Intimidade personalíssima

Imaginem os senhores se a nós, enquanto seres racionais, não fosse reservado um espaço privado, de intimidade personalíssima, para nele depositar, sem que ninguém se dê conta, as nossas agruras, os nossos mais cortantes  e profundos sentimentos – a saudade e o amor, por exemplo.

Imaginem como seria a vida se pudéssemos ler o pensamento das pessoas, se as pessoas pudessem, como num passe de mágica, penetrar no nosso inconsciente e ver lá depositados os nossos valores, os nossos recalques, as nossas frustrações, os nossos medos, os nossos desejos, as nossas perspectivas, os nossos sonhos, a nossa ansiedade, os nossos mais nobres sentimentos, as nossas expectativas,

Imaginem, agora, se, ademais, esse espaço, estritamente privado, além de vulnerável,  não fosse  um indiferente ao Direito.

Estar alegre

É bom estar alegre; faz bem a alma o estado de alegria.

A alegria contamina, deixa o ambiente leve.

A pessoa alegre galvaniza as atenções; o mundo em torno dela é mais colorido.

Mas a alegria, sabemos, não é uma constante.

A alegria, muitas vezes, se manifesta como um espasmo.

Não se deve, por isso, deixar de afagá-la quando ela cai no colo da gente.

Como constata Rubem Alves,  ninguém sabe produzir alegria. A alegria acontece, simplesmente.

Todavia, para que ela se manifeste, temos que preparar-lhe o ambiente, aconchegá-la nos braços, emprestar-lhe o colo, dar-lhe calor, dar-lhe as boas-vindas.

Nós podemos, sim,  contribuir para estar alegres. Para esse fim, pode ser suficiente  estar em paz com a vida, de bem com o universo.

Para estar em paz com a vida, no entanto, é preciso descomplicar, deixar a vida fluir sem interromper o curso dos acontecimentos, sem querer mais do que é possível, sem pretender ser mais realista que o rei.

Em quase permanente estado de alegria – e, por consequência, de felicidade –   uma dúvida que sempre me afligiu é saber se é possível ser  feliz quando se abriga no peito uma grande saudade.

É que a saudade, muitas vezes, dói. Se  dói, então, em tese,  seria  inviável ser feliz quando se sente saudade.

Bem, mas o importante mesmo é a constatação de que a alegria dá brilho e sentido à vida.

A pessoa alegre e esfuziante,  contamina, contagia as pessoas que estão em seu entorno.

Ao reverso, uma pessoa sorumbática, soturna, cara de poucos amigos,  torna a relação complicada, sobretudo quando não há razão para se estar taciturna  ou melancólica.

O importante para essas reflexões é a constatação definitiva de que a pessoa alegre deixa transparecer estar em paz com o universo, sente que a vida faz sentido (Rubem Alves).

Se é assim, então a minha vida tem sentido, afinal, estou bem, estou alegre, estou  feliz.

O bom profissional

O bom profissional deve fazer do estudo uma prática corriqueira, do dia a dia, como se fosse uma necessidade – para o corpo e para a alma.

O profissional que quer se fazer respeitar não pode se limitar a fingir que sabe. Não deve enfrentar teses das quais eventualmente discorde com falácias e frases de efeito, que servem apenas, quando muito, para ludibriar, para afrontar a realidade.

Não é bom fingir que sabe; o profissional tem que saber mesmo – ou, pelo menos, se esforçar para saber -, para discutir teses colocadas em tablado com o mínimo de base intelectual.

O bom profissional deve ser humilde. Não deve discorrer sobre o que não sabe, fingindo que sabe.

O bom profissional deve ser verdadeiro. Não deve admitir que sabe, sobretudo quando a sua ignorância salta aos olhos de todos.

O bom profissional deve ser altaneiro o suficiente para, diante de um embate, admitir não ter argumento para enfrentar as teses antípodas às suas.

É preciso levar em linha de conta que pensar e não dar sustentação intelectual ao pensamento, é o mesmo que não pensar, que agir como um autômato.

Para se fazer respeitar, o bom profissional não deve se limitar a repetir conceitos vagos e muitas vezes descontextualizados, desatualizados, numa embalde tentativa de transparecer que sabe o que efetivamente não sabe. Esse tipo de profissional serve de galhofa, pensa que engana, pois não tem consciência – ou finge não ter – de sua própria ignorância.

Eu, cá do meu canto, ciente e consciente das minhas limitações intelectuais – mas não me falta boa vontade e dedicação, registro – tenho procurado emitir opiniões apenas em face das matérias que tenha o mínimo de conhecimento; e, ainda assim, o faço com o espírito aberto, ciente de que, convencido da relevância dos argumentos contrários aos meus, devo, com humildade, acolher a tese que transpareça mais consentânea.

Eu não confio, eu não acredito no profissional que não estuda, que não se atualiza, que vive desplugado do pensamento contemporâneo, que não aprendeu as lições ministradas no passado, que vive no mundo da lua, com os pés fincados na terra, da qual retira apenas o fruto que lhe sacia a vaidade.

Eu não confio – ninguém confia, todos desconfiamos – no profissional que, no enfrentamento de uma tese, sem estar credenciado para esse fim, faz mero jogo de palavras, brada e reage, sem respeitar o ponto de vista do congênere, exatamente para obliterar a sua própria deficiência, sua indigência intelectual, numa tentativa malsã de mascarar a realidade.

Com a experiência que todos acumulamos, não raro flagramos esse tipo de profissional nas mais diversas oportunidades que a vida nos oferecesse.

No caso específico do magistrado, registro, ademais, não basta, tão somente, estudar, se preparar intelectualmente para o (saudável) embate de ideias. O magistrado deve, de mais a mais, colocar-se acima de qualquer suspeita; não deve aceitar pressão ou manipulação de quem quer que seja, não deve decidir aos sabor das circunstâncias, apenas para agradar, para fazer valer o poder que tem.

O magistrado, como lembra Aury Lopes, não tem que ser um sujeito representativo, posto que nenhum interesse ou vontade que não seja a tutela dos direitos subjetivos lesados deve condicionar o seu juízo.

É preciso ter em mira que a atuação do juiz não é política, mas constitucional, consolidada na função precípua de proteção dos direitos fundamentais, ainda que para esse fim tenha que adotar posição que se contraponha à maioria.

A vida é uma escola

Os dissabores, as injustiças, as mágoas e as dores fazem parte da vida.

A vida é sempre assim: há momentos de intensa felicidade e momentos de infelicidade, às vezes tão intensos quanto.

Não esperemos que a vida nos proporcione algo diferente.

Não é racional esperar que a vida nos proporcione apenas felicidade.

Os dissabores, os maus e bons momentos, a dor e o prazer, a insônia e as noites mal-dormidas,a fome e o saciamento, numa visão puramente maniqueísta, existem para que nos capacitemos para enfrentar os desafios que a vida nos proporciona.

Só mesmo vivendo e convivendo podemos nos defrontar com realidades tão díspares, para delas, com o mínimo de inteligência, sorver, apreender e aprender os ensinamentos.

É a escola da vida, dirão!

É a escola da vida, direi!

Viver sempre foi assim- e assim sempre será.

Não podia ser diferente!

Para não enfrentarmos as inquietações e os dissabores que nos afligem ao longo da nossa existência e em face da convivência com os nossos semelhantes só há uma solução: morrer, ou seja, deixar de existir.

Essa é a experiência, todavia, que ninguém que goze de sanidade mental deseja vivenciar, visto que, por pior que sejam, por mais difíceis que sejam os momentos vividos, todos nós preferimos estar vivos e com saúde para enfrentá-los.

A cada desafio, nós, alunos diletos da escola da vida, deveríamos nos fortalecer, nos imunizar, nos credenciar para novas batalhas, para novos embates, para novas conquistas.

Mas por que o ser humano que sabe que a vida não é feita só de sonhos, que a felicidade pode ser efêmera, e que, mais dia, menos dia, teremos todos que passar por momentos difíceis, verdadeiras provações, nunca está preparado para esse desafios?

Como seres dotados de inteligência, por que nos falta, muitas vezes, a compreensão de  que a vida não é só prazer, não é só felicidade?

Se a vida é uma escola, por que, então, não aprendemos?

Um facho de luz

É de Carnelutti a afirmação de que a sociedade crava em cada um o seu passado e que o processo não termina com a condenação.

É do mesmo Carnelutti a afirmação de que Cristo perdoa, mas os homens, não.

A verdade é que condenado hoje, condenado para sempre.

A sociedade não costuma perdoar quem comete crime –  e por ele é condenado.

A sociedade suporta bem, e trata até com deferência e fidalguia, os ladrões de colarinho branco, afinal, muitos deles estão muito próximos da gente e frequentam as mais esfuziantes rodas sociais.

Os miseráveis,  no entanto, além de serem a clientela preferencial do direito penal, quando alcançados pelos órgãos de persecução, ficam marcados para resto da vida, pouco importando que tenham cumprido pena, pois o seu passado será algo sempre presente, como uma marca indelével, em sua vida.

A propósito, é sempre bom, quando se reflete sobre essas questões, revisitar a literatura. Em Os Miseráveis, de Vitor Hugo, por exemplo, o protagonista, Jean Valjean, condenado por roubar pães para sua irmã e sete sobrinhos, nunca mais conseguiu se libertar do estigma, ainda que tivesse mudado radicalmente e se tornado um empresário respeitado pela sua bondade.

Mas as coisas tedem a mudar; já estão mudando, aliás. Devagar, é verdade. O importante, todavia, é que mudem.

Vejo, agora, nessa linha de pensar, que a Empresa Brasileira de Correiros e Telégrafos, vai contratar 800 detentos para trabalhar em suas unidades administrativas de todo o país, conforme Termo de Cooperação Técnica assinado entre os presidentes do Conselho Nacional de Justiça, do Sopremo Tribunal Federal e da ECT.

Segundo noticiado, esta será a maior parceria firmada pelo Programa Começar de Novo, coordenado pelo CNJ, que visa, com essas ações, prevenir a reincidência.

É uma belíssima iniciativa. Os detentos que forem beneficiados por essa parceria poderão, diferente da quase totalidade dos egressos, ter esperança de novos dias. Todavia, ainda assim, tenho certeza, o seu passada sempre restará como uma etiqueta grudada em sua testa.

De toda sorte, já se vê um facho de  luz onde antes só se via  trevas.

 

Como a moça feia na janela

Com os  cabelos brancos vem, como regra, a prudência.

A gente vai acumulando experiência e, com ela, vai compreendendo que não é bom o sectarismo.

Confesso que, muitas vezes, fui além, sim.

Confesso, no entanto, que sempre que ultrapassei o umbral da prudência, o fiz movido pelo melhor sentimento.

Eu não sei agir de má-fé, por pura maldade, para ferir suscetibilidade; longe de mim  o agir por vingança, a ação pérfida…

A verdade, inobstante, é que, aqui e acolá, às vezes sem compreender (?), terminamos por fugir do meio-termo, o que, de rigor, não é errado; acho, até, que deve ser assim mesmo, que em determinadas ocasião é preciso assumir, ir além.

Ao refletir sobre o que creio e acredito – muitas vezes radicalizando (radicalizar aqui empregado no melhor sentido) – não o faço para  atingir quem quer que seja; eu apenas acredito e digo, porque entendo que as pessoas têm que ter coragem de se expor, de assumir posições, de sair de cima do muro.

Eu não acredito, sinceramente, em que não tem opinião, que vai levando  a vida – e as relações – ao sabor das circunstâncias, cujo discurso vai sendo instrumentalizado de acordo com as conveniências.

Num país como nosso, em que as pessoas se mostram sem convicções, sobretudo no mundo da política, parece ser pecado assumir posições; e eu as assumo, pois nunca fui do tipo que muda de cor dependendo da ocasião.

Mas o que importa mesmo é não ficar em cima do muro.

É preciso ter coragem para sair em defesa de  suas próprias ideias.

Quem não defende as suas ideias é porque, de rigor,  não as tem; se as tem, não tem convicção das ideais que tem, por isso não as defende, por isso é mais cômodo ficar como a moça feia na janela, pensando que a banda toca pra ela ( Chico Buarque).

Na defesa das minhas convicções eu vou além: eu simplesmente radicalizo. Aliás, Confúcio dizia que o meio-termo não devia ser seguido. É que, segundo ele, o homem inteligente ultrapassa-o, o imbecil fica aquém.

Posso não ser inteligente, mas imbecil sei que não sou. Por isso, não tenho medo de me expor, de expor as minhas ideias, de dizer sobre as coisas que acredito.

Mário Sérgio Cortella, em Provocações Filosóficas, adverte que “não é preciso ir ao extremo, mas é essencial não ficar restrito ao confortável e letárgico centro”.  É que, prossegue, “muitas vezes o meio pode ficar anódino, inodoro, insípido e incolor”.

Nesse sentido, há um dito popular que serve bem às reflexões que faço agora: A radicalização é uma virtude; o vício está na superficialidade.

Sem ser sectário, eu radicalizo mesmo na defesa daquilo que acredito.

Tenho sido assim, e assim espero encerrar meu tempo de vida na terra.

Eu nunca me arrependi por defender com tanto radicalismo – sem sectarismo, repito –  as coisas que acredito.

Todos temos ciência da existência de mitos, fábulas e histórias enaltecendo a preferência pelo caminho do meio. Mas é preciso ter cuidado, pois ele pode também ser o caminho que leva à mediocridade.

A gente nunca deve ter receio de defender as coisas que acreditamos.

Da mesma forma, não devemos nos envergonhar se eventualmente decidimos mudar a direção.

Se há alguma coisa de que me arrependo é de não ter arriscado mais, de não ter amado mais, de poucas vezes ter visto o sol nascer. Compreendo, de mais a mais, que devia ter complicado menos,  trabalhado menos, ter visto o sol se pôr… (Epitáfio, Titães).

Bafejado pela elegância e cortesia

Tenho feito o que é possível – às vezes, até, o impossível – para não ser descortês com meus colegas, sobretudo no Pleno, durante os julgamentos.

Reconheço, inobstante, que a minha maneira de ser, a veemência com que defendo os meus pontos de vistas, muitas vezes, deixam transparecer, sim, que estou sendo deselegante – tudo depende, claro,  do ponto de observação de quem me julga ou das suas próprias idiossincrasias.

Faço questão de consignar, no entanto, que não sou dos tais que fazem apologia à deselegância. Gosto de ser cortês, gostaria de ser mais, muito mais cortês. Falta-me, no entanto, sensibilidade para sê-lo, daí que, algumas vezes, pode parecer que eu pretenda atacar algum colega. Nunca fiz e nem o farei. Jamais! Não é meu feitio! Não é da minha índole ser mal-educado e deselegante.

Digo mais. Não objetivo, com as minhas intervenções, quase sempre veementes, impor os meus argumentos. Não acho que se deva impor asnossas  ideias na base do grito.

Ditadura, na minha visão, nem dos amigos e nem de ideias.

É melhor construir na base do diálogo, bafejado pela elegância e cortesia.

Saber perder

Na vida  há bons e maus perdedores.

Não sei me definir nessa questão. Penso, pela minha história de vida, que sei perder e sei ganhar.

Tem sido assim a minha vida.

Todavia, tenho muito a comemorar, pois sempre ganhei muito mais que perdi. Mesmo nas derrotas me superei para, depois, sentir-me vitorioso; vitorioso, sim, por ter tido a capacidade de compreender e assimilar a derrota, como se fora alguma coisa natural.

Perdendo, sempre o fiz com a necessária altivez; nunca me apequenei ou me autoflagelei em face de uma derrota, mesmo as que dilaceraram a minha alma.

Sou sempre capaz de dar a volta por cima. A vida me ensinou – eu eu tratei de aprender.

Quando perco, admito a derrota, deixo a ribalta e vou cuidar de sarar a ferida.

Nos relacionamentos pessoais  em que   nos envolvemos –  seja profissional, seja pessoal –  é   preciso saber perder, afinal, admitir a derrota, o revés, é o mesmo que praticar a humildade.

É da sabença comum que não se vive somente de vitórias; perder ou ganhar é apenas uma consequência de viver  num mundo de extrema competitividade.

Ganha-se hoje; perde-se, amanhã. Nunca será diferente. O que precisamos é ser humildes numa e noutra situação.

O grave é quando, por pura falta de percepção, de tirocínio, perdemos para nós mesmos, para  nossa vaidade,  por não querer ver o óbvio, por não admitir que o jogo acabou, que é chegada a hora de viver das boas lembranças, de seguir adiante…, de aceitar a derrota.

O bom perdedor não foge à luta, não sucumbe e nem se apequena diante das intempéries.  Deve, ao reverso,  por-se de pé, empunhar a bandeira da dignidade e seguir noutra direção, sem perder a fé, sem se deixar  abater.

É levantar a cabeça e cuidar das feridas, ainda que delas resultem graves e permanentes cicatrizes.

Fui estimulado a essas reflexões, dentre tantas razões,  em face, também, de uma notícia que li, hoje, num matutino local, dando conta de que determinado cidadão, inconformado com a separação, que considerou uma grave derrota,  desferiu violentas facadas na ex-mulher, agindo como agem os maus perdedores, os que a vida não foi capaz de ensinar que perde-se hoje para ganhar amanhã.

Esse cidadão é, sim,  um mau perdedor.

Covarde, não teve forças para ir à luta, decerto porque não teve a percepção de  que nesta vida não se ama – e nem se é amado – apenas uma vez.

O bom perdedor tem que assimilar a derrota, deve saber partir, não se deixar abater pelo revés.

Nenhum de nós poderá se considerar um  bom ganhador se não for capaz de agir com altivez na derrota.

Perder ou ganhar faz parte da vida.

Pena que existam muitos que só sabem ganhar.

Ninguém sai de uma derrota ou de uma vitória emocionalmente equilibrado.

Mas é  preciso, repito, saber perder.

Numa e noutra situação é preciso  equilibrar as emoções,  não se deixar abater, afinal, a vida continua e somente os fracos de espírito se deixam sucumbir em face de um revés.