento, a camisa listrada, a calça jeans e o sapato  guardados  com desvelo para as ocasiões especiais, o sofá que reunia a família em torno da televisão, a carteira de trabalho com o registro  do primeiro emprego, as cartas recebidas dos parentes distantes, as lembranças dos tempos de namoro, os brinquedos adquiridos com dificuldades para os filhos, os presentes, a bandeira do time de coração, o troféu conquistado nos campos de várzea, as (poucas) economias sob o colchão da cama, a própria cama,  o próprio colchão, que tantas vezes testemunharam  momentos de entrega, os planos feitos e a frustração de não poder realizá-los[…]”.

Atenção: a redação ainda pode ser alterada.

O ser humano e suas contradições

Os larápios ( rectius: politícos)  surrupiaram da saúde (rectius: FUNASA) o equivalante à verba necessária para reparar os danos causados pela catástrofe que  se abateu sobre a Região Serrana do Rio de Janeiro.

Larápios de igual matiz estão desviando parte das  doações feitas aos desabrigados e desalojados da mesma Região.

Gatunos travestidos de comerciantes se valem da situação proporcionada pela tragédia  para quadruplicar os preços dos produtos.

Homens de bem se unem para salvar homens e animais (gatos, cachorros, etc)

Homens da melhor estirpe esquecem os seus problemas pessoais para se unirem aos voluntários que cuidam dos que ficaram sem ter onde morar e  do que se alimentar.

A maioria, a quase totalidade do povo brasileiro se solidariza com os nossos irmãos atingidos pela tragédia.

Uma minoria desqualificada age como sempre agiu: como oportunista.

É a vida. O ser humano é assim mesmo.

Uns ajudam; outros atrapalham. Uns destroem; outros constroem.

Desde que o mundo é mundo que as coisas fluem dessa forma.

E viva aos homens de bem.

O que se espera de um homem público

O homem público, sobretudo, não pode ser insensível. Se não tiver sensibilidade, não pode ser homem público.

A propósito, o então presidente do Estados Unidos, George W. Bush, por ocasião  das enchentes causadas pelo furacão Katrina, que matou 1.826 pessoas, em Nova Orleans,  limitou-se a sobrevoar a área, a bordo do Force One, deixando entrever, a primeira vista,  a sua falta de compromisso para com as vítimas.

Agora, em sua autobiografia ( Decison Points), ele  se penitencia:

“A imagem de eu pairando acima da devastação sugeria um descolamento do que as pessoas estavam sofrendo. Não era como eu me sentia. Mas, uma vez que a opinião pública estava formada, eu não poderia mudá-la”.

Compreendo que as autoridades, diante de questões que tais, têm o dever de sair do conforto do ar condicionado para ir onde o povo está. Isso mostra, no mínimo, sensibilidade e compromisso com a causa.

É inconcebível que uma autoridade, diante de uma catástrofe, não se digne a, pelo menos, mostrar a cara, para dizer ao povo que está com ele solidário.

Os exemplos de solidariedade não podem ser dados apenas pelas pessoas mais humildes, como tem sido a regra.

Se é verdade, como dizia Silvio Romero – de quem ouso discordar – , que o homem não pode ser coagido a praticar o bem e que não é dever do Estado suprir a miséria, não é menos verdadeiro que do homem público se espera que uma força interna o impulsione para fazer o bem, para minimizar os efeitos das tragédias que decorram dos fenômenos naturais, para  demonstrar solidariedade e dar um pouco de  esperança ao povo que o elegeu para dirigir os seus destinos.

O que não quero para mim não desejo para ninguém. Verdade?

Superado um desafio ou vencida uma dificuldade, costuma-se dizer:” que passei não desejo ao meu  maior inimigo”  ou ” o que não quero para mim, não desejo pra ninguém”. Verdade absoluta? Não! Claro que não! Há exemplos vários a demonstrar que, muitas vezes,  essas afirmações são  apenas força de expressão.

Mas há, sim, os que, tendo passado por uma dificuldade,  fazem de  tudo para que o semelhante não tenha que enfrentar os mesmos desafios. Eu, por exemplo, tendo  enfrentado sérias dificuldades em face da ausência do meu pai, procurei sempre me fazer presente na vida dos meus filhos. Acho que, em face do que sofri, eu até exagero. Mas, tudo bem! Os meus exageros são plenamente justificados pelo amor intenso e incondicional que lhes dedico.

Noutro giro,  não se há de negar, há pessoas que,  apesar das dificuldades passadas, são capazes de infligir aos semelhantes as mesmas  penas, os mesmos castigos, sem que se saiba ao certo a título de que preferem repetir o erro que condenaram, ao invés de seguir em outra direção.

Por volta de 1830, o escravo José Francisco dos Santos,  depois de anos de trabalho forçado, viu-se livre da escravidão. Conseguiu a sua carta de alforria, comprando-a ou ganhando de algum amigo rico.

José Francisco dos Santos, o “Ze Alfaiate”, apelido que ganhou porque cortava e costurava tecidos,  foi trazido da África para o Brasil,  amarrado, em um navio imundo, na mais tenra idade.

Depois de alcançar a sua liberdade, o que fez “Ze Alfaiate”?  Lutou contra a escravidão? Condenou os que lhes infligiram intensos castigos?  Não. José Francisco, ao invés, voltou à África e tornou-se, ele próprio,traficante de escravos.  Casou-se depois com uma das filhas de Francisco Félix de Souza, o maior vendedor de gente da África atlântica, e passou a mandar ouro, negros e azeite de dendê  para vários portos da América e da Europa.

Difícil entender?  Acho que não. Do ser humano pode-se esperar qualquer coisa. Infelizmente!