Depois não digam que não avisei

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Estou correndo contra o tempo, em face da Meta II. Mas não por culpa minha e de meus funcionários. Por culpa, sim, de quem, infelizmente, parece não ter apego pelo trabalho.

Estou de licença e deixei uma excepcional colega respondendo pela 7ªVara. Contudo, ainda assim, com a permissão dela, estou indo todos os dias acompanhar de perto a tramitação dos processos da Meta II, cujas instruções praticamente já encerrei. Há apenas dois processos carecendo de diligências. Todavia, não consegui julgá-los, antes da licença, porque em vários deles não foram ofertadas as alegações finais, apesar do prazo extrapolado.

Não vou deixar barato. Se eu não atingir a Meta II por culpa de alguém, vou dar o nome aos bois. E não me importa a repercussão. E não me importo de perder a amizade. O meu trabalho é mais importante do que a amizade que eventualmente nutra por alguém. Existindo conflito entre os dois, opto pelo trabalho. Não faço cortesia com o meu trabalho. Todos sabem disso. Eu tenha consciência da relevância do que faço.

Estou em casa, agora, aguardando as famigeradas alegações finais, pois assumi o compromisso, comigo mesmo, de julgar os processos da Meta II mesma estando de licença, muito embora só vá publicar as sentenças no meu retorno, dia 17 de dezembro.

Vou repetir: não vou tolerar a omissão de ninguém: seja Ministério Público, seja advogado. Se a Meta II não for alcançada por culpa de alguém e se essa culpa se traduzir em desvio de conduta, vou denunciar

Depois não digam que não avisei. Depois não digam que sou arrogante. Depois não digam que sou criador de caso. Eu só quero trabalhar.

Por favor, não me atrapalhem mais.

E duro querer fazer e não poder, em face da falta de compromisso de alguém.

Infelizmente, se a Meta II não for alcançada, ninguém dirá que foi por culpa do Ministério Público, por exemplo. Dirão, simplesmente, que o juiz da 7ª Vara Criminal foi omisso.

Eu tenho nome e tenho honra. Eu não aceito a omissão de quem quer que seja.

Ontem à tarde mandei a relação de processos que estão carentes de alegações finais ao Corregedor-Geral de Justiça. Espero que ele interfira junto a quem de direito para solucionar o impasse.

Depois não digam que não avisei.

Baseado em fatos reais

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Assalto a coletivo

Karência de Oliveira saiu de casa no dia 15 de novembro de 2005, disposta a fazer qualquer coisa para conseguir dinheiro para gastar consigo e com sua filha.

A filha de Karência, Sonhadora de Oliveira, cansada de tanta miséria, de tanta restrição, queria ter o prazer de degustar um sandwiche no McDonald’s, local que nunca teve acesso e que, quiçá por isso, lhe despertava tanta curiosidade.

Decidida a satisfazer o desejo de sua única filha, Karência saiu de casa com uma faca na mão, disposta  qualquer coisa . Lhe veio logo à mente a possibilidade de um assalto. Um assalto, sim. E por que não?

Karência não estava preocupada com as consequências de sua ação. Só pensava no quão prazeroso seria sentar, com sua filha, no Mc Donald’s do Renascença, e degustar um apetitoso Sheda.

-Daqueles mãe, que tem o queijo amarelo que sai pelas beradas.

Para filha de Karência,  seria como a realização de um sonho.

Karência  poderia, sim, ter procurado uma casa de família para, por exemplo, lavar roupas, passar ou fazer limpeza. Mas ela vivia cansada do dinheiro contado. Sua filha, já mocinha, queria roupas, aparelho celular, sandálias – e , mais grave, tinha um desejo que já não podia mais esperar e que, afinal, não era de difícil realização.

-Mãe, um Sheda, mãe. Isso é tão caro assim – constumava implorar.

Não dava mais pra segurar. Karência entendeu que era hora de agir. Estava decidida: um assalto resolveria os seus problemas mais urgentes. Afinal, pensou, as notícias davam contas de assaltos altamente rentáveis. É verdade que quase não se ouvia falar em mulher assaltante. Isso era que de menos importava, afinal, uma pessoa armada, pode ser um homem ou uma mulher, será sempre temida.

Com essa determinação, por volta das 08h00 do dia 15 de novembro, numa clara manhã de sol, vestiu uma roupa simples (saia e blusa) e, com uma faca na cintura, entrou no ônibus da empresa Santa Clara, prefixo 6607, que dá acesso ao Terminal da Integração do Maracanã.

No interior do coletivo, ainda hesitou. Mas, na mesma hora, decidiu que não podia recuar. Pensava na felicidade de sua filha. Isso bastava.

– O resto é resto, pensava. O que importa mesmo é realizar o desejo de minha filha – pensava,  decidida.

Com essa determinação, dirigiu-se à cobradora, sacou da faca – uma faca de mesa – , colocou-a sobre o seu pescoço e anunciou o assalto. Maria dos Aflitos da Silva,  com medo de morrer, limitou-se a entregar a féria à Karência.

Parecia tudo muito fácil. Mais fácil do que imaginara, inicialmente.

Alguns metros depois, ela pediu parada e desceu, certa de que tinha logrado êxito na empreitada. Em seguida, tirou o dinheiro que colocara sob o sutiã, e passou a contá-lo, ao mesmo tempo em que fazia planos mirabolantes, sem ter a menor ideia do que viria a seguir.

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-Korajoso dos Santos, aquela senhora acabou de me assaltar – disse Maria dos Aflitos ao motorista do coletivo.

-Que arma ela utilizou? – indagou o motorista.

-Uma faca – respondeu Maria dos Aflitos.

Korajoso dos Santos não teve dúvidas: desceu do coletivo, se armou com pedras e passou a jogá-las contra a autora do crime.

Karência, decidida a assegurar, de qualquer forma, o resultado da empreitada criminosa, atracou-se com Korajoso dos Santos e desferiu nele uma facada, saindo em desabalada carreira. Todavia, ela não contava com a reação dos populares, os quais, em solidariedade a Korajoso dos Santos – que permanecia caido, sangrando muito – ,  saíram em perseguição da desditosa Karência, que só não foi linchada porque se homiziou na residência de um desconhecido

Em face do crime que praticou , Karência foi condenada a 05 (cinco) anos e 04 (quatro)meses de reclusão, vindo por esse motivo a perder a guarda da filha, que foi embora com uma família para outro Estado da Federação e de quem nunca mais teve notícia.

Refletindo sobre o desfecho de sua mal sucedida empreitada, Karência disse para suas amigas de prisão, que só praticara aquele assalto pelo fato de conhecer vários casos de pessoas que cometem crimes e nada tinha acontecido; daí, imaginou que com ela não seria diferente.

A Karência só restou mesmo lamentar diariamente a sua infelecidade,  e repetir para suas colegas de infortúnios:

-Eu tenho certeza de que só fui presa e condenada porque sou pobre. Se eu tivesse dinheiro, é claro que eu não estaria mais aqui. Aliás, eu não teria sequer sido processada. Fazer o quê? Numa Justiça como a nossa, voltada apenas para os miseráveis, eu é que me enganei ao supor que nada me aconteceria.

Para outra amiga de cela, ela disse, amargurada:

– Essa foi a última vez que me envolvi com crimes. Eu vou deixar isso só pros bacanas. Com eles nada acontece. Eu não sou eles. Eu sou eu: pobre,  preta, feia… Não podia mesmo escapar das mãos da Justiça.

-Além da minha liberdade – disse Karência –,  perdi o meu bem mais precioso: a minha filha, cujo paradeiro desconheço.

Os personagens dessa história são fictícios, mas ela , além de verdadeira, retrata muito bem o que é a Justiça Criminal em nosso país.

Justiça em ação

IMAGEM-THEMISNós, juízes, de regra, não prestamos contas da nossa produtividade a ninguém. A gente até envia uns relatórios à Corregedoria. Todavia, ao que saiba, ninguém é instado a justificar as razões de uma baixa produtividade. E ainda que isso eventualmente ocorra, tenho certeza de que não haverá nenhuma consequência prática. Os vencimentos, com efeito, serão pagos, integralmente. E, mais grave ainda, o juiz com baixa produtividade pode, sim, até ser promovido por merecimento. Sempre foi assim e, acredito, assim tem sido até hoje. Talvez essa seja uma das muitas razões da nossa falta de credibilidade. Mas não será assim eternamente. É verdade que, aqui e acolá, malgrado todas essas incoerências, há, sim, os que são promovidos porque efetivamente o façam por merecer. Mas não é a regra.

Compreendo, contudo, que juiz não pode prestar contas apenas à sua consciência. É por isso que tenho usado o espaço que me proporciona a internet para, de certa forma, prestar contas das minhas ações, enquanto magistrado.

Tal como prometido, e nessa linha de compreensão, registro que, nesse feriadão, julguei os processos da relação abaixo, da famigerada Meta II, conquanto esteja gozando de licença prémio.

Espero que o leitor receba essas informações na sua exata dimensão, qual seja, como uma humilde prestação de contas de um servidor público.

Das decisões apanhei apenas o dispositivo, pois o objetivo é, tão-somente, comprovar, com dados fidedignos, o que estou afirmando..

1-Processo nº 167082003

Tudo de essencial posto e analisado, julgo improcedente a denúncia, para, de consequencia, absolver o acusado Josenilton Silva Moreno, devidamente qualificado, o fazendo com espeque no artigo 386, VII, do Digesto de Processo Penal.

2-Processo nº 216572002

Tudo de essencial posto e analisado, declaro, por sentença, extinta a punibilidade do acusado Severiano Pereira de Freitas, brasileiro, solteiro, desempregado à época do fato, filho de Benedito Gomes da Rocha e Maria Merce Pereira de Freitas, residente e domiciliaod na Rua 12, quadra 56, casa 06, Cidade Olímpica, o fazendo com espeque no inciso IV, primeira figura, do artigo 107, e inciso V, do artigo 109, ambos do Código penal.

3-Processo nº 207992003

Tudo de essencial posto e analisado, declaro, por sentença, extinta a punibilidade do acusado Ivaldo Barbosa Pereira, brasileiro, solteiro, pedreiro, filho de Basílio Braga Pereira e Maria das Mercês Barbosa Pereira, residente e domiciliado na Rua da Jaqueira, nº 29, Vila Lobão, o fazendo com espeque no inciso IV, primeira figura, do artigom107, e inciso V, do artigo 109, ambos do Código Penal.

4-Processo nº 66162005

Tudo de essencial posto e analisado, provadas a existência do crime e a sua autoria, julgo procedente a denúncia, para, de conseqüência, pronunciar o acusado N. R. F. F., vulgo “Moreno”, por incidência comportamental no artigo 121, c/c o artigo 14, II, ambos do Digesto Penal, tudo de conformidade com o que estabelece o artigo 413 do Digesto de Processo Penal, para que seja submetido a julgamento perante o Tribunal do Júri.

5-Processo nº 191192005

Tudo de essencial posto e analisado, provadas a existência do crime e a sua autoria, julgo procedente a denúncia, para, de conseqüência, pronunciar o acusado D. A., vulgo “Duca”, devidamente qualificado, por incidência comportamental no artigo 121,§2ºII, do do Digesto Penal, tudo de conformidade com o que estabelece o artigo 413 do Digesto de Processo Penal, para que seja submetido a julgamento perante o Tribunal do Júri.

6-Processo nº 55332003

Tudo de essencial posto e analisado, provadas a existência do crime e a sua autoria, julgo procedente a denúncia, para, de conseqüência, pronunciar o acusado J.S.G., acima qualificado , por incidência comportamental no artigo 121, c/c o artigo 14, II, ambos do Digesto Penal, tudo de conformidade com o que estabelece o artigo 413 do Digesto de Processo Penal, para que seja submetido a julgamento perante o Tribunal do Júri.

Vou cintinuar julgando. Faltam poucos processos da Meta II.

Voltarei com nova prestação de contas.

Lorotas de um bufão

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Reconheço que sou quase o caso perdido de obsessão pelo trabalho.

Mas já nem gosto de tratar desse assunto, pois pode transparecer pura arrogância.

As pessoas, muitas vezes, não compreendem que trabalhar é apenas uma obrigação e que quando faço esse tipo de registro objetivo apenas prestar contas das minhas ações, enquanto servidor público.

Estou de licença, todos já sabem. Todavia, ainda assim, estou ligado, preocupado com o trabalho. Esse é, talvez, o mais graves dos defeitos que tenho. Eu só me afasto do trabalho materialmente.

Mas que fique consignado, com a devida ênfase: não me regozijo e nem sou feliz por ser assim. Ao reverso, me penitencio, me autoflagelo, algumas vezes.

Eu bem que podia ser diferente, depois de tantas “porradas” que já levei.

Mas não tem jeito! Não arredo o pé!

Quando estou de férias – ou de licença, como estou agora – fico sempre com a sensação de que falta alguma coisa, que não deveria ter me afastado, que me descurei de minhas obrigações.

Hoje, pela manhã, ainda há pouco, como prova da minha obsessão, da minha inquietação, liguei para o meu gabinete e me fiz ciente da situação dos processos da Meta II que ainda aguardam providências.

Conversei com a analista e a secretária e me cientifiquei de tudo. Mas ainda não estou em paz. Eu quero saber mais, muito mais.

É por isso que, apesar de cientificado de tudo, ainda assim entendi devesse verificar, pessoalmente, a quantas andam os processos ainda pendentes de solução.

Amanhã, pela manhã, muito cedo, para dar vazão a esse sentimento de culpa que quase me atormenta, estarei no fórum, tomando pé da situação, em face da famigerada Meta II.

Eu não tenho dúvidas: apesar de estar afastado, minha mente só sossegará quando eu constatar que foram julgados todos os processos da Meta II. Eu sou assim. Infelizmente!

É compromisso assumido: à medida que forem chegando as alegações finais, vou trazer os processos – da Meta II – para casa, para julgá-los, cujas decisões, por óbvias razões, só serão publicadas no dia 17 de dezembro, data do encerramento da minha licença.

O prazo para que se cumpra a Meta II, todos sabem, é 31 de dezembro. Até lá, tenho certeza, todos os processos serão julgados, ainda que, em face disso, tenha que sacrificar os meus dias de licença.

Devo sublinhar que não estou em busca de reconhecimento. Assim o faço por dever de ofício. É a minha consciência que me impõe, que me conduz, que me leva a ser assim.

Claro que para os que não me conhecem, tudo isso pode parecer bravata. Os que me conhecem, no entanto, sabem que sou assim mesmo.

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Indagar-se-á, todavia:

Mas há necessidade de fazer o registro?

De rigor, respondo que não. Claro que não precisava fazer o registro.

E por que o faço, então?

É que nós, magistrados, somos tão mal-amados, somos tão malvistos, mal-afamados, malconceituados, que, muitas vezes, sinto necessidade de demonstrar que não somos – a grande maioria, pelo menos – todos iguais.

Claro que tudo isso pode parecer bobagem. E é mesmo uma bobagem.

Mas quem disso que não sou um bobo?

É possível ler o que acabo de escrever sem ter a sensação, pelo menos, de estar ouvindo lorotas de um bufão?

O distante sonho da igualdade

IMAGEM-SONHO

Diálogo com professora de política Chen Shulian, nas aulas que tratavam da história do comunismo e das idéias políticas de Mao-Tse-Tung:

-Nosso chefe Mao foi o único a colocar em prática a filosofia comunista de Marx. Ele vai nos levar ao primeiro estágio do comunismo – disse, certa feita, aos seus alunos, dentre os quais Li Cunxin

-Estamos chegando ao primeiro estágio do comunismo? – quis saber um aluno.

-Sim, mas a estrada é longa. Ainda temos muito o que trabalhar.

-Qual o estágio final do comunismo? – perguntou outro anluno.

-Ah, é o definitivo país das maravilhas! Não há fome, nem distinção entre as classes, nem longas horas de trabalho. A igualdade é total. Todos trabalham com afinco e dividem os ganhos igualmente. Não há ganância nem preguiça. Não há fraudes nem injustiças. Todos têm o melhor. É a completa felcidade!

Não custa nada sonhar.

Folgança

A partir de terça-feira, dia 03 de novembro, estarei usufruindo de 45(quarenta e cinco) dias de licença-prêmio. Todavia, o que para muitos é uma mera folgança, momento da mais rigorosa relaxação, para mim parece um martírio.

É sempre muito difícil, para mim, me afastar do meu trabalho.

Digo com sinceridade: não sei como sobreviveria se não pudesse estar todos os dias, pela manhã e pela tarde, no Fórum despachando, julgando, ouvindo…cumprindo a minha obrigação, enfim.

Não sei o que seria da minha lucidez se olhasse para os lados e não visse nenhum processo para julgar. É por isso que, mesmo de licença, estou levando para casa (não é comendável, mas faço) vários processos para julgar neste período, sobretudo os da chamada Meta II, que estão aguardando apenas as alegações finais das partes. Parece estranho, mão não o é todavia. Eu quero julgá-los! Eu quero cumprir esse desafio!

Afastar-me do trabalho tem lá as suas compensações, pois, afastando-me, repenso a minha a minha vida, a minha história, a minha luta – quase inglória, decerto solitária – por uma sociedade mais fraterna e justa.

Pensando e repensando, vou deixando fluir a minha imaginação. Vou vendo onde errei, onde acertei, se devo mudar de rumo, sem mudar a minha história.

Nesse exato instante penso em algo que não gosto de pensar: promoção. Mas tenho que pensar, pois, a cada dia, ela se faz mais iminente.

Mas, convenhamos, vale a pena, no meu caso, desamado como sou, pensar em promoção? Será que, sendo promovido, me realizarei ? Uma pessoa com a minha personalidade, solitária, algumas vezes, até, individualista, saberá conviver com tantos contrários? Estou preparado, aos cinquenta e seis anos, para esse desafio?

Importa dizer, nessa linha de pensar, que, para mim, ser promovido, ou não, nos dias atuais, é indiferente. Diferente de muitos, o poder não exerce fascínio sobre mim. Por isso, não sou capaz de fazer qualquer coisa para ascender. Eu deixo as coisas acontecerem. Eu, tenho que admitir, não sei jogar o jogo do poder. Disputar, avançar, ascender significam para mim o mesmo que negociar, fazer concessões, se incompatibilizar, perder a paz…morrer um pouco, enfim.

Mas vamos lá! Vamos jogar esse jogo, sem perder a personalidade, sem ser a qualquer custo, de qualquer maneira, sob quaisquer condições.

Por que nós, magistrados, somos tão odiados?

Antes do tema para reflexão, uma observação e um apelo.

Meu blog tem sido acessado, mensalmente, por cerca de oito mil internautas. Os internautas, inobstante, quase não deixam comentários. Muitos preferem enviar as suas opiniões para os meus e-mails.

Em face das reflexões que faço a seguir, eu preciso que respondam algumas das indagações que faço, até mesmo para que se possa diagnosticar as razões pelas quais somos tão detestados.

Saber o que pensa o internauto sobre a magistratura do nosso Estado é muito importante, para que possamos reavaliar os nossos conceitos.

Leia, pois, a matéria a seguir publicada e deixe sua opinião.

IMAGEM - JUSTIÇA

Confesso que me preocupa, a quase doer, o ódio, o desprezo que a população parece nutrir pelos magistrados, especialmente pelos desembargadores.

Todas as vezes que se noticia um deslize, uma má conduta, desse ou daquele magistrado, o povo se manifesta, nos mais diversos veículos de comunicação, de forma desrespeitosa, afrontosa, como se fôssemos todos bandidos, gentalha da pior espécie.

Por que será que isso acontece? Afinal, se somos tão relevantes para sociedade, se prestamos um serviço tão singular para a sobrevivência da sociedade, por que nos tratam com tanto desprezo?

Onde erramos? Onde está a nossa omissão? O que podemos fazer para reverter esse quadro?

Acho, sinceramente, que está na hora de nos reunirmos para avaliar essas questões.

Parece-me que precisamos, urgentemente, mudar a nossa imagem junto aos jurisdicionados. Todavia, para mudar o rumo, é preciso perscrutar, ouvir, refletir, reavaliar os nossos conceitos. É necessário, enfim, detetar onde está a nossa falha, qual o nosso pecado.

Precisamos nos reunir, sob a coordenação da Associação dos Magistrados, urgentemente, pra ontem, pra já, agora, sem mais tardança , para lavar a roupa suja, assumir os nossos erros, admitir as nossas omissões, para que voltemos a ser respeitados pela sociedade.

É preciso perquirir, avaliar, com a necessária humildade, por que somos tão pisoteados pela sociedade, para, a partir de um diagnóstico sério, repensar a nossa postura.

Não dá mais para esperar.Precisamos rever as nossas posições, com a necessária humildade.

O que há em nós – volto a indagar, preocupado – que tanto afronta a sociedade,?

Por que, sobretudo os desembargadores, são tão mal falados, são tão odiados?

Por que se diz, com tanta frequencia, com tanto deboche e escárnio, que os desembargadores são privilegiados e, no mesmo passo, despreparados intelectualmente?

Por que se argumenta, com tanta veemência – e maldade – que os desembargadores – assim mesmo, genericamente, sem exceção, o que é um despautério – não sobreviveriam não fosse o seu séquito de assessores?

Isso, para mim, é pura tentativa de diminui-los, exatamente porque são vistos com muita reserva. Agora, por que são vistos com tanta restrição é que são elas.

Volto a indagar: Por que se diz, com tanta sofreguidão, que somos parasitas do estado? Por que não nos respeitam? O que fizemos para merecer esse tratamento, tanta descortesia? Por que nos desprezam? Isso decorreria da ostentação de uns poucos? Será que já não é hora de o carro preto, por exemplo, símbolo de uma ostentação démodé, sair da ribalta?

Por que tantos reclamam, pelos corredores do Forum, da descortesia de determinados magistrados?

Por que se comenta, com tanta sofreguidão, que juiz gosta de humilhar as pessoas, sobretudo os funcionários? Isso é fato ou é ficção?

Nós temos que encontrar respostas, urgentemente, para essas questões.

Nós não podemos mais nos mostrar indiferentes em face do desprezo e do desrespeito com que nos tratam.

A sociedade nos cobra, a nossa consciência exige uma tomada de posição.

Para não ser respeitado, para ser pisoteado, para ser apontado como um marginal togado – ou um togado despreparado -, em face da ação descomprometida de alguns, prefiro sair de cena; antes,porém, concito os colegas a uma profunda reflexão sobre o que acabo de expor – preocupado, muito preocupado.

Para não esquecer

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Publico, a seguir, excertos do envolvente – e deprimente – livro Adeus, China – O Último bailarino de Mao (Editora Fundamento,, páginas 73 e 74, 2007), de memórias de Li Cunxin, que saiu da pobreza e da miséria na China de Mao para ser um dos maiores bailarinos do mundo.

Li Cunxin nasceu em 1961, em Vila Nova, na Comuna de Li, perto da cidade de Qingdao, costa nordeste da China. O sexto de sete filhos em uma família pobre da área rural, Li viu sua vida de camponês na China Comunista de Mao mudar drasticamente quando, aos 11 anos de idade, foi escolhido pelos conselheiros culturais de madame Mao para estudar na Academia de Dança de Pequim. Depois de um curso de verão nos Estados Unidos, para o qual foi um dos dois únicos selecionados, desertou para o Ocidente, tornando-se o primeiro bailarino do Houston Ballet.

Abaixo o excerto, do qual se extrai quão nefasta pode ser uma ditadura – de direito, de esquerda ou de centro. Pouco importa. Ditadura é ditadura.

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  • “[…]Até o respeitável chefe da vila foi acusado de contra-revolucionário .Eu e meus irmãos vimos quando um grupo de acusados teve de percorrer a vila com pesados quadro-negros pendurados no pescoço e chapéus de papel branco na cabeça. Cada um tinha os crimes anotados a giz no quadro e o nome escrito no chapéu. Deviam ficar de pé sobre uma plataforma armada no centro da praça da comuna e confessar seus crimes à multidão reunida em volta. Fomos lá para olhar. Os oficiais e guardas vermelhos distribuíram folhetos de propaganda. O barulho feito pela multidão era terrível. Usando um megafone, um homem gritava slogans incessantemente. As pessoas riam e zombavam. Durante a confissão, o acusado tinha de baixar a cabeça e se desviar dos objetos contra ele. Cabeça erguida sinal de arrogância, teimosia ou definitiva contaminação pela corrupção capitalista. O acusado nunca estava certo: se falava baixo, era agredido e acusado de esconder alguma coisa; se falava alto, era agredido do mesmo jeito e acusado de “atitude ostensiva típica de latifundiários”. Suas confissões eram quase sempre interrompidas pelo homem do megafone, que gritava slogans revolucionários, como “Derrubem e matem os capitalistas!”, ou “Não permitam a volta de Chiang Kaishek e dos latifundiários”, ou ainda “Não se esqueçam da vida cruel de antigamente e lembrem-se da doce vida da nova China!” E, é claro, havia os intermináveis brados de “Vida longa ao chefe Mao! Vida longa ao chefe Mao!”. Os revolucionários puxavam constantemente a cabeça dos contra-revolucionários para trás, humilhando-os ainda mais. Com isso, às vezes, o chapéu caía, deixando à mostra a cabeça raspada – o que faziam para evitar que fossem puxados pelos cabelos[…]”

Outro excerto, com a mesma finalidade:

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  • “[…]Durante a Revolução Cultural, assisti a muitos desfiles e reuniões. Os guardas vermelhos diziam estar eliminando os inimigos da classe, o que incluía donos de terras, proprietários de fábricas, homens de negócios bem-sucedidos, membros do Partido Guomindang e oficiais do exército, intelectuais e qualquer um que pudesse representar uma ameaça ao governo comunista. Mas houve uma situação cuja simples lembrança até hoje faz meu coração sangrar. Era um grupo grande. Como sempre, eu e os colegas fomos atrás. Ouvimos o líder comunista ler as sentenças de cerca de quinze donos de terras, proprietários de fábricas e contra-revolucionários. Em seguida, foram todos embarcados em um caminhão. De longe, viam-se os chapéus brancos pontudos com os nomes escritos em tinta preta e riscados por uma grande cruz vermelha. Foram todos levados para um campo nas proximidades. Apesar das recomendações dos adultos, eu e meus colegas seguimos o caminhão, correndo o mais depressa que conseguíamos. Quando chegamos ao local, já encontramos uma multidão alvoroçada, disposta em semicírculo diante dos acusados. Era tanta gente que ninguém nos percebeu agachados, espiando entre as centenas de pernas.Vi homens de pé junto de um barranco. Alguém iniciou um contagem. Dois homens caíram de joelhos. Um deles começou a gritar; Sou inocente! Sou inocenete! Não fiz nada de errada!. Deixem-me viver!Outro gritava; – Tenho filhos pequenos! Vão morrer de fome sem mim! Tenham piedade de minha família!Então, ouvi alguém contar; Yi, er, san! ( Um, dois, três…) Armas dispararam. O ruído me cortou o coração. Espirrou sangue para todo lado. Os corpos caíram. Gritei e corri para casa o mais rápido que pude[…]”